Crítica | HAMNET (2025)

Feminino, Hamnet resgata história indígena da Europa

Nós devemos reorientar nossa memória coletiva. A necessidade para isso nunca foi tão grande quanto agora que temos descoberto que o caminho do ‘progesso’ é a extinção das condições para vida na terra.
— Marija Gimbutas em "The civilization of the goddess" (1991)

Uma fenda escura aparece repetidas vezes no filme, seja na floresta ou em sua contraparte cênica. Créditos: Divulgação.

Pode parecer estranho caracterizar um filme como “feminino”, mas Hamnet (2025) o é. Ainda que Chlóe Zhao seja uma diretora, esse enquadramento não exige que a pessoa por trás da idealização do longa seja obrigatoriamente uma mulher. A própria Chloé se refere, em uma entrevista ao The Guardian, a uma consciência feminina presente em todo ser humano. Uma faceta que constrói sua força a partir da interdependência e não da dominância. 

O feminino e o masculino são, afinal, imagens às quais associamos distintos valores e a partir deles organizamos não somente a sociedade como sua produção artística e histórica. Ainda que o nome de Shakespeare apareça no material de divulgação, no filme é evocado somente em seus minutos finais. Este não é mais um dos infinitos produtos destinados a retratar de forma heróica um dos mais fantásticos e reproduzidos dramaturgos ingleses. Este é um resgate feminino da história, um resgate da história do feminino. 

Cunhado pela arqueóloga lituana Marija Gimbutas, o termo “Europa Antiga” (Old Europe) se refere a uma cultura pré-indo-europeia que teria se desenvolvido entre o Neolítico e a Idade de Bronze no sudeste europeu. A hipótese foi elaborada a partir de achados arqueológicos que indicariam que esses grupos operavam em organizações não hierárquicas, pacíficas e com cultos centralizados na imagem de uma Deusa. Características estas bem distintas do que viria a se tornar a Europa sob influência dos povos indo-europeus, patrilineares com tendência à guerra.

Ainda que contestada até hoje, Marija Gimbutas propõe algo instigante: o continente europeu não foi, desde seu princípio, uma máquina de matar. Existe, também, uma ancestralidade europeia feminina que foi apagada, subjugada e colonizada pelo masculino impetuoso. Existiu, na Europa, um povo indigena, entrelaçado com a terra e a natureza que o circundava.   

A natureza não apenas integra longas sequências de contemplação em Hamnet como também é personagem onipresente na história. O filme começa com Agnes, personagem interpretada por Jessie Buckley, deitada ao lado das raízes de uma árvore. Ela, que é filha de uma mulher oriunda daquela mesma floresta. Uma mulher estranha aos cristãos, conhecedora das plantas e de seus efeitos. Agnes é filha de sua mãe, herdeira de uma longa linhagem de mulheres com raízes profundas naquela terra.

Se a razão é masculina, Agnes navega a vida intuitivamente. É guiada não pelo mito individualista do poder e sim pela força do seu vínculo com as relações humanas e não-humanas, como a estabelecida com seu falcão. Seu ponto de vista, que guia a narrativa, não é o do conquistador, da subjugação da morte em última instância. Ao contrário, é o drama de suas conexões, das quais Shakespeare, como seu marido, interpretado por Paul Mescal, é uma delas.

Enquanto a madrasta de Agnes reprime sua origem na floresta, a mãe de seu marido, receosa no início, encontra terreno comum no convívio. Em determinado momento, quando Shakespeare se dirige a Londres, restam apenas mulheres e meninas na casa junto ao pequeno Hamnet, interpretado por Jacobi Jupe. Essa configuração permite a expressão de uma antiga consciência, oriunda daquela cultura descoberta por Marija Gimbutas

Quem sabe o momento em que ela mais esteja evidente na relação entre essas mulheres seja nas deslumbrantes e intensas cenas de parto. Enquanto apenas uma cena de sexo é filmada, o filme mostra Agnes dando a luz três vezes, em dois momentos. Esses trechos tomam seu tempo e permitem à atriz Jessie Buckley um trabalho sublime envolvendo o corpo, indissociável das consciências, humana e natural.  

Ao ganhar o Globo de Ouro por melhor atriz em filme de drama, Jessie Buckley brinca que o filme sobre o mais conhecido inglês foi dirigido por uma chinesa com uma equipe majoritariamente polonesa. Créditos: Divulgação.

Hamnet e sua gêmea, Judith, interpretada por Olivia Lynes,  trocam de roupas, buscando confundir a casa em relação ao gênero das crianças. Ainda que não sejam idênticos e  a brincadeira seja perceptível, a família compra a ideia. Em sua longa entrevista à revista Rolling Stones, a filósofa e ensaísta Susan Sontag comenta: “Seria interessante se os homens fossem mais femininos e as mulheres mais masculinas [...] esse seria um mundo mais atraente.”

São três os homens mais proeminentes na história: o irmão de Agnes, Bartholomew, interpretado por Joe Alwyn, William Shakespeare e seu pai John, interpretado por David Wilmot. Enquanto este último age de maneira agressiva, tentando a todo momento submeter o filho aos seus desejos, Shakespeare e Bartholomew são retratados como figuras receptivas, de escuta aberta. 

Este é, por sinal, um dos motes do filme: ir de encontro à realidade com um coração aberto. Ainda que não estejamos acostumados a pensar em uma Europa indígena, tão distante que essa realidade pode parecer, manter o coração aberto para diversidade e o convívio com povos cuja relação íntima com a terra não é passado e sim presente é uma alternativa. Uma possibilidade de resgatar uma consciência e um modo de vida que é humano e não restrito a certos grupos. 

No prefácio de The civilization of the goddess, Marija Gimbutas escreve: “A base generativa de qualquer civilização é fundamentada em seu nível de criação artística, conquistas estéticas, valores imateriais e liberdade que faz sentido da vida e a torna prazerosa para os cidadãos, assim como o equilíbrio de poder entre os sexos [...] É um tremendo engano imaginar a guerra como endêmica à  condição humana.”

Enquanto compatriotas de Shakespeare enfrentavam o drama da vida invadindo e saqueando as terras do continente americano, aniquilando as populações originárias, o escritor enfrentava o drama da vida em cima do palco. Espaço democrático, onde se encontram plebe e nobreza, o teatro propicia o encontro de consciências. Propicia também a elaboração da subjetividade humana, evidencia a interdependência e as relações.

É evidente que a forma é o que caracteriza e distingue o cinema das demais artes. Ela é a responsável por canalizar o conteúdo e despertar seu potencial. Hamnet faz algo mágico ao colocar essa especificidade do audiovisual em diálogo com a estrutura do teatro e suas histórias.

Nas cenas finais do filme, estas artes se encontram, assim como a vida e a morte o fazem no tablado. 




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