A memória e o fim da vida em “Morangos Silvestres”

Parte 1 da série “Cinema e memória: construindo o tempo em imagens.

Filme dirigido por Ingmar Bergman faz um homem velho se confrontar com seu passado. O professor Isak, interpretado pelo célebre diretor sueco Victor Sjöström, faz uma viagem de carro para receber uma homenagem comemorando os 50 anos do seu doutorado. De carro, ele passa por cenas e lugares que o fazem visitar momentos do seu passado: sua infância, seu casamento, sua profissão e tem que se deparar com a solidão da sua velhice. Ele é acompanhado por sua nora, interpretada por Bibi Andersson, que está grávida e pensando em se separar do único filho do professor.

A física de Bergman em “Morangos Silvestres” faz o passado confrontar o presente e o futuro o tempo todo. O professor entende que sua solidão tem a ver com a sua própria postura infeliz, que ele também vê na sua mãe e no seu filho. Ele viaja em sonhos e alucinações a diversos momentos que o levam a perceber isso. Na primeira sequência onírica do filme, antes de começar a sua jornada, o protagonista sonha estar em uma rua vazia quando uma carruagem fúnebre quebra e ele vê a si mesmo tentando sair do caixão. Estabelecendo que a análise sobre si mesmo e o estado da sua vida se dará em uma viagem ao próprio inconsciente.

Já na estrada, o personagem para em uma antiga casa onde costumava passar o verão e, como se atravessasse uma porta, se transporta para o seu passado. Ele vê o seu primeiro amor em conflito por amar o irmão do protagonista e não ele. Ela conta para uma confidente que o personagem a faz sentir sem valor, porque ele só quer discutir filosofia e tocar piano e nunca se divertir, enquanto o irmão de Isak a faz sentir empolgação.. Na cena, vemos a tensão entre a celebração e a brincadeira das crianças da família com o homem velho observando a cena de uma jovem sofrendo por amor. 

Em outra sequência, ele sonha que está fazendo uma prova. O professor o reprova por não conseguir pedir perdão, mas também por ser insensível e egoísta. Isak é conduzido a uma cena do seu passado, sua esposa o traindo, a mulher conta para o amante que seu marido é frio e hipócrita, incapaz de ser afetado pelas suas traições. As duas sequências, e outras em que visita o passado de forma literal (sonhos, alucinações) ou através do presente (encontrando um casal que vive um casamento infeliz na estrada), são a maneira de Bergman fazer Isak se confrontar com o estado da sua vida partindo do que as pessoas que amavam ele sentiram por sua conta. Para o homem velho, o que é inevitável é seu passado, não seu futuro já muito curto.

Ao final, em off ele nos conta que visitar as imagens da sua infância o acalma. Na realidade, não há nada de calmaria na experiência de Isak ao longo de “Morangos silvestres”, a sensação é turbulenta e deprimida, mas ao visitar seu passado o protagonista consegue entrar em paz com seu presente. As suas memórias não o absolvem, pelo contrário, ele entende os motivos de estar sozinho e assim parece pronto para buscar sua redenção.

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