O trauma da colonização e a violência familiar em “O Iluminado”

Parte 3 da série “Cinema e memória: construindo o tempo em imagens”.


Clássico de terror Stanley Kubrick nos faz pensar sobre a construção do continente americano e suas consequências na vida de quem o habita. Em um primeiro olhar parece uma história de terror comum: um homem aceita um emprego para cuidar de um hotel durante o inverno, quando o prédio fica fechado e com pouco contato com o mundo. Ao chegar lá, junto com a sua família, uma história sinistra passa a assombrá-los, fazendo o homem entrar gradualmente em surto, pondo sua família em risco. O hotel Overlook, no estado do Colorado, é decorado de cima a baixo com símbolos indígenas como tapeçarias, pinturas e cabeças de animais nativos.

Em O Iluminado o que não lembramos é mais importante do que o que lembramos. A chegada da família ao hotel é acompanhada de alertas, especialmente do chefe da cozinha do hotel, que cuida daquele território, o único com memória, sobre uma família que passou um inverno naquele lugar até o surto do patriarca que matou as duas filhas e a esposa. Conforme o tempo vai piorando e o isolamento da família se estende, vemos os três passando por experiências com os fantasmas da família que uma vez andou pelos corredores do hotel. Junto com isso, a paranóia, o medo de que o passado venha assombrar o presente começa a tomar conta de Jack (Jack Nicholson) e sua esposa Wendy (Shelley Duvall).

O público experimenta essas sensações através do olhar do menino Danny (Danny Lloyd) que explora os corredores do hotel e entra em contato com os fantasmas das vítimas da tragédia anterior do Overlook. O menino descobre o passado andando de triciclo e vagando pelos corredores, o que é observado pelos retratos de indígenas norte-americanos pendurados nas paredes. Além disso, o diretor Stanley Kubrick cerca Danny e sua família de imagens violentas, como o faqueiro na cozinha que aponta para a cabeça do menino enquanto o chefe de cozinha alerta que o espaço passou por acontecimentos muito violentos que assombram o hotel.

Existem duas violências enterradas nas lembranças do hotel Overlook: uma delas é a violência do patriarcado, materializada no assassinato que assombra os personagens de O Iluminado. O fantasma do assassino que conversa com Jack assegura que ele deve fazer o que for preciso para manter a família ordenada, disciplinar o seu filho e controlar sua esposa. A violência do patriarcado, a obrigação do homem de controlar sua família, a impossibilidade da mulher e da criança de se exercerem no hotel (o que Danny faz o tempo todo é brincar) é o suficiente para levar Jack a um surto. Mas não se trata de Jack, ou do outro homem que matou sua família, ao final de O Iluminado temos a revelação da famosa foto na parede do hotel que mostra Jack em uma festa de ano novo 60 anos dos eventos do filme: a violência do patriarcado se reproduz a cada geração e fica registrada na memória.

A outra violência registrada, ainda que no inconsciente coletivo, dessa pequena unidade familiar e que vem à tona na trama é a colonização. As marcas indígenas nas paredes do hotel, os registros frios dos derrotados assistindo a anos de festas, tratados como monumento, são a memória da conquista do oeste, do genocício dos povos indígenas, a violência fundamental do continente americano. Logo, não é surpresa que em uma das cenas mais importantes do longa-metragem um rio de sangue toma conta do hotel, uma vez que ele foi construído em cima de todo esse sangue.

O Iluminado por muitas vezes soa como uma defesa da memória, especialmente dos que estão nas margens da sociedade. Jack, quando confrontado por sua esposa, diz que gostaria muito que ela esquecesse de quão violento ele é, antes de tentar matar sua família. Kubrick parece querer alertar sobre o que acontece quando se constrói um mundo inteiro em cima da violência e depois disso se tenta fingir que ela não aconteceu ou esquecer da violência, com a benesse de poder celebrar o que foi construído, comemorar o que está por vir (o fim do inverno aguardado por Jack, ou até o ano novo de 1921).

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