Crítica | Whatever People Say I Am That’s What I’m Not (2006) - Arctic Monkeys
O som adolescente que perdura.
Faz quase duas décadas que Arctic Monkeys vem costurando juventudes. Conheço gente que, separada pela diferença de 15 anos de idade, tem tatuado o mesmo “505” no corpo. Essa história de muitas adolescências começa há aproximadamente 20 anos, no dia 23 de janeiro de 2006, data do lançamento do primeiro álbum de estúdio da banda, Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not.
Ou melhor, a história começa um pouco antes, em 2005, quando a banda já era reconhecida no contexto em que se apresentava, no norte da Inglaterra. Além disso, foi testemunha e agente de um processo importante de mudança de paradigma da indústria musical: o protagonismo da internet na divulgação de artistas e na consolidação de seu público. Nesses anos, os integrantes de Arctic Monkeys distribuíam CD’s em seus shows e se tornavam conhecidos no antiquíssimo MySpace, uma das primeiras redes sociais populares da internet. Assim, quando finalmente lança seu primeiro disco, ele se torna rapidamente um sucesso de vendas e de crítica.
O álbum traz consigo fragmentos desse momento histórico (já na primeira canção está presente o gesto de desbloquear um celular antigo e checar as mensagens de texto), mas tematiza, sobretudo, a juventude, a noite, a bebedeira e a festa no norte da Inglaterra no início dos anos 2000. Até a sexta faixa, Still Take You Home, escutamos causos e impressões associados a esse mundo, quase que do exclusivo ponto de vista de um homem que vive aquela atmosfera. A sonoridade acompanha o assunto com guitarras sujas e riffs acelerados, o baixo marcado e bateria frenética. A partir da sétima faixa, Riot Van, outras nuances aparecem: andamentos mais lentos, outros tons de guitarra, outras relações e espaços sociais. Assim, o disco ganha em amplitude e sua experiência se torna mais densa.
Em termos de gênero, trata-se de mais uma vertente do rock, com o indie-garage-rock de The Strokes transformando os ventos do brit-pop e do punk que sopravam dos anos 90, além de outras sonoridades inglesas mais antigas – o disco conversa com The Police, por exemplo, nas guitarras de Fake Tales of San Francisco e na referência explícita à Roxanne em When The Sun Goes Down.
O espírito da juventude e da adolescência se expressam já na complexidade das composições, que é pouca. A intempestividade das guitarras base e solo dão a textura enérgica das canções junto à voz estridente de um jovem Alex Turner. Até a sexta faixa, as canções vão se tornando repetitivas, consolidando a sonoridade daquele tempo e espaço. Com isso, a veemência do estilo eventualmente enfraquece, e, por consequência, também a experiência do álbum - o movimento estabiliza. No entanto, isso está de pleno acordo com a primeira canção do disco, “The View from the Afternoon”, em que a letra entoa “I want to see all of the things that we’ve already seen”. O vício e a repetição também fazem parte dessa fase em que as noites são todas iguais e sempre prometem algo novo.
Com Riot Van, há uma ruptura na voracidade da primeira parte da obra. Nessa canção, os power chords e a sujeira dos riffs dão lugar a uma guitarra mais terna, quase compadecida daqueles personagens que desdenham da polícia, que se une ineditamente a teclados para construir algo que é novo ao álbum. A voz e a guitarra, especialmente na melodia do refrão, guardam uma melancolia que não cabia nas histórias da primeira parte do disco. É como se o olhar sobre aquele acontecimento, por sua gravidade - ainda que eles não se importassem -, mudasse e se expressasse na redução da energia da canção. Não há apenas euforia na noite de Sheffield.
Esse é um movimento interessante da segunda parte do disco: a forma da canção se molda ao espaço ou ao sentimento a que ela dá existência. Em Mardy Bum, um clássico indiscutível, há o espaço privado de um casal cuja relação já parece desgastada. Nesse caso, também as guitarras são mais limpas e as linhas são mais lúdicas, dando som a um amor bastante inocente, adolescente. A oralidade da lírica envolve, pois, ao valer-se de gírias e de expressões do cotidiano, acentua a realidade da situação, faz-nos aproximar dos personagens. As inflexões vocais em “Oh I’m in trouble again, aren’t I?”, como quem provoca ou se rende a contragosto, e em “The one that I can’t bear/ Well can’t we just laugh and joke around?”, como quem suplica pela volta de um encantamento que se esgota, são especialmente bonitas. O curioso de Mardy Bum é que, na ponte, o som hegemônico do álbum retorna, com guitarras potentes, a voz estridente, o baixo e a bateria sustentando essa intensidade. Ou seja, a energia crua da juventude permeia também esse espaço. Faz pensar se é a frustração do relacionamento que a faz aparecer, se é o desgaste que escalou para uma discussão mais bruta que o solo virá esfriar, ou se, ainda, o eu-lírico mente a razão de seu atraso e, na verdade, não perdeu o trem nem havia tráfego, mas alguma possibilidade de fazer festa no caminho.
When The Sun Goes Down se assemelha a essas outras duas canções nesse sentido. Nessa faixa, há a questão mais complexa que o disco aborda: a prostituição, uma presença daquele espaço, tempo e sociedade. A canção se estrutura em introdução, o verso e o refrão e outro. Na introdução e no outro, há um questionamento sobre a vida e a história daquela mulher que vaga pelas ruas e sobre o homem desprezível que a controla. A voz que indaga é apenas acompanhada por uma guitarra que anuncia uma variedade de acordes. Já no verso e no refrão, retorna a agitação, os power chords e a sujeira das guitarras, enfim, o frenesi e o êxtase da noite, como o disco os vem entendendo até então. Dessa maneira, encaixa-se essa outra dimensão social mais sórdida como parte integrante, como mais um causo, daquele universo de festa, divertido e a princípio inocente.
