Os 10 melhores filmes de 2025

O Péssimo ano do cinema.

Parece consenso entre os mais atentos que 2025 foi um ano terrível para o cinema. Nesses tempos tão duros que vivemos, às vezes conseguimos contar com os poucos diretores que se opõem ao sistema. Aqueles e aquelas que desafiam a ordem e se relacionam com o cinema na surdina, se permitindo viver um romance censurado com a arte, torcendo para que consigam continuar a se aventurar com suas câmeras, a tocar no coração de uma indústria que se tornou alérgica a criatividade.

A lista que montamos para falar sobre o ano de 2025 é, talvez, a melhor que já lançamos no Outra Hora. Ela mostra que poucos bons diretores estão trabalhando atualmente, são 10 filmes e apenas 8 diretores, e mostra que esses poucos bons diretores não receberam nenhuma atenção da mídia. Esses são filmes que não venceram os principais festivais e as premiações hollywoodianas, não estão entre os mais vistos no letterboxd e suas equipes não deram entrevistas em nenhum tapete vermelho. São os filmes, porém, que serão lembrados. Os que resistiram em tempos terríveis, os que tentaram propor o diferente quando o consenso era imposto pelo algoritmo.

A radicalidade dos 10 filmes que escolhemos é a de impor um ritmo próprio. Eles não operam na política dos festivais, mas se rebelam contra o mundo dos super orçamentos. A política deles é o próprio cinema e suas reflexões são sobre temas existenciais, não sobre a pauta imposta pela velocidade das redes. As questões propostas por esses filmes jamais serão respondidas, porque são feitas para que pensemos sobre nós mesmos e sobre o mundo. Não são filmes feitos para que a gente se sinta bem e nem servem para motivar stories, mas meditações. Alguns deles são tão lentos que causam incômodo, nos fazem pensar sobre o que estamos vendo antes que um corte tente roubar nossa atenção.

Outros são menos radicais no seu estilo, caso de Nouvelle vague, mas ainda se opõem ao circuito de festivais e ao cinema feito-para-streaming simplesmente por serem o cinema que não busca validação da mídia ou das redes sociais para existir. São projetos de diretores que trabalham com orçamentos baixos e mesmo assim produzem mais filmes que os A listers de Hollywood. Hong Sang-soo e Kurosawa lançam dois longas por ano porque não estão presos a contratos de marketing e não dependem de puxar saco de bilionários nem de curadores de festivais europeus. Fazem filmes porque acreditam neles.

Por fim, fica a menção aos filmes que não vimos (porque não chegaram no Brasil ou porque ainda vão ser lançados), mas que estão do nosso lado na trincheira: Ontem a noite capturei Tebas, de Gabriel Azorín; Ressurection, de Bi Gan; Eclipse, de Djin Sganzerla; Ghost elephants, de Werner Herzog; Fuck the Polis, de Rita Azevedo Gomes; Silent friend, de Ildikó Enyedi; Back Home, de Tsai Ming-liang; As prisioneiras de Bordeaux, de Patricia Mazuy; O mundo dos mortos, de Pedro Tavares. Que podem agradar ou não agradar, mas que estão por aí buscando novos jeitos de desafiar a ordem e nos lembrando que não estamos sozinhos.

Os dez filmes que escolhemos são, no melhor dos casos, uma homenagem para todo o cinema-amante, aquele que ama escondido, e que esse cinema continue por aí nos motivando a desafiar.


10 | The Mastermind, de Kelly Reichardt

*Por Milena Alfama

Mooney (Josh O’Connor) não desperta empatia imediata, e sua construção parece ser movida em direção a um grande abismo.

No longa de Reichardt, The Mastermind, na cena inicial, a câmera parece acompanhar coreograficamente os movimentos de JB ao roubar uma pequena peça de arte do museu. Nesse ritmo, nós, espectadores, dançamos juntamente com a câmera e com JB, acompanhando seus passos metódicos.

Porém, após o “grande” roubo de outras quatro peças de arte, temos a impressão de que, dessa vez, ele não fez muitos ensaios e, ao perder seu ritmo inicial, o filme também inicia uma nova dança. Agora, sem uma melodia, temos a sensação de um completo silêncio, e os passos são feitos por um dançarino rígido, quase uma estátua.

Reichardt, em seu novo filme, reconfigura as convenções dos filmes de roubo ao caminhar juntamente com os impulsos do ladrão: inicialmente um gesto ambicioso e, depois, um movimento desesperado.
Fica a dúvida se, caso tivesse ensaiado mais vezes e procurado “dançarinos” mais profissionais para dançar ao seu lado, JB conseguiria se tornar um ladrão?


leia a crítica


9 | Relâmpagos de Críticas Murmúrios de Metafísicas, de Julio Bressane e Rodrigo Lima

*Por Lucas Machado Rodrigues

Os 48 fragmentos fílmicos presentes no filme de Bressane, entre 1898 e 2022, compõem um percurso de combinações que correspondem a um conceito vivo: “o nosso cinema brasileiro ou é experimental ou não é coisa alguma!”. Esta é uma das diversas frases proclamadas por Bressane em seus textos teóricos, que permitem refletir acerca da tradição subterrânea do cinema brasileiro. Os fotogramas, fluindo pelas ruínas da memória, se combinam nas incongruências semelhanças do experimentalismo brasileiro diante dos seus corpos e paisagens. Como decorrência do trabalho de montagem realizado por Bressane e Rodrigo Lima, desenvolve-se a história mais antiga do cinema brasileiro: cinema de memória, ou memória de cinema?

