Crítica | LUX (2025) - Rosalía
Não é de hoje que se pagam indulgências para entrar no céu.
Foi impressionante a velocidade com a qual o álbum LUX foi alçado à categoria de clássico. Na verdade, antes mesmo de seu lançamento. Engraçado perceber isso quando uma parte da campanha de divulgação se atentava em opor o álbum à lógica moderna do hiperestimulo e das respostas fáceis. Talvez o processo de criação tenha se aproximado a essa oposição (mas, eu dúvido muito). Afinal, foram anos de preparação e o trabalho de pesquisa é realmente louvável (só que ninguém compra disco pra ouvir com manual), mas o resultado não poderia ser mais contemporâneo e comum.
Acho, e espero, que todos já ouvimos sobre a ascensão do conservadorismo nos últimos anos. E não querendo taxar a artista catalã de reacionária, mas me parece que a impossibilidade de sonharmos com um mundo novo — aquele papo de que pós-capitalismo voltaremos para o feudalismo só que dessa vez com carros elétricos autodirigidos e internet 5G — facilita e possibilita uma reconstrução fantasiosa e falsa de um sagrado emulado.
EGO SUM NIHIL EGO SUM LUX MUNDI
As colaborações com A Orquestra Sinfônica de Londres e artistas influentes do passado, como Bjork, contemporâneos, como Yves Tumor, e ibéricos, como a portuguesa Carminho e os espanhóis de Yahritza Y Su Esencia, não foram suficientes para distanciar Rosalía de sua vaidade. Em todas as músicas um cacofônico “yo” entremeia as súplicas, dificilmente apostando em um deus que tudo permeia, toca e constitui. A coletividade é imprescindível à experiência religiosa e aqui a aposta está em um sagrado construído de dentro para fora, sendo a cantora o auto intitulado messias. Talvez os 33 anos tenham subido à cabeça.
O mais interessante me parece ser como o álbum se utiliza da estética divina para falar do sentimento mais sagrado: o amor. É um trabalho parecido de dissolvimento egóico: se fundir a deus e ao amor. Essa perspectiva totalizante joga duplamente para a submissão e para a dominação. Se fundir a deus não seria, também, tornar-se deus?
Se no olhar dos relacionamentos e das relações de poder homem/mulher impõe-se a submissão feminina, por outro lado no jogo global da indústria musical é claro que a “conquista” de álbum feminino de artista em língua espanhola mais reproduzido no Spotify no dia do lançamento só é possível devido a uma mega operação marketeira. Não pensem que a escolha de cantar em 13 idiomas é simplesmente curiosidade linguística e cultural.
CÂNONE
As quinze faixas que compõe o álbum, por mais que sempre referenciando algo novo, soam tematicamente repetitivas. Monocentradas, destacaria as canções Porcelana e De Magrudá pela incorporação da música eletrônica, trazendo o entusiasmo e as vulnerabilidades e revelações propícias de uma guerra santa. La Perla e Sauvignon Blanc constroem perfeitamente a atmosfera de intimidade que somente uma relação com muita entrega possibilita, a primeira com toda a sua presente brutalidade e a última com esperança. E por fim, as duas melhores faixas do álbum Memória e Magnolias, que tratam da morte necessaria para a aparaição do divino. Sendo, imagino, morte do ego tão claramente exposto e a esperança de uma boa passagem para o outro lado.
APÓCRIFOS
A mistura entre elementos clássicos e pops, assim como a influência do flamengo de fato geram interesse ao ouvido virgem. Cada música contém muitas camadas, o que faz a escuta não ser repetitiva. Ao mesmo tempo que soa um pouco como validação a partir daquilo que já está consagrado, ou seja, dificilmente será contestado. Bandas como Coldplay, Queen, e mesmo a Lady Gaga, já utilizaram de composição clássica em suas músicas. Mas em LUX ela opera como um termo de diferenciação que separa o sagrado do profano. Nesse sentido, o álbum de 2018 El Mal Querer, que também aborda temas religiosos se prova uma aproximaçao muito maior com o divino, reinvidicando heranças. A voz de Rosalía é incontestavelmente admirável, bela e agrressiva, servindo como instrumento de veículação de uma mensagem precisa.
O que me parece fora de tom é a necessidade do mercado e da crítica em misturar o divino citado e reconhecido pela artista com a própria artista ou com o álbum. “Transcendente”, “Divino”, ou qualquer outro termo beato soa mais como conformidade de que, sim, Este é o deus dos nossos tempos. Individualizado e criativamente dependente. O disco é perfeitamente realizado, mas alegar um rompimento de barreiras é mentira. Rosalía está onde exatamente pertence. Adota a estética minimalista, incorpora a orquestra como diferenciado/elitização em relação ao resto do pop. Se adequa perfeitamente aos tempos em que vivemos, não sendo uma força de criação. Não é nesse deus que eu acredito.
Deus é vários, ele/a está nas multidões.
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