Crítica | “Vento Norte” (1951) e seus percussores
Quantas vezes assistimos a um filme e lembramos outro? Ou até de um poema, pintura ou fotografia.
Perder-se nas telas, gesto comum ao espectador, leitor, indivíduo, amante e cinéfilo. Gesto amador de montagem, um atravessamento que rompe com as falsas estruturas de proximidade e possibilita um outro mundo de imagens, desejos e justaposições aglutinadas no tempo. A memória prega peças no espectador, e na própria experiência subjetiva, o olhar opera uma montagem da tradição, uma constelação de lugares, leituras, imagens e espaços. Neste processo, podemos facilmente chamar um filme de machadiano ou kafkiano, e pouco importa se o realizador possui alguma proximidade com a tradição literária ou se leu tais autores. A imagem se dispõe em outro lugar suspenso no tempo, em que a linguagem transita livre das amarras lineares da história.
Nestes casos, a força que irrompe o olhar é agarrada pela experiência. Inevitavelmente. E aqueles que contemplam o quadro falam das suas semelhanças, misturando os impuros desejos do olhar. Diante do abismo da imagem, na queda do pensamento, a linguagem das águas e das coisas mudas, de imagens que nos olham com olhos familiares, são ecos de mil labirintos revistos.
Curiosamente, sempre me lembro de Borges quando penso em tradição, memória e cinema. Entre veredas e caminhos circulares, não podendo articular uma sílaba que não esteja cheia de ternuras e tremores. Semelhantemente, na condição fantasmagórica da imagem em movimento, há sempre um outro, soterrado, submerso ou aparente. Será que existem imagens novas na arte que se apropriou de todas as artes? Então, aqui está a questão: é não mostrando as coisas que o cinema significa, e assim são alguns filmes, que não se mostrando, se intensificam para nós.
Vi Vento Norte (1951), de Salomão Scliar, pela primeira (e única) vez no dia 11 de dezembro de 2024, na Cinemateca Capitólio. Foi em 35mm. Para mim, é quase impossível não ser purista com exibições em 35mm. Ouve-se o barulho do cinematógrafo, os ruídos da imagem, o colágeno, a materialidade do envelhecimento da obra. São sempre sessões memoráveis. E essa não foi diferente. O filme só havia sido recentemente exibido em 2015, na abertura da Cinemateca, e, naquele momento, era reexibido em comemoração aos 10 anos. Uma sessão única, para um filme único. Mas como colocá-la em palavras? Talvez elas me faltem.
O primeiro filme sonoro gaúcho se passa em Torres. Acompanhamos uma pequena vila de pescadores e a entrada de um forasteiro pelas dunas da praia. Aborda-se a vida longe da indústria e do grande ambiente urbano. Apenas pescadores diante da imensidão do mar e seus ventos. Depois de ter visto o filme, me perguntava, por que Torres? E o pampa? E a cidade moderna Porto-Alegrense? A escolha talvez seja influenciada pela grande potência do neo-realismo italiano na época, com filmes fora dos estúdios, luz natural, com narrativas simples e atores comuns. Salomão produziu apenas este longa, mas anteriormente havia trabalhado no curta-metragem Homens do Mar (1945), momento em que teve contato com os pescadores da região de Torres. O cineasta foi sempre reconhecido como um grande fotógrafo, o que é perceptível na produção do filme. As suas fotografias da cidade de Porto Alegre, ao longo dos anos 70, um pouco esquecidas (assim como o filme), demonstram uma sensibilidade para as linhas e espaços que atravessam os indivíduos. Em Vento Norte, podemos perceber as semelhanças desse olhar.
Após ver o filme, saí da sessão carregado de incertezas. Naquele momento, ainda não conhecia as fotografias nem o trabalho de Salomão, apenas me deparava com uma fita perdida do cinema brasileiro. O filme é sonoro, mas existe um pudor contra a palavra que intensifica a eloquência das imagens. O som, rastejando pelos fotogramas, pelas dunas, pelas ondas que despencam na praia, provoca um roteiro submerso calcado no cinema mudo, um silêncio musicado pela ausência da palavra. Os movimentos, os gestos, as paisagens, todos condensados na imanência da imagem.
