Crítica | Julieta dos espíritos

O filme acompanha a vida de Julieta, uma dona de casa pacata e classe média alta que vive por e para seu marido, até que começa a desconfiar de uma traição dentro do casamento. Julieta passa por uma experiência mística envolvendo o espírito de Ísis, que conversa com ela algumas vezes ao longo do filme sugerindo que faça algo a respeito da posição de submissão que ocupa em sua própria vida. Nossa protagonista entra em contato com outros personagens que a pedem atitude de diferentes formas: sua mãe gostaria que ela fosse mais vaidosa; sua irmã quer que ela dê um ponto final no casamento; sua vizinha quer que ela se permita viver um pouco de luxúria; seus fantasmas do passado são embebidos em culpa e moralismo, eles surgem com mais intensidade a cada passo diferente que a protagonista ensaia dar.

Julieta ama seu marido e não conhece a si mesma. Tem apenas pistas do que foi um dia ou do que é no presente, e tenta se agarrar a elas para se enxergar no mundo. Apesar disso, tem medo do próprio reflexo e da própria vontade. Cresce com exemplos de relacionamentos, de certos e errados, de uma mãe exigente e uma avó traída, e todos esperam que ela seja capaz de fazer a ‘escolha certa’ ao se encontrar na armadilha do próprio casamento. Ela sente culpa de se imaginar em um lugar diferente do qual desejou a vida inteira.

O primeiro longa colorido de Fellini não poderia ser sutil. Abundante em cores, o diretor cria contrastes maravilhosos e nos presenteia com todas as suas referências circenses do jeito mais saturado possível - e aqui digo saturado em cores, não em temática. Quem também flerta com o universo do circo sabe que seus elementos, símbolos e mistérios nunca se esgotam.

Balés, figurinos, perucas e maquiagens: tudo salta aos olhos do espectador para garantir o cenário mais surreal e onírico que podemos imaginar. O filme todo parte dos olhos de Julieta, que se vê pequena e conservadora diante de um mundo belo, deslumbrante, erótico e mágico. Esse contraste entre a protagonista e o mundo que a rodeia pode ser percebido quando a vemos na praia, admirando (com ressentimento) sua vizinha, ou quando ela interage com sua mãe vaidosa e suas irmãs modelo.

Cada ângulo que surge na tela refresca o anterior, sem nunca ser redundante ou em vão. O uso de espelhos e reflexos no filme chama atenção, como se Fellini nos convidasse a imaginar a mesma situação a partir de uma perspectiva diferente.

Em mim, o que impacta é o sentimento agridoce de me sentir um pouco Julieta também, mesmo que a princípio ela pareça tão distante e outra. É tão difícil aceitar o próprio desejo e se permitir mudar, é tão doloroso ter que tomar decisões, é tão cruel ter que reviver as próprias castrações. Mas, também, é tão lindo descobrir o mágico, o sensual, a sangria, os outros, as árvores. 

Que a gente possa sempre se inspirar nas cores do mundo para se permitir tentar de novo.

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