Daí decorrem alguns efeitos. Entre eles, vê-se que o teor crítico da música é atenuado, visto que se tornou um dos grandes hits da banda e que sua temática costuma ser apagada de sua popularidade. Ainda assim, a canção dá uma ideia de um meio social complexo, em que o hedonismo da juventude se imiscui a contradições basilares da opressão – nesse caso, de gênero. A parte final da canção retoma o olhar inquisitivo e algo ingênuo para essa situação, bem como a musicalidade composta apenas por voz e guitarra. O sujeito lírico reconhece a violência exercida por esse “scumbag”, mas, de sua posição social, só pode torcer para que aquela mulher escape.
Em Perhaps Vampires Is a Bit Strong But…, se provoca por todos os lados. A lírica constrói um inimigo que, prepotente e ressentido, torce pelo fracasso da banda. Há coisa mais adolescente do que criar um inimigo contra o qual se levantar e, ao fazê-lo, construir a si mesmo? Também a ponte instrumental, bastante transgressora no contexto do álbum, parece instigar o rival. Nela, a percussão criativa, a dissonância e o ruído, a batida rasgada das guitarras, o baixo quase como trilha sonora de filme de ação: tudo parece convocar ao combate.
Algo similar ocorre em From The Ritz To The Rubble, mas em um contexto mais narrativo. Em uma fila de bar, o eu-lírico entra em uma briga com os seguranças porque eles estavam sendo intransigentes – em suas palavras, totalitários. A gratuidade do evento chega a ser cômica e todos ali envolvidos parecem ser tomados pelo espírito da noite; os seguranças querendo uma história para contar, o eu-lírico defendendo uma honra que nem ele entende. A ressaca moral bate ao final da canção: “Last night, what we talked about / It made so much sense / But now the haze has ascended/ It don't make no sense anymore”. Na parte musical, chama a atenção a construção gradual do ânimo para a briga, em que elementos participam, como a guitarra que pouco a pouco vai encorpando, a linha lúdica do baixo, a entoação veloz que se torna cada vez mais intensa, e que, no refrão, precedida por um riff de guitarra que ascende, alcança o ápice.
A conclusão do disco, com A Certain Romance, é inventiva e reúne a energia da faixa anterior com a inocência de Mardy Bum, resvalando na sonoridade mais crua e agitada da primeira parte do álbum. É uma conversa, um flerte, que tem como assunto as pessoas, os comportamentos, o ambiente que fazem parte da experiência do sujeito lírico. A composição é menos impetuosa e mais sensível, mas sem perder a sujeira característica da guitarra, especialmente na introdução. Uma questão social é novamente mencionada, nos estereótipos do que era conhecido pela subcultura “chav” no Reino Unido, e a letra constrói a figura do narrador ao redor dessas pessoas que observa e critica, ainda que sejam seus amigos. Isso se dá em uma conversa, em que só o eu-lírico fala, com alguém descrito como diferente dos demais, como especial.
Ao final, um solo catártico – e bastante simples – intensifica a atmosfera que se resolverá em um acorde tocado pelas duas guitarras, uma limpa e terna, a outra suja – também terna, convenhamos. Para um disco inquieto e desafiante, é uma faixa de encerramento curiosa, na medida em que distancia o olhar da euforia inebriada das festas e dos pubs e que realiza um desfecho de sensibilidade mais elaborada para as várias histórias e impressões da noite do norte inglês. Certamente, alavanca a qualidade da obra.
Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not é um disco adolescente, composto por várias de suas dimensões: a expectativa, a festa, a frustração, a confusão, a tensão, o tesão, o inebriamento, o conflito e sua estranha leveza. As canções estão social e historicamente inscritas no contexto da juventude britânica, mais especificamente do norte da Inglaterra, Sheffield e arredores, no início do século XXI. Os vestígios desse tempo e espaço estão na presença inicial da tecnologia cotidiana – como os telefones celulares -, nos meios de transporte, nos espaços frequentados, nos costumes e expressões linguísticas típicas a eles.
Ainda que a matéria possa ser localizada, a forma sensível dada a ela, a essas temáticas, transcende sua referência. A conjunção entre forma e conteúdo, nas canções desse álbum, é muito bem realizada – inclusive em sua parte menos interessante, a repetitividade da primeira parte do disco. A música dialoga com a experiência entoada e, quando há uma mudança de ambiente, de sentimento ou de olhar sobre aquela realidade, também a sonoridade se transforma, ganhando interessantes modulações – é o caso evidente de Riot Van, Mardy Bum, A Certain Romance. Com essas nuances, o disco se torna mais diverso e impactante, e o faz sem perder de vista seu objeto, a juventude que se descobre em suas vivências.
O primeiro álbum de estúdio do Arctic Monkeys é, portanto, barulhento, ingênuo, divertido, um pouco irreverente – e às vezes meio bobo. Assim como todos deveríamos ter tido a chance de ser na adolescência. E assim como, passado esse tempo, ainda poderíamos, com certa consciência, por um momento de vez em quando, seguir sendo, para que não se perca a vida pulsante que na adolescência ganha corpo e ideia. A ela retornamos em Whatever People Say I Am That 's What I’m Not, vinte anos depois.