Unidos pela consciência do passado cinematográfico brasileiro, nós, nos descaminhos da montagem, voltamos a organizar com o olhar um todo desintegrado no passado e suas fagulhas no presente. No Brasil, tão deficiente de memória, de incêndios em cinematecas, todo fotograma compõe a presença viva de um destino incerto. Logo, o filme de um cineasta octogenário, de cabelos brancos e uma longa história, confere uma luta contra o desprezo do esquecimento. A memória como montagem viva para permanência da fruição das imagens.


8 | Folha seca, de Alexandre Koberidze

*Por João Francisco Milani

Alexadre Koberidze fez o filme mais radical dessa lista. O ponto de partida é um homem que procura sua filha, que pode estar em qualquer campo de futebol no interior da Georgia. Essa jornada nos leva a confrontar o tempo real da vida. O corte não vem para aliviar a falta de atenção, ele nos faz olhar para a mesma imagem por bastante tempo, tanto quanto ele acha necessário. A escolha de filmar em baixa resolução transforma Folha Seca em um jogo de formas geométricas na tela. Aqui, o uso do digital é plenamente justificado (mais do que nunca antes, talvez) por suas deficiências, o pixel está na tela como as marcas de um pincel.

Por tudo isso, Folha seca faz o que quase nenhum filme atualmente faz: ele obriga o espectador a olhar para ele e pensar sobre o mundo. Sobre cada forma e ação, sobre a posição que ocupamos no mundo e que o mundo ocupa em nós. Nos força a olhar para tudo, cada goleira, cada gato, cada folha e lidar com o que não está ali: porque o filme é sobre uma procura.


7 | Nouvelle Vague, de Richard Linklater

*Por Victor Overbeck

Nouvelle Vague, de Richard Linklater, parte de um paradoxo: revisitar um movimento que nasceu da recusa à tradição e hoje se tornou mito consolidado. O filme transborda admiração quase idolátrica, mas nunca deixa de medir o legado da nova onda do cinema francês. Habitando um espaço entre memória e forma, o diretor observa como um gesto de ruptura, uma vez assimilado, se fixa como linguagem histórica. Ao invés de buscar choque ou atualização, o filme acompanha a permanência desses mitos do cinema, ainda cheios de força, mas privados de seu impacto original. A figura central emerge, assim, simultaneamente como personagem vivo e forma monumental.

O filme não apenas revisita Godard, mas negocia com o que sobrou dele no imaginário contemporâneo. Observado com respeito e cuidado, longe da agressividade estética que marcaria sua obra posterior, Godard se torna figura monumental. Ao evitar o confronto direto com sua radicalidade, Linklater revela limites e lucidez: filmar Godard em 2025 parece menos provocar do que reconhecer que a vanguarda, uma vez absorvida, existe como forma histórica. É nesse gesto de observação de Acossado (1960) que o filme mostra como reverência e consciência crítica podem conviver.

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6 | O Senhor dos mortos, de David Cronenberg

*Por León Tourrucôo

De todos os filmes dessa lista, O senhor dos mortos é o que mais dialoga tematicamente com as ansiedades do zeitgeist contemporâneo. Inteligência artificial, ecoterrorismo, corrupção na indústria hospitalar, tensões Rússia-EUA-China e não monogamia. 

Estruturalmente e culturalmente pode ser entendido como uma atualização de seu filme de 1983, Videodrome. Temos dois empreendedores monomaníacos que são perturbados pela carne e pela tecnologia em durante suas cruzadas mórbidas. Mas agora a obsessão não é com sinais de TV piratas, e sim com a vigilância dos mortos através de mortalhas high-tech.

Como se não bastasse, o filme coloca em jogo três mulheres loiras e outras paranoias hitchcockianas. Na minha opinião, é a melhor reimaginação de Vertigo desde A prisioneira (2000).


5 | Leme do destnio, de Julio Bressane

*Por Lucas Machado Rodrigues
O leitor pode suspeitar da aparição de Leme do Destino, um filme de 2023, na lista de melhores de 2025, mas não há nada de errado na sua presença. Isto se deve ao fato que são poucos os filmes do cineasta Júlio Bressane que alcançam alguma distribuição para além do eixo Rio-SP. Apesar da carreira consolidada como realizador, com mais de 50 produções, as suas exibições ficam regradas a Cinematecas, cinemas de rua (os que existem), ou universitários. Em Porto Alegre, o filme teve a sua estreia em dezembro pela Cinemateca Capitólio.

