Crítica | Torture - War Crime 2: Genocide Protocol (2025)
A música, a violência e a busca pela paz
Poucas bandas têm a coragem (ou, talvez, o propósito) de serem tão vocais na luta anti-guerra e anticolonialista quando Torture, um projeto do multi instrumentista K.K, de Chicago. Torture lançou em novembro de 2025 a continuação de seu projeto War Crime, álbum de 2022 sobre a guerra no Iraque em 2003. War Crime 2: Genocide Protocol é um protesto em três atos que passeia do metal extremo ao experimentalismo avant-garde, resultando em um disco triplo inteiramente dedicado à manifestação contra o genocídio do povo palestino.
Torture é uma banda que transita principalmente entre slam death metal e grindcore, explorando ambos os gêneros em War Crime 2. O primeiro disco, nomeado como “gênesis”, é um slam death metal bem produzido, com composições completas e letras que evidenciam a posição política do artista, sem deixar o álbum em um campo de “meias palavras” na temática. Sua bateria é veloz e estridente, a guitarra é suja, o baixo desenha linhas de jazz e o vocal é gutural e quase incompreensível. Sou suspeita para comentar, mas o som de Torture é meu cup of tea do death metal de maneiras que nem entendo direito o porquê.
“I can’t stand for this fuckin’ shit, neither should you
How could you stand by and watch this shit happen
And come to the conclusion its not a genocide?
I do not understand how you can have eyes
And not see what’s going on
All of these people they propagandized
They don’t know what they’re voting on, facade goes on
Don’t let them get into your head
There’s no defending mass slaughter
There’s no defending mass slaughter you fuck”
O segundo ato, nomeado como “êxodus”, é grindcore em sua essência. Com 24 faixas e 5 minutos de duração, os sons são tão barulhentos que obrigam o ouvinte a se entregar para o caos criado pelo músico. Em um liquidificador de sons, a velocidade e violência das músicas criam faixas tão abstratas que é difícil não se sentir desconfortável ao dar play. O disco inteiro soa quase como um glitch. A faixa “Gaza strip”, com 18 segundos de duração e apenas dois segundos de música, serve justamente como um sublinhado nas concepções do artista acerca da temática do colonialismo.
Já o terceiro disco, “revelations”, é o que mais destoa do projeto. Composições dodecafônicas curtas criadas a partir de instrumentos virtuais genéricos, com timbres artificiais aparecem, mostrando as referências de música clássica experimental do artista. Em seu Instagram, K.K. citou os compositores Webern, Schoenberg, Berg e Boulez como inspiração, traduzindo essas menções de peças curtas e irregulares para dentro do universo do death metal. É um terceiro ato curioso e que amarra de forma inesperada o conceito do projeto, criando um contraste entre barulho e ordem.
Existe algo particularmente incisivo na forma como Torture transforma violência política em linguagem sonora. A escolha pelo som extremo (bateria vibrante, guitarra abrasiva, baixo contrastante e vocal limítrofe) parece ser um espelho da própria temática abordada pelo artista, onde essas escolhas criam um universo inteiro respingado de sangue e suor, um ambiente onde somos colocados de frente para a barbárie da realidade do genocídio.
É um disco que causa desconforto físico. A velocidade, o ruído e a densidade sufocam e produzem uma experiência de ansiedade que, paradoxalmente, nos conecta com as vítimas da guerra. Ao sermos empurrados para fora da zona de conforto, quem escuta é convidado a sentir o peso da crueldade denunciada. Longe de ser uma representação romantizada, é uma via potente de abordagem e compreensão do assunto. Apesar disso, a arte é, no fim, uma linguagem, com seus próprios limites e obstáculos - ainda mais quando falamos de uma temática sensível como essa. O ouvinte é passivo e ativo dentro da mensagem, podendo sim ser levado à sensações e sentimentos de conexão, mas também precisando se reconhecer como um observador distante do objeto.
Na primeira vez que tive contato com Torture, fiquei imediatamente hipnotizada pelo ritmo brutal e pelo gutural minimalista. Avancei no Bandcamp do projeto, consumida pela curiosidade de ouvir mais do som brutal que me agradou tanto, ainda sem entender direito qual era o ímã para a banda dentro de mim. Ao escutar o primeiro volume de War Crime, o projeto War Crime: 37 track, 37 homicides, mergulhei no mundo da prisão de Abu Ghraib, no Iraque, que até então eu nunca tinha ouvido falar. Fui tão capturada pelo projeto que imediatamente busquei mais informações e, rapidamente, me vi em um buraco de coelho, lendo sobre tudo que os Estados Unidos haviam feito com pessoas inocentes em nome da “democracia e liberdade”.
Entendi que cada projeto do Torture é dedicado à uma denúncia de guerra e um grito desesperado pelo fim à violência. Combater o violento com o violento parece ser a única saída, e a arte pode ser um dos caminhos para isso de maneira precisa. Respeito muito a sensibilidade de K.K. por entender que a música, essa forma linda de arte que nos conecta com pessoas que não conhecemos, que expande nossos horizontes e é capaz de criar universos paralelos, pode ser uma forma eficiente de falar sobre assuntos importantes.
Fiquei pensando sobre como a música me atravessou e me movimentou à pesquisa. É uma música política, que aborda fatos históricos com nome e sobrenome. E me peguei pensando sobre qual é, no fim, o papel da arte. Não é necessariamente informativo, e também não precisa ser sempre direcionado à conscientização do público. Mas o projeto de K.K. funciona dessa forma, incentivando seus ouvintes a estudar, enxergar, dar uma atenção inevitável à tragédia que nos cerca e a qual somos anestesiados demais para refletir sobre. Definitivamente, vale o desconforto da escuta.