Crítica | Black Country, New Road - Forever Howlong
Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes, em 1939 em seu Soneto da Fidelidade, promulgou a prerrogativa dos grandes sonhadores de curto prazo. Muito mais do que uma sentença sobre relacionamentos, trata-se de um despacho generalizado sobre basicamente tudo na vida.
A premissa da imortalidade, em todas as histórias já contadas, tem efeitos estritamente negativos a partir de certo ponto. Ser imortal é ser insignificante, como citou Jorge Luis Borges em seu conto El Inmortal, deixando claro, nas entrelinhas, que o valor da vida está atrelado à morte, e vice-versa. É o belo e eterno contrabalanço entre duas das coisas conceitualmente mais dicotômicas que nossa consciência consegue acessar.
A banda britânica mais importante e influente do dito Movimento Windmill rechaça tal imortalidade e todos encargos que vem na busca por ela. Já morreram duas vezes e nasceram três, sem que em momento algum houvesse luta contra o axioma da morte. Isaac Wood partiu. Ou melhor, implodiu enquanto personalidade pública. A brilhante supernova mencionada no nosso texto sobre Ants From Up There, tornou-se um buraco negro, pronto para absorver tudo o que a banda havia sido até ali. Não perecer naquele momento - ou batalhar contra isso tentando substituir o brilho de uma estrela por outra - significaria apenas viver deitado, tentando acordar através da luz de algo que já morreu.
Assim, aos recém-iniciados em Black Country, New Road, Forever Howlong é feito por uma banda completamente diferente daquela que compôs o clássico Ants From Up There. Os vocais hoje são repartidos entre todos os integrantes, numa estrutura menos confessional e mais narrativa. O que antes era art-rock agora se transforma em folk barroco, quase medieval, quase Joanna Newsom. Se antes os desejos reprimidos e pessoais de Wood eram protagonistas, agora a impessoalidade temática gera a desnecessidade de centralidade e o panorama se abre. A imagem desse céu dominado pelo brilho da lua e por várias pequenas estrelas sempre existirá - e é porque essa versão anterior da banda morreu que eles poderão viver para sempre. Apreciemos a forma do céu pelo que ele é agora.
Em Besties, primeira faixa do álbum, o piano, lúdico e saltitante, com seu timbre quase pastoral, define a rota para que seus companheiros possam seguir. Sopro, baixo, bateria, cordas e belas harmonias vocais coletivas surgem de maneira muito clara dentro de uma atmosfera que confunde positivamente, ao criar uma noção temporal difusa, antiga e contemporânea ao mesmo tempo, em que nos encontramos perdidos no ponto médio. Estamos conhecendo algo novo.
Ao final da introspectiva Socks, temos 3 músicas lideradas por 3 vocalistas diferentes, todas preservando seus estilos como intérpretes e deixando para o restante da banda a tarefa de se adaptar à proposta lírica e melódica de cada canção. É desafiador e empolgante. Cada faixa é uma caixinha de surpresas, completamente diferente da anterior, seguindo o paradigma inaugurado logo na abertura. Eles querem menos catarse e mais permanência. Menos explosões e mais grandes paisagens, que não oferecem beleza de imediato, mas exigem insistência do olhar. Paisagens que só se revelam quando o tempo deixa de ser inimigo e passa a ser cúmplice.
E nessa toada, há uma recusa deliberada ao clímax fácil. Em vez disso, a banda prefere alongar cenas, sugerir movimentos, deixar que as músicas respirem como pequenas histórias contadas ao redor de uma fogueira - cada uma com seu ritmo próprio, seu mistério específico. Two Horses, o exemplo perfeito do supracitado, se estabelece como uma balada antiga, folclórica, onde a narrativa confessional e melancólica de um andarilho se constrói apenas com um violão, assovios, seus cavalos e seus próximos destinos, mas ganha vida e emoção a cada passo dado rumo ao desconhecido.
“I’m a faraway traveller
I travel alone
Searching in the mist
For what I know exists for me
Out there”
Na grande e ambiciosa For the Cold Country, outra epopeia Tolkieniana, a banda chega ao ápice de seus poderes. Olha pra seus antepassados com respeito e, em meio as suas peculiaridades, brilha com tanta força que por um momento nos cega. A jornada do cavalheiro é acompanhada por esse primeiro ato acústico, deliberadamente estreito e gravado em mono (ao que parece). É centralizado e comprimido. A música vira de cabeça pra baixo no segundo ato, a voz de May Kershaw ganha tom de inocência, a produção se colore e os tambores corroboram cada linha inundada de amor:
“I am proud to know you
Can I make a cup of coffee?
Can I sit down next to you?
I might not speak for a while
But, just to be here with you, be with you
I might not be the best rider or fighter
But I think I’d like to be a little lighter
I could try to throw off the iron helmet
And indulge in memories
Make cavalries rest their heads
Make their beds out of the trees
Up on the trees
All that I lost is still with me”
E então chegamos a Goodbye (Don’t Tell Me), que não encerra o disco com recato, mas em forma de declaração. É um final grande, dramático, expansivo - porque algumas despedidas nunca pedem silêncio - e aqui cordas, vozes e melodia se elevam como se, por alguns minutos, fosse permitido acreditar na eternidade.
Porém, essa grandiosidade não é promessa de permanência, é consciência do fim. Se Forever Howlong passou o disco inteiro recusando o clímax fácil, aqui ele aparece não como concessão, mas como direito conquistado.
De novo voltamos a Vinícius de Moraes: Não há imortalidade sendo prometida, e sim emoções queimando como chamas em toda sua intensidade até só sobrarem cinzas. Essa história de Black Country, New Road acabou.
Vamos à próxima.