No filme, nos deparamos com muitos desejos reconfigurados, repensados e remontados que refletem o percurso artístico do diretor. Mas mesmo assim, diante da paisagem carioca e suas silhuetas demarcadas de corpos, existe uma atemporalidade que nos escapa, que irrompe uma narrativa. Seja o olhar numa dança hipnótica com o fogo, interrogando o seu próprio limite como substância e movimento. Ou, através de uma câmera ébria que navega pelos corpos de um romance. Como Bressane diz: “Conhecer uma paisagem quer dizer saber lê-la, ouvi-la, escutar uma música, uma música de longa, uma música de muito longa, extremamente longa, longuíssima duração…”. Somos enroscados pela pulsação das imagens, e reorganizados pela montagem e seu espaço de memória.


4 | O que a natureza te conta, de Hong Sang-soo

*Por João Francisco Milani

O segundo filme lançado por Sang-soo esse ano é uma pequena investigação sobre o que é arte, algo recorrente na sua obra, mas dessa vez ele parte de um personagem que não tem o impulso para ser um artista. O que a natureza te conta dialoga, talvez até como uma resposta, com o filme de 2024 In water, em que os personagens tinham todo impulso artístico mas nenhuma ténica. O protagonista de O que a natureza… tenta observar a natureza, ele olha uma flor no escuro com a câmera do celular dele, ele sente que duas árvores tem alguma relação, mas não consegue elaborar nada sobre isso. 

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3 | Levados pelas marés, de Jia Zhangke

*Por João Francisco Milani

Zhangke reflete sobre os últimos anos da sua vida, da sua obra e do seu país ao colar filmagens de filmes anteriores seus com novas imagens para recontar a trajetória da personagem interpretada por Zhao Tao. A trajetória montada pelo diretor em torno da Barragem das Três Gargantas é uma viagem circular ao passado da região, vemos pouco a pouco o desenvolvimentismo afetar a paisagem até os dias de hoje e as consequências disso na comunidade que vive lá. 


2 | Cloud, de Kiyoshi Kurosawa

*Por Marco Oliveira

As recorrentes particularidades anuais na confecção dessas listas surjam talvez porque o cinema vive uma era na qual o tempo é relativo. Às vezes comprimido, às vezes dilatado.

É a internet e a velocidade da informação, em dialética com a nossa própria condição humana.

Kiyoshi Kurosawa já fez um filme sobre isso, talvez o maior e melhor deles (Pulse, 2001), mas em Cloud ele propõe uma atualização. A internet não é mais tão misteriosa, seus horrores não podem mais se aliar ao fantástico. O que resta agora são traços de humanidade. Eis a importância de um filme que não compreende o porquê deste tempo (em um mundo de cineastas que sabem de tudo e de tanto), mas que se propõe a investigá-lo e, a seu modo, lamentá-lo.

Existem poucos cineastas como Kiyoshi. Em atividade, ainda menos.

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1 | As Aventuras de uma francesa na coreia, de Hong Sang-soo

*Por León Tourrucôo

Desde a segunda metade do ano retrasado o filme circulava por plataformas não oficiais, chegando no Brasil no começo de abril. Já configurava em várias listas de favoritos de 2024 (no primeiro lugar da minha). É seguro assumir que o principal público nesse lançamento em Porto Alegre foi composto principalmente por frequentadores rotineiros dos cinemas de rua (em maioria aposentados), cinéfilos puristas, vítimas do boca a boca e uns desavisados. Acho interessante pensar que Iris (Isabelle Huppert) faria parte do quarto grupo.

Das três línguas faladas no filme, ela é fluente em francês e os outros personagens, em coreano. Entretanto, a maioria dos diálogos são em inglês, idioma dominado parcialmente por ambos. Iris, uma professora de autodidata de idiomas, é a unica que não parece se incomodar com essa incomunicabilidade. Por mais que ela se interesse nas outras pessoas, a felicidade está no processo, não exatamente em ter sucesso.

Ao invés de desenvolver seus personagens ou mostrar o sucesso (ou não) de suas aulas, Hong Sang-soo parece mais interessado em organizar uma encenação que consegue enquadrar a personagem de Huppert somente por uns breves momentos. Não é como se ela quisesse fugir da câmera, mas seu ritmo próprio não cabe em planos que foram feitos para encaixar personagens mais “comportados”.

É exatamente esse ritmo que a levaria a uma sessão de Aventuras de uma francesa na Coreia.

O filme abre com um longo plano de Iris lendo O estrangeiro, de Albert Camus, junto com sua aluna. Ela comenta como gosta bastante da primeira parte do livro. Não poderia ser mais claro.


Para montar essa lista, juntamos os filmes favoritos de 2025 dos nossos colaboradores e tentamos criar um mosaico que representasse o que a gente vê de melhor no cinema atualmente. A diversidade de filmes que nossa equipe vê e assiste aparece em destaque nas listas individuais, são produções de diversos países e com maneiras únicas de pensar cinema. Para montar o nosso top 10 só foram considerados filmes que tiveram lançamento comercial no Brasil no ano de 2025 ou que não têm previsão de lançamento.

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