Artigo | Reparação e memória em “A Verdadeira Dor” (2025)

Parte 4 da série “Cinema e memória: construindo o tempo em imagens”.

Filme dirigido por Jesse Eisenberg faz personagens confrontarem a história de seu povo para lidarem com os conflitos da sua família. “A Verdadeira Dor” é sobre dois primos: David (Jesse Eisenberg) e Benji (Kieran Culkin). Eles não podem ser mais diferentes um do outro, um é pontual, segue as regras e é bastante ansioso (esse é David), o outro chega atrasado para o voo deles na cena inicial do filme, faz as coisas do jeito que acha melhor e constantemente entra em conflito com as normas sociais. Apesar disso, os dois são muito próximos e organizam uma viagem para a Polônia para se conectar com a herança judaica deles e com a história da sua avó no seu país de origem, os dois pagam a viagem com o dinheiro que ganharam na herança da sua avó.

Os dois chegam em Varsóvia e encontram um grupo de judeus que vai fazer a viagem em grupo, guiados por um historiador norte americano. Sua viagem passa por marcos da vida dos judeus na Polônia, os guetos, o monumento do Levante do Gueto de Varsóvia, um campo de concentração, um cemitério judeu clandestino, entre outros tipos de espaços de memória. A presença caótica de Benji desafia constantemente a maneira como o grupo se relaciona com o passado do seu povo. Em uma cena marcante ele provoca todos a posarem de uma maneira jocosa com a escultura dos judeus lutando contra a ocupação nazista, enquanto seu primo assiste a cena transtornado.

Em outros momentos, a sua maneira de se relacionar com o passado é menos bem recebida pelos companheiros, ele tensiona a presença do grupo na primeira classe de um trem que ruma a um campo de concentração e relaciona essa presença com os trens que carregavam os prisioneiros dos nazistas. A posição de Benji com o passado coletivo daquele grupo é um reflexo da sua posição na sociedade. Descobrimos no fim do segundo ato que o personagem tentou um suicídio, o que é a base do conflito entre os primos. A relação dele com o passado é mediada pela sua avó, segundo ele a única pessoa que conseguia dar alguma clareza para a sua vida.

Desse modo, a passagem dos dois pelos marcos históricos da Polônia e a memória do seu povo é a passagem pelas memórias familiares. O filme cria tensão entre esses dois passados de várias maneiras, Eisenberg enquanto diretor imagina o passado dessas pessoas criando a imagem da arquitetura brutalista do período comunista da Polônia e tensionando essa imagem com os campos abertos do interior do país. Os blocos de concreto e as plantações, o terreno das memórias e aquilo que foi construído em cima deles, além dos prédios, os monumentos, também no modelo da arquitetura socialista.

Só quando os primos se deparam com a condição que levou suas famílias aos Estados Unidos que eles conseguem acessar os seus sentimentos sobre sua avó e sobre eles mesmos. Nesse sentido, é marcante que Benji só consiga conversar com seu primo depois da sua visita ao campo de concentração. E justamente quando se confrontam que eles podem lidar com as lembranças de infância e os sentimentos que os afastaram.

Há um gesto marcante: a tradição hebraica de deixar pedras nos túmulos dos que já se foram. Durante sua visita ao cemitério judeu, o guia da viagem fala sobre essa prática como maneira de relembrar os mortos e quando os dois primos visitam a casa que sua avó morou em Varsóvia eles tentam deixar duas pedras na porta, mas são reprovados por um morador local que diz que as pedras podem fazer alguém tropeçar. A memória é muitas vezes um perigo.

Quando voltam para os Estados Unidos, ao final do filme, os dois se separam no aeroporto. David entra em Nova Iorque, mais uma vez em meio aos prédios, e, ao chegar em casa, deposita uma pedra em frente ao prédio que mora. Dessa maneira, ele alicerça a sua memória onde quer que ele esteja, da sua avó, do seu primo e de seu povo.


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