“As canções” e as nossas lembranças.
Parte 2 da série “Cinema e memória: construindo o tempo em imagens”.
O último filme lançado em vida pelo documentarista brasileiro Eduardo Coutinho sintetiza as melhores qualidades dos filmes dele. “As canções” é uma homenagem a maneira como contamos as nossas histórias. A única história que importa no documentário é a que o entrevistado está contando, a sua versão sobre algum momento importante da sua vida: infância, casamento, luto, amores perdidos etc., todas baseadas em uma canção, que é declamada em frente a câmera. Todos os entrevistados foram selecionados nas ruas do centro do Rio de Janeiro e são filmados do mesmo jeito: em um teatro, sentados em frente à câmera. Nada mais aparece no filme além da voz de Eduardo Coutinho, de trás da câmera, eventualmente fazendo uma pergunta.
Uma premissa central do cinema de Eduardo Coutinho desde o clássico “Cabra Marcado para Morrer” (1985) é a de deixar um motif despertar os depoimentos que os entrevistados quiserem dar, sem preocupação com a verdade ou com informações. O dispositivo da memória varia ao longo da sua obra: é o próprio prédio em “Edifício Master” (2002), a visita do papa em “Santo Forte” (1999), a virada do milênio em “Babilônia 2000” (2001) ou pedir que o entrevistado cante alguma canção em “As Canções” (2013).
Essa operação tem efeitos distintos em cada depoimento: um dos entrevistados subitamente começa a chorar ao cantar uma música que sua mãe cantava, seu choro é seguido pela confusão do homem que não entende porque está chorando. Eduardo Coutinho usa a música como catalisador para a história que está sendo contada, ele estimula as pessoas a inserirem a canção que escolherem na entrevista, e assim a câmera acessa os sentimentos com pouca mediação, dando novas possibilidades de nos relacionar com as histórias contadas.
Se Coutinho não se comunica com a gente através de letreiros, ele nos explica “As Canções” pelo conteúdo das entrevistas. Em determinado momento do filme, ele pergunta a um dos seus personagens: “a música serve para alguma coisa na vida?”. O personagem, Queimado, que conta como uma música reuniu ele com a sua esposa depois de uma briga no começo do relacionamento responde: “eu queria saber como que alguém que gosta de alguma coisa faz pra lembrar dela sem música”. O diretor toma essa resposta como a tese central do seu documentário, são as músicas que conduzem as memórias das pessoas na tela. Chama atenção que a entrevista seguinte a essa fala seja apenas uma interpretação da canção “Ternura”.
Outro depoimento que marca essa relação entre a canção e o passado é o de Ózio. Ele fala sobre a morte da sua esposa e conta que depois disso pediu para a mulher ficar longe dele, para que pudesse continuar sua vida. Ele faz esse pedido cantando uma canção composta por ele mesmo. A canção aqui é a sua maneira de lidar com o luto, ao mesmo tempo ela reforça a lembrança da morte da esposa e possibilita que o personagem se relacione com ela de alguma maneira.
É sobre essa canção que Eduardo Coutinho fez seu filme. A possibilidade de cantar o passado enquanto se conta ele, de confortar na dor da perda e exaltar o prazer do amor através da poesia.