Crítica | Bugonia (2025)
pelo em casca de ovo
O cinema de Yorgos Lanthimos conhecidamente flerta com o absurdismo. Sendo exceção, cria universos originais, que tem suas próprias regras e, mais repelindo que acolhendo, convence o espectador a se manter atento.
Bugonia, estrelando Emma Stone e Jesse Plemons, sustenta o estranhamento pela decisão de mostrar tudo. Em termos de enredo, relativamente simples: dois primos codependentes buscam vingança contra a chefe milionária, e supostamente alienígena, pelo descaso no tratamento médico da mãe de ums deles que está hospitalizada.
Visualmente, o filme é nítido o tempo todo. O excesso de imagem, de luz, nos permite ver todas as imperfeições e, somado ao enquadramento acidentado, potenciliaza a desconfiança nas personagens e câmera/narrador.
A câmera torna ainda mais evidente a crueldade de cada um dos personagens. Seja a física, utilizada na vingança dos primos, ou a simbólica exercida pela chefe tanto pela sua posição laboral quanto pela dissimulação orquestrada para sair do cativeiro.
Inicialmente, o longa é bem humorado e, mesmo nos momentos que apresentam a vida corporativa ou a paranoia que flerta com a insanidade dos personagens principais, demora em sair do tom zombeteiro. O investimento emocional fica por conta da empresária retratada por Stone e se sua fuga se realizará ou não. Por outro lado, o personagem de Plemons se assemelha muito a um apoiador de Donald Trump que vê em tudo uma grande teoria da conspiração — difícil torcer né. O filme brinca até o último instante com a moral do espectador.
Dificilmente cativando até os 30 minutos finais (tirando algumas piadas físicas que despertaram meu senso de humor infantil), parece ser um comentário superficial que não se decide se a empresária é uma alienígena fria e incompressível disposta a nos aliquilar ou se o trabalhador é mais um bitolado que assiste vídeos no YouTube demais.
Bem realizado, se mantém nos códigos estabelecidos pelo diretor grego, os ângulos “inesperados” pouco acrescetam além de uma assinatura. Esse exercício imaginativo de alguns milhões de dólares assemelha-se a um episódio de Ricky and Morty que gostaria de ser um filme de Tarantino.