Editorial outrahora.com
Perfeição… vem pouco a pouco, por muitos números.
É preciso voltar um pouco no tempo.
A ideia de qualificar obras e artistas não é nova. Alguns dos mais antigos tratados sobre arte trazem consigo as visões de seus autores sobre quais obras devem ser valorizadas e os motivos para tal valoração.
Podemos voltar 2500 anos atrás, quando Policleto desenvolveu um tratado (hoje perdido) onde, a partir de uma escultura modelo, detalhou a base de sua proposta matemática para as proporções ideais. O tratado, chamado cânone (do grego Kanṓn: vara de medida, padrão), serviu de parâmetro na Grécia Antiga, e hoje batiza um conceito amplamente utilizado academicamente.
A ideia de perfeição, em arte, surge a partir da matemática como forma de se chegar o mais próximo da natureza observável. Foi sempre um jogo de números.
Dois mil anos depois, os padrões mudaram de figura. Giorgio Vasari, em seu Le vite de' più eccellenti pittori, scultori e architettori, assinalava Michelangelo como o ápice da Arte Renascentista. O que isso significa? Que dentro das convenções hoje entendidas como o cânone de qualidade da Arte Renascentista, a figura do artista incidia de maneira devidamente humana nessa equação.
Ainda assim, pouco se apontava, então, para a experiência: não avalia-se arte apenas a partir do que se sente frente à uma pintura ou escultura, mas de como esta é feita a partir de ideias e convenções. Você pode se emocionar com os rabiscos de seu filho tanto quanto por uma sacola voando com o vento: nem por isso ambos são “arte” (e por não serem arte não são “menos”, também).
As estrelas Michelin vieram para mudar esse paradigma. O método de avaliar a qualidade dos restaurantes era mais um modo de guiar o consumidor do que, propriamente, refletir sobre a culinária. Tal inclinação, logo adotada pelo cinema e pela música popular, transformou a crítica de arte em comentário cultural, em assessoria para empresas que regem produtos. As estrelas tem o intuito de vender experiências, não refletir sobre elas.
Mas estamos em outro momento, em outra hora. É preciso condensar estas referências em busca do que entendemos como crítica de arte.
As estrelas, no cinema, tomaram outras conotações. São os astros, atores e atrizes, é a própria ideia de um império de imagens e sonhos. Os números podem ter perdido sua importância com a facilidade da tecnologia, mas a música nada mais é que uma questão matemática em sua essência.
Diferenciamos os dois, portanto, mas a escala de cotações à seguir serve para ambos.
Pode, e deve, ser entendida também como uma resposta à miríade de comentaristas culturais que dizem “não se importar com as cotações”, mas seguem as usando como chamariz. Se vamos usar números e estrelas no Outra Hora, eles devem ter valores determinados. Eles devem, como todas as palavras aqui redigidas, significarem algo.
Não intentamos, nem por um momento, ditar a visão de nossos escritores. Cada um escreve a partir de sua visão subjetiva: não existe imparcialidade em arte. O que se deve sempre buscar são bases objetivas, para que a crítica siga sendo, sempre, uma reflexão a partir não apenas da comoção superficial, mas das experiências e conhecimentos de cada um quando colocados frente à uma obra de arte.
10 ou ★★★★★
O Sublime
“(...) o Sublime consiste numa excelência consumada e numa distinção da linguagem, e foi isso que concedeu aos maiores poetas e prosadores sua preeminência e os revestiu de fama imortal. Pois o efeito do gênio não é persuadir o público, mas antes transportá-lo para fora de si mesmo. Invariavelmente, aquilo que inspira assombro, com seu poder de nos maravilhar, sempre prevalece sobre aquilo que é meramente convincente e agradável.”
— On the Sublime, de Longinus (século I)
Resgatamos um outro tratado de 2000 anos atrás, atribuído à Dionysius Longinus, onde este investiga O sublime. Falamos de obras cuja excelência formal fazem a pessoa transcender.
No entanto, adicionamos ao sublime a questão contextual, para que a experiência não aja como uma cegueira temporária.
Damos cotações perfeitas para obras que, colocadas ao lado da Grande Onda de Hokusai, ou do David de Michelangelo, não vão parecer deslocadas em importância e/ou imponência. Falamos de filmes como Aurora e Vertigo, de álbuns como Clube da Esquina e Pet Sounds.
Elaboramos, portanto, a questão Monalisa: caso este álbum ou filme fosse visto logo após a pintura de Da Vinci, ele se sustentaria?
9 ou ★★★★1/2
Obra prima
Se tornou tão comum chamar algo de “obra prima” que o termo perdeu peso. Você pode ter uma resposta emocional forte perante um filme ou álbum, mas às vezes é necessário dar tempo ao tempo, ampliar a lente, refletir em comparação.
Por isso, o conceito de obra prima que seguimos no Outra Hora se aproxima do conceito originário da palavra: uma obra que permite ao artista entrar na guilda dos grandes mestres. Um passaporte para o “cânone de admitidos”.
Significa que, com essa obra, o artista pode estar em uma conversa com aqueles que encontraram o domínio da forma, uma obra que, se exposta ao lado das maiores de sua arte, não vai soar deslocada.
Em suma: uma obra prima é a obra de um mestre da sua respectiva arte.
8 ou ★★★★
“Grande”
O conceito de grande obra empresta da famosa lista de Roger Ebert (Great Movies), embora rejeite na maior parte os métodos adotados pelo crítico estadunidense.
Uma grande obra é uma obra com ideias claras por parte do artista, e que é expressa com excelência por meio da forma.
Uma obra cuja excelência a faz merecer distinção ao longo dos tempos, merece ser apreciada, discutida e revisitada e cuja influência pode ser percebida em sua respectiva arte.
7 ou ★★★1/2
Excelente
Chamamos de “excelente” (ou outros adjetivos similares) uma obra que possui muitas virtudes, toca em momentos de excelência ou se aproxima dessa excelência em sua totalidade.
Uma obra que pode ser facilmente apreciada, revisitada para reavaliação futura
(seja ela material ou apenas com os efeitos da memória) e merece distinção em recortes menores de tempo.
Porém, dificilmente esta obra move a régua da dita forma de arte.
6 ou ★★★
Bom
Parte da matematização da arte é encarar as cotações como se encaram os conceitos escolares.
Mas não estamos mais na escola e seis não é mais a linha de corte.
Atribuímos seis, no Outra Hora, para obras que possuem virtudes reconhecíveis, que podem se aproximar de momentos de excelência, que podem ser facilmente apreciadas, mas cuja revisita não é uma necessidade recorrente, seja por conta de seus equívocos ou pela má execução de suas ideias.
5 ou ★★1/2
Razoável
Pode ser a metade, mas vemos o copo meio cheio. A metade ainda possui valor.
Cotação destinada a obras que possuem virtudes, mas às quais os equívocos impedem que essas virtudes possam ser facilmente apreciadas.
4 ou ★★
Frágil
Possui alguma virtude, mas seus equívocos a impedem de que esta se torne facilmente visível.
3 ou ★1/2
Ruim
Seus equívocos ditam seu valor, apesar de um ou outro elemento que mereçam alguma distinção.
2 ou ★
Pavoroso
Ainda reconhecível como arte, mas cujos equívocos assustam e ofendem.
1 ou 1/2★
Ruim
Dificilmente reconhecível como arte e/ou ofensivo em sua forma.
0
Não é arte.
Ler acima.