Crítica | Ato noturno
Uma fanfic queer em Porto Alegre.
Reolon e Matzembacher filmam a cidade com os dois pés na rua.
Ato noturno é a história de um ator, interpretado por Gabriel Faryas, que se apaixona por um importante político de direita em Porto Alegre. Desde os primeiros momentos, os diretores filiam sua história em um gênero literário que foi muito pouco explorado no cinema com materiais originais: a fanfic. Ato noturno é um longa-metragem que desafia o padrão narrativo realista que se impôs no cinema brasileiro, os diretores exageram no uso de contrastes e de técnicas de direção que remetem ao thriller erótico depalmiano. Porém, a esperteza que os diretores têm em saber como filmar a história que querem contar não se traduz em habilidade para falar na gramática que escolheram.
A história parece ter saída diretamente dos sonhos de um adolescente. Dois homens muito diferentes se apaixonam, os diálogos são expositivos e bregas, carregados de tesão e servem apenas para que a atração deles se intensifique. E esse é o melhor mérito de Ato noturno: a certeza e o prazer em ser uma fanfic. Não é só a trama que se curva fora da convenção realista porque está muito excitada, a câmera realça constantemente o contraste de cores primárias que iluminam a pele dos dois homens como personagens de um conto de fadas.
Além disso, os diretores usam efeitos de câmera e edição para dialogar com o thriller erótico dos anos 90, outro gênero que subverte a realidade. São os zooms e split screens, tão associados ao cinema de De Palma, que aparecem aqui não só como homenagem, mas camaradagem com a visão de mundo transformado pelo erotismo.
É visível que os diretores não têm a menor ideia de como (ou porque) usar essas técnicas para explorar o mundo dos personagens. Uma cena em particular começa em um dos piores fades que já vi, sobrepondo apartamento onde mora o protagonista a uma imagem dele e do seu príncipe encantado rindo em um carro, no apartamento temos um festival de efeitos de câmera que inclui um split screen de um personagem descendo a escada em caracol do prédio enquanto o outro está parado olhando. Essa cena se encerra em uma bela imagem do Gabriel Faryas dançando na sua sacada com a luz nas suas costas, e depois disso um novo terrível fade para um plano aberto da paisagem portoalegrense.
Fiz essa descrição porque me parece que os dois diretores se divertiram brincando de Brian De Palma com uma câmera tanto quanto gostaram de brincar de Walt Disney para maiores escrevendo o roteiro. E desse ponto de vista eles foram capazes de defender seu filme. Um conto de fadas ambientado no mundo mágico e colorido de Porto Alegre, com o Theatro São Pedro, a Redenção, a Praça da Matriz, o aeromóvel.
E até aí Ato noturno é um bom exercício, com erros e acertos. O problema é que 120 minutos é tempo de mais para isso. Tudo isso que descrevi está dado já na primeira hora do longa. Reolon e Matzembacher, por não terem bala na agulha para fazer um filme de gênero tão extravagante, uma hora caem na própria armadilha. Há uma cena em que os dois protagonistas transam escondidos atrás de um carro na rua. Vemos isso principalmente pelo ponto de vista de um voyeur que está filmando eles. Mas o ato de olhar não é filmado com prazer, nem com inveja, é apenas um dispositivo de roteiro.
A reta final inteira da produção perde o gosto de trocar o realismo pelo tesão e se prende em reviravoltas e diálogos chatíssimos para tentar chegar no fim do filme. Troca a brincadeira pelo trabalho e faz tudo perder um pouco a graça. A cena final: um tiroteio na redenção que termina com os dois personagens novamente transando é boa, mas o caminho até lá é tortuoso, de um jeito que não vale a pena o esforço de aturar o filme até aquele ponto. A sensação é que os diretores também já estavam de saco cheio e só queriam justificar a cena que idealizaram.
Vindos de tinta bruta (2018), que é melhor no conjunto da obra, a dupla de diretores portoalegrenses deu um passo importante para o seu trabalho: a exploração de um cinema ainda mais entregue ao prazer do que no seu filme anterior. Os dois usam Porto Alegre como nenhum outro diretor fez na última década e em Ato noturno encenaram as fantasias mais vorazes que podiam. Faltou para eles o impulso de ir até o final, de gozar com o seu público, de subverter as formas narrativas tão sem graça que o cinema gaúcho está submetido.