CRÍTICA | Nouvelle Vague (2025)

“Não se adapta um livro ao cinema” diz o ator Guillaume Marbeck interpretando Gordard, “tem que se adaptar o cinema ao livro”, ele complementa.

Richard Linklater silenciosamente se tornou um dos diretores mais interessantes de Hollywood nos últimos anos. Depois do sucesso de Boyhood, o diretor parece ter conquistado o direito de fazer todos filmes que um amante do cinema gostaria de fazer. Recontou sua infância e a relação com as missões da Apollo 11, fez uma sequência para um clássico cult dos anos 1990 e, em 2025, lançou dois filmes que fantasiam e ficcionam sobre obras e artistas que ele ama. Blue moon imagina a noite de lançamento do musical Oklahoma! na visão de Lorenz Hart e Nouvelle Vague dramatiza os bastidores da filmagem de Acossado.

Nostalgia é um tema importante para Linklater. O filme que mais gosto dele, Escola de Rock, é sobre um homem apegado a um passado glorioso dele, claro, mas também das bandas de rock que, em 2005, já tinham caído no ostracismo. Nos últimos anos, ele tem explorado as paixões que fizeram ele ser ele, nos contando quase em primeira pessoa quanto essas memórias e histórias são caras para Linklater.

Assim como ele imaginava ser um astronauta em Apollo 11 1/2, aqui ele imagina diálogos entre Godard, Rosselini, Truffaut, Rohmer, Melville, Bresson, etc., seus ídolos. E se imagina trabalhando com eles, a final de contas a única pessoa que está efetivamente dirigindo algo em Nouvelle Vague é Richard Linklater, não o Godard, assim como imagina quais os conselhos daria a um diretor iniciante já que ele, ao contrário do personagem principal do filme, já tem uma carreira de mais de 30 anos. Essa brincadeira infantil de ficar tentando criar histórias com seus heróis é de particular beleza.

Tem me incomodado muito a falta de prazer e de imaginação dos diretores nos últimos anos, especialmente os hollywoodianos. Nouvelle Vague é um filme que não é particularmente incrível, mas que carrega o mérito de imaginar cada momento de Acossado. O que estaria acontecendo nos bastidores quando vemos um close de Jean Paul Belmondo contando suas moedas ou quando ele e Jean Seberg andam na rua enquanto ela anuncia a venda do jornal.

Aliás, se Nouvelle Vague não é um filme excelente, existe pelo menos uma grande marca no longa-metragem: a escalação de Zoey Deutch como Jean Seberg. Desde Jurado 2, eu imaginava que ela seria a próxima grande estrela e Linklater a transformou em ninguém menos que Jean Seberg. Deutch é a melhor amiga da câmera do diretor enquanto briga com a de Godard. Sua personagem dá sentido a toda energia e juventude no set de Acossado que Linklater imagina partir do protagonista do filme. Em uma linda cena, ela ensina Belmondo passos de dança enquanto a equipe espera Godard ter a sua próxima ideia.

No entanto, vale retomar a frase inicial desse texto. Ainda que Richard Linklater admire profundamente Godard (e Truffaut, Rohmer, Bresson, etc.), ele não adapta o seu filme a Acossado. No final de Nouvelle vague, há duas cenas em que Godard sintetiza o que vemos ele defender por 100 minutos. Primeiro, ao chegar na ilha de edição ele pede para as montadoras cortes rápidos na famosa cena em que Belmondo ultrapassa os carros, porque segundo ele “o cinema tem pressa”. Depois ele mostra o resultado final para Truffaut, Chabrol e Schiffman que respondem: esse vai ser o pior filme do ano.

E ainda que eu ache o Linklater um dos poucos bons diretores em Hollywood atualmente, ele não é capaz de fazer o pior filme do ano. Sua posição é silenciosa. Nenhum dos dois longas metragem que lançou esse ano tiveram alguma repercussão. Isso não é tanto um demérito dele quanto do mundo em que trabalha, mas a visão dele de Nouvelle Vague e a visão dele Godard são incoerentes. Muitos planos são protocolares, há toda uma sequência antes dos personagens iniciarem as filmagens em que Godard contrata a equipe para o filme que é redundante e sem nenhum cuidado.

Hoje ficamos felizes com pouco ao irmos no cinema. E Nouvelle Vague me fez feliz porque foi uma rara experiência de um filme feito como uma brincadeira. Um jogo de nostalgia e de juventude (outro tema frequente para Linklater) que surpreende justamente porque está confortável com a brincadeira, imaginando cada possibilidade para os bastidores de um dos filmes mais importantes da história do cinema.

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