Crítica | Cowards (2025) - Squid

Não é tão fácil assim estar no tempo. Mais difícil talvez seja ter atenção ao tempo. Na submissão ao presentismo em que vivemos, por vezes nos refugiamos com a nostalgia, com a distopia ou com o esvaziamento do agora. Squid, no entanto, em seus três álbuns de estúdio, atualiza o seu próprio tempo, estabelecendo pontos de contato com o presente que, por dentro dele, o encaram de frente. 

Quando o Squid surgiu, já era notável sua posição marginal em relação à cena musical que havia tomado o Reino Unido de assalto na virada desta década. Ainda que tivesse prestígio no que convencionou-se definir como Post-Brexit New Waveterminologia nunca adotada oficialmente – a banda sempre esteve à sombra dos grupos black midi e Black Country, New Road, que entusiasmavam mais a imprensa musical que acompanhava o engatinhar da cena nascida em Windmill, uma pequena casa de shows em Brixton, sul de Londres. A camaradagem nutrida entre os membros daquelas bandas, que partilhavam o palco em algumas oportunidades sob a alcunha Black Midi, New Road, não parecia se estender aos rapazes vindos de Brighton, cidade costeira distante em pouco mais de 70 quilômetros da capital inglesa.

Difícil de traçar paralelos, o som da banda se caracteriza por uma sobreposição de texturas e rítmicas que parecem evadir-se de qualquer tempo ou período musical que não o agora. Estaria tão correto quanto enganado aquele que, persuadido pela bateria e pelo cowbell insistentes, identificasse no funk do The Gap Band uma referência. Ou, então, aquele que associasse as camadas de sintetizadores aos conterrâneos do Depeche Mode. O mesmo se aplica a qualquer relação que possa ser estabelecida entre os arpejos sincopados com as guitarras do Midwest Emo estadunidense. Sim, o Squid é tudo isso, na mesma medida em que pode desagradar o público de qualquer um dos exemplos citados.

Em seus três discos, Bright Green Field (2021), O Monolith (2023) e Cowards (2025), último lançamento da banda – que ficou, diga-se de passagem, de fora das listas de melhores lançamentos do ano passado –, é possível traçar um elo que os posiciona no presente histórico. Embora tenham suas próprias nuances, os três álbuns apresentam uma certa coesão, que deságua em Cowards, no que diz respeito aos pontos de contato com o seu tempo, colocando-nos simultaneamente dentro e diante dele. 


Preâmbulo dISCOGRÁFICO

Não é possível dizer que o caminho traçado pelo Squid em seus anos iniciais não indicasse que cor teria o álbum de estreia. Verde, mas não por isso menos maduro, Bright Green Field (2021) é o aperfeiçoamento daquilo que destacava a banda desde as primeiras singles: levadas rápidas de bateria, loops eletrônicos, sobreposição de camadas de sons sintetizados, canções longas e progressivas, abuso do uso de instrumentos atípicos.

Se no microcosmos de Bright Green Field habitam as celeumas do viver no hoje, em O Monolith (2023), o Squid se propõe a analisá-lo verticalmente. Como num monólito que se impõe aos olhos, aqui a sociedade é pensada sob a ótica das dinâmicas de poder, do controle através do medo e da moralidade. Atravessando a religião e o sagrado, o segundo disco da banda talvez adote orientação mais holística, menos particular que os retratos construídos na estreia.


cowards (2025)

Com o lançamento de Cowards, em fevereiro de 2025, a banda demonstrou ter coragem para subverter fundamentos da própria identidade do grupo. Aqui, a colcha rítmica dá um passo para trás. As guitarras cortantes dão lugar a uma dimensão harmônica menos complexa. Os sintetizadores ruidosos, já exóticos em O Monolith, são finalmente sepultados. No lugar, músicas mais diretas, instrumentação tradicional, com direito a um inédito piano acústico na faixa de abertura, “Crispy Skin. Pausas, silêncios intermináveis no catálogo de uma banda que outrora não deixava respiros entre nota e outra. Exemplo disso é “Blood on the Boulders", extremamente climática, em que baixo e guitarra repetem frases simples, enquanto a bateria somente acentua o ritmo. Destacam-se também os vocais femininos, que acompanham algumas das faixas, como o single “Cro-Magnon Man. Este, talvez um dos poucos momentos de dissonância sonora do álbum, não oscila melodicamente como outrora faziam as músicas da banda. Do contrário, funciona bem justamente pela solidez, pela simplicidade.

A diferença lírica mais clara de Cowards para os demais discos é, certamente, o seu caráter narrativo. Temos não apenas canções que montam breves narrativas, como também uma estrutura geral do álbum que parece apresentar personagens, cenário, trama e desenlace. Ainda que o integrante Anton Pearson tenha afirmado em entrevista que não se trata de um álbum-conceito, mas de diversas histórias com temas em comum, o resultado do álbum permite traçar uma série de conexões entre as canções que, assim, ganham força como conjunto.


A trama é um thriller investigativo clichê: uma perseguição assassino x detetive - com fortes tons de ironia. Em “Crispy Skin”, um eu-lírico se apresenta como essencialmente mau e, ao que tudo indica, canibal. Trata-se de alguém autoconsciente, equiparando a “crispy skin” (pele crocante) de suas vítimas com páginas de livros que nada significam. “Building 650” mobiliza também o tema do sadismo e da brutalidade, enquanto temos menções aos Estados Unidos ao menos no nome do perpetrador Frank e em sua descrição como “no true american” (um americano não-legítimo). 