Este é justamente um dos pontos levantados por Alex Viany, crítico e grande nome da historiografia brasileira do cinema. A sua crítica, publicada na imprensa gaúcha durante o período de estreia do filme, destaca qualidades técnicas e alguns problemas: “É apenas natural que o antigo fotógrafo de imprensa deixe-se impressionar mais pela fotografia do que mesmo pelo drama. Entretanto, é preciso que tenha mais cuidado ao futuro”. Salomão produziu o filme em 24 dias de filmagem, com uma equipe reduzida, atores amadores e profissionais, com uma câmera (arriflex) que, nas palavras de Viany, “já passara por tantas mãos que só vivia a pedir aposentadoria”. As complexidades técnicas decorrentes da produção tornavam-se matéria para a linguagem do filme, trabalhando a escassez no lugar do excesso, e colocando em conflito o sujeito e a natureza pelas imagens e palavras (montagem). O amadorismo é grande, mas as imagens são maiores.
Apesar dos comentários elogiosos de Viany, Vento Norte caiu no esquecimento. Hoje, é colocado como um filme secundário da historiografia brasileira ou sequer é citado. Um tanto curioso, mas a história é assim. Pois, o filme de Salomão carrega o que era proclamado por Nelson Pereira dos Santos, um ano depois, no primeiro Congresso Paulista do Cinema Brasileiro, realizado em 1952, em São Paulo. Nas palavras do diretor de Vidas Secas (1963) e Rio, 40 graus (1955), o cinema deveria buscar “um assunto que narrado com força e calor, lhe dê o reflexo das experiências humanas”, para “ver e sentir coisas da própria vida é o anseio comum de todos os povos”. Um discurso bem característico do pós-guerra, atrelado ao humanismo e a imagem do popular que marcava (e continua marcando) o desenvolvimento da identidade do cinema brasileiro. Em si, o filme comporta tudo isso e muito mais. Uma empreitada “neorealista” diante do imperialismo cinematográfico americano. Como um dos precursores do cinema novo, Scliar tinha uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. O caminho é tão direto que podemos facilmente colocar Vento Norte e Barravento (1962), de Glauber Rocha, lado a lado, e substituir alguns fotogramas. Além da semelhança na narrativa, com um vento poderoso que irrompe a história, há um certo transe das águas diante dos homens, que pode ser observado em ambos.
Hoje, a esta altura, minhas especulações e devaneios olham para os percussores de Vento Norte desejando a sua montagem ao lado de alguns filmes. A partir do momento que o vi, fiquei pensando nas suas semelhanças. Por que ele havia sido escondido de mim? Saí mudado, enjoado, atônito, uma nova pessoa, quebrando o alinhamento das ruínas do cinema brasileiro.
Lembro de Limite (1931), Stromboli (1950), Barque Sortant du Port (1895), Lu tempu di li pisci spata (1955), The Unchanging Sea (1910). Todos unidos pelo paradoxo visual da aparição de Vento Norte. Alguns filmes são semelhantes entre si, outros não, mas todos se encontram diante das imagens gravadas em Torres (RS) e pelo desejo primitivo do cinematógrafo: o movimento.
Como dito anteriormente, o filme teve pouquíssimas exibições, mas, recentemente, foi divulgada a sua restauração. Realizada pela Cinemateca Capitólio e Cinemateca Brasileira, a versão restaurada de Vento Norte já possui data de estreia. Antes de tocar as areias brasileiras, o filme será exibido no International Film Festival Rotterdam (IFFR), na Europa, mas já possui planejamentos de exibições para 2026 no Brasil. Por fim, fico curioso para revê-lo e para observar a recepção Europeia e Brasileira do filme, e quais serão as diferentes montagens realizadas diante da imensidão universal do litoral gaúcho.