Crítica | Geese - Getting Killed

 
 

…Here I come, here I come, here I come, here I come, Here I come, here I come, here I come…


Amar e morrer são dois processos mais parecidos do que aparentam. Afinal, ambos representam a metamorfose. Se morre em vida incontáveis vezes e o amor nos transforma em alguma coisa que sempre fomos e que também não tinhamos a mínima chance de ser sem a sua manifestação. Dois se tornam um. Aquele que era vivo se junta ao todo universal e os apaixonados se mesclam até o ponto da indiferenciação entre os sujeitos. Canibalismo devocional. Esse jeito de se relacionar, se entregando de corpo e alma, é o ethos de Getting Killed.

Seja em relação a si mesmo, aos relacionamentos ou até mesmo a própria música e seu processo criativo, o grupo novaiorquino Geese brinca com os mistérios que envolvem o não-saber. Tudo que importa é o caminho. Se tornar a estrada. Morrer e amar são imaginários que não projetam um fim, apenas um entre. E, portanto, não deixam de ser um ato de precipitação ao desconhecido, envolvendo todas suas belezas e temores. Tão marcante nesse início de vida adulta, a ignorância que envolve uma vida inteira de transformações por vir também é o que possibilita criarmos o mundo com todos os ruídos e fissuras e curativos e remendos.  

Composto pela repetição, seja ela lírica ou melódica, o álbum afirma a força de suas mensagens apostando no ouvinte e sua capacidade de assimilação do que foi escutado. Se na febril faixa de abertura Trinidad, o desespero se manifesta na perda de tudo aquilo e aqueles que são amados, é esse mesmo temor que impulsiona a mudança necessária para sobreviver. “There is a bomb in my car!” não é uma sentença de morte, é uma convocatória para a ação. Cobra drasticamente muda o tom e apresenta, em par com a primeira música, a dualidade entre a tensão e o relaxamento que compõe o álbum. Além disso, a música revela a primeira de muitas referenciais bíblicas da obra utilizando a imagem de lavar os pés para enfatizar a entrega do eu-lírico a esse amor. Husbands parece que finalmente dá ao álbum sua identidade. A aceitação de caminhar o próprio caminho e buscar as próprias respostas se materializa nos versos de abertura:  

I’ll repeat what I say
But I’ll never explain
So you don’t have to waste your time
You don’t have to waste your time
Hiking up a hundred hills
You don’t have to, but I will
— Husbands, Geese

Aceitação que não se traduz em segurança. A repetição do refrão “Will you know what I mean?”, juntamente aos backing vocals piedosos de “falling apart, falling apart”, enfatizam o sofrimento. Chegando a faixa título Getting Killed, e em encontro com Love Takes Miles, do álbum solo do vocalista Cameron Winter, afirma: “My love takes a long time / Longer than a lover can survive” para na sequência bravejar seus desconfortos. Que traduzidos na imagem de uma gumball machine relacionam o prazer de uma vida confortável a alienação e mesmice. Música perfeita para uma súbita crise de identidade clássica dos vinte anos. 

I, I can’t even hear myself talk
I’m trying to talk over everybody in the world
I, I can’t even taste my own tears
They fall into an even sadder bastard’s eyes
Yeah, I’m a TV on the road
Yeah, I am getting up to leave
Yeah, I am taking off my pants
I’m getting out of this gumball machine
— Getting Killed, Geese

O jogo duplo de contraste estabelecido inicialmente reparece agora: Islands of Men é um momento de reflexão após  a crise. Uma pausa momentânea e introspectiva. Diminuindo o ritmo frenético da canção anterior somos guiados pela guitarra hipnotizante e espiral de Emily Green, enquanto os vocais narram o reconhecimetno da imaturidade e exigindo uma postura ativa em relação a própria vida. Mas, antes que qualquer decisão possa ser tomada, somos atropelados por 100 Horses. Se na primeira percebemos a necessidade de encarar de frente qualquer ilusão, na última retrata-se o escapismo necessário para aguentar o real. Os cavalos sendo um símbolo universal de liberdade, ao mesmo tempo que são instrumentos de guerra, representam essa dicotomia. O instrumental pesado reflete tanto as palavras incisivas dos generais como o galopar catártico dos animais. 

Inclinando-se ao romantismo, Half Real, a música menos reproduzida do álbum, relembra o amor passado e mira o amor futuro, descartando tudo o que passou. Já o maior hit do disco, mesmo não estando entre os singles preliminares, Au Pays du Cocaine, retoma a narrativa abstrata e surreal para através da figura do marinheiro (que utiliza um casaco verde, cor que é considerada de azar para marinheiros) suplicar a volta de um amor ao mesmo que reconhece necessidade de liberdade do outro, talvez condenado pelo amor, indissociável do pesar.

Like a sailor in a big green boat
Like a sailor in a big green coat
You can be free
You can be free and still come home
— Au Pays du Cocaine, Geese

As três músicas finais retornam ao imaginário cristão, pintando a devoção e o martírio como essencial na busca pela grandiosidade artística, o paraíso. Bow Down é uma reza em grito, desperada por se entregar absolutamente ao fazer artístico, intrínseco a vida. Ato de amor e morte, transmutação de marinheiro à carro à estrada. Ao retrarar a idolatria em relação ao corpo morto de Maria demonstra o processo de aproximação com o frenesi e a loucura de estar falando uma língua que ninguém parece entender. Taxes reconhece o própio pecado ao mesmo tempo que atesta a busca por pureza. Em um jogo financeiro compulsório, Winter quer utilizar suas próprias regras. Mesmo que isso o leve a quebrar o próprio coração. A faixa se desenvolve autopiedosomente, escalonando lentamente em direção confronto para finalmente desembocar em um mar aberto. Temos aqui a composição com maior destaque aos teclados, fundamentais para ambientar a transcendencia do encontro com a própria vontade.  Por fim, Long Island City Here I Come talvez seja a música mais visceral do disco. Fisicamente, inclusive. Sustentando muitos minutos de repetição e intensidade, a música demonstra ambição e aceita na própria destruição a possibilidade de chegar ao paraíso. A bomba no carro no início de tudo. 

I knew a man
Big and fat, born without arms or legs
Born to jump in the air and clap
He said, “Hang me from a yo-yo or a rope
And I’ll be hanging by my neck all the same
So too shall I reach Long Island City, one of these days
— Long Island City Here I Come, Geese

Existe uma indignação com o mundano. Getting Killed é um disco sobre movimento. Sem objetivos, sem destinos. O esforço em se aproximar de qualquer coisa que esteja em outro plano de existência, pela via da destruição/criação, faz de Geese uma banda que acredita que podemos mais e não precisamos nos apegar em nostalgias. Sem coitadismo. Apenas faça a coisa certa. E tentar já é bom o suficiente.

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