Em “Blood On The Boulders”, estamos na paisagem californiana e a voz que canta tem diante de si um assassinato e um coletivo entorpecido que parece ser o culpado - o diálogo com os crimes de Cielo Drive é evidente. A repetição dos versos ao final da faixa dá o tom de todo o disco: houve um crime e se procura uma resposta. Em “Fieldworks I”, expressão que denota a investigação criminal, inicia-se essa procura e se observa a reversibilidade entre assassino e detetive - “asesino o detective: no hay otra elección para el hombre”, diria Roberto Bolaño. “Cro-Magnon Man”, talvez a música mais irônica do conjunto, narra a perseguição entre esses personagens que rivalizam e se amalgamam: trata-se de um personagem, como se escuta na primeira estrofe, multifacetado. A faixa-título “Cowards”, por sua vez, dá um tom melancólico e algo heroico para o desencontro e para a repetição viciosa da perseguição. O embate final se dá em “Showtime!”, que acentua o sadismo do perpetrador e produz um último frenesi. 

Finalmente, chegamos em “Well Met (Fingers Through The Fence)”, a última canção do disco. A faixa inicia com um som mecânico, lembrando as engrenagens de um relógio, mas que no contexto da canção indicam o movimento de uma cela: o culpado foi capturado. A melodia da guitarra é repetitiva em dois acordes, tic-tac, tic-tac; instrumentos de sopro retomam o heroísmo da situação, agregando-se, em seguida, à melodia das vozes. 

Em sua primeira parte, temos uma descrição cotidiana do ponto de vista do detetive. No entanto, o clima de desconfiança é latente - na paisagem natural, nos gestos das crianças. Sintetizadores cíclicos integram a música e contribuem para a repetibilidade; ruídos sintéticos também entram no arranjo e produzem incômodo. Conforme se aproxima o fim dessa primeira parte, o som dos metais se torna mais tenso e se associa a sintetizadores de semelhante atmosfera, complexificando o tom épico de antes. A letra se torna repetitiva no verso que encerra essa primeira seção: “The church in the town is it crumbling down?” (A igreja na cidade está desmoronando?). Há uma mudança em curso, uma instituição que se desmantela, percebida com certa ingenuidade - propositada ou não - pelo personagem a princípio vencedor. 

E então, uma ruptura: calam-se os instrumentos, surge um riff seco e vozes sussurrantes remetem a elementos daquele sádico da primeira canção do disco. A perspectiva dessa parte é, de fato, a do aprisionado. Do banco de trás de um carro - provavelmente de polícia -, narra os borrões azuis e vermelhos que o envolvem, a morbidez que o cerca, a sua impotência e, finalmente, sua adesão ao seu fim: “The future’s perfect from the back seat” (O futuro é perfeito do banco de trás). Os metais estão mais livres e conta-se com uma percussão eletrônica densa. A voz que canta tem uma desconexão rítmica que causa estranhamento: parece estar sempre um tanto atrasada, arrastando a articulação das palavras. Ao final da letra, temos um momento apocalíptico que termina com mais um som mecânico, tal qual o de um relógio. 

O que chama a atenção é o salto que há no verso “And we just play our songs” (E nós só tocamos nossas canções). A voz que canta faz equivaler essa posição de culpado a pessoas que tocam canções - definitivamente não se trata de nosso assassino. Isto é, algo do mundo objetivo, dos autores da canção, penetra o universo da música, adicionando outra camada de sentido, pois essa intromissão advém do tempo histórico do presente.

Temos, em “Well Met”, o desmoronamento de velhas instituições, a ingenuidade de quem se acredita vencedor, a proximidade dos peixes, as peles que se desfazem, a morte que ronda, o cerco que cada vez mais se fecha, a invasão do mar, a perda do futuro, a impotência, a inércia, a adesão, o apocalipse e o som mecânico do relógio - de um timer? de um cronômetro? de uma bomba? Temos, nessa canção, o tempo do agora, o tempo do Antropoceno, marcado pela crise climática e pelas posições que assumimos como seus principais culpados. Se a última música do disco estetiza esse tempo, isso permite que retroativamente repensemos o seu conjunto. Torna-se possível, por exemplo, indagar sobre o sádico esclarecido de “Crispy Skin”, as várias menções aos Estados Unidos - inclusive no azul e vermelho da última canção -, a cena a qual retornamos em “Blood on the Boulders”. Ainda, podemos redimensionar a percussão repetitiva do início de “Fieldworks II”, a menção ao Homem de Cro-Magnon e a uma série de produtos industriais, a indistinguibilidade entre predador e presa, o próprio uso do thriller policial. Todos esses fatores ganham nova significação sob a ótica do presente de que a banda se vale em “Well Met (Fingers Through Fence)”.

Não só Cowards ganha nova feição nessa perspectiva, como também  Bright Green Field e O Monolith. Se considerados como partes de uma obra que está em contato com o tempo que lhe coube existir, podemos adensar o alcance desses dois outros discos. Bright Green Field é mais do que um trabalho em que uma banda post-punk fala sobre a ruindade do governo do partido conservador na Inglaterra, como entende o baterista e vocalista Ollie Judge: trata-se da expressão  de um groove global que vai descambar no tempo de Cowards. O Monolith não se resume a histórias inventadas na cabeça de Judge, mas faz um desvio transcendental que incide sobre as dinâmicas de poder do presente. Em suma, os três álbuns de estúdio do Squid mostram detida atenção ao seu tempo histórico e, ao escutá-los, também experienciamos esse nosso tempo. Entrando, através das canções, dentro do som mecânico do relógio que dá o ritmo do presente em que vivemos, saímos diante dele, talvez, também, mais atentos. 


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