Crítica | Cameron Winter - Heavy Metal
O homem que valia 0 dólares.
Lembro com toda clareza da primeira vez que o jovem estranho, com olheiras profundas e suas correntes, me encarou. Eu não sabia que Cameron Winter era o vocalista da banda Geese, mesmo tendo passado bons três meses ouvindo sem parar 3D Country. E, sinceramente, talvez eu não tivesse chegado perto do disco se tudo sobre aquele produto não fosse tão inconclusivo, beirando o irônico. Eu não fazia a menor ideia do que esperar. Era dezembro, e eu não aguentava mais escutar música nova.
Passado tanto tempo do lançamento do disco, este texto se torna uma crítica travestida de ensaio ou vice-versa. Eu personalizei esse álbum no instante em que os dois acordes da introdução de The Rolling Stones se repetem três vezes antes de o então desconhecido vocalista manifestar, em seu grave tom de voz: I will keep breaking cups until my left hand looks wrong / Until my miracle drugs write the miracle song.
Depois dessas duas linhas, a música abandona qualquer promessa de clareza. A letra torna-se tão abstrata quanto um sonho apaixonado depois de uma noite de alucinógenos. Eu não fazia - e talvez ainda não faça - a menor ideia do que trata a primeira música de Heavy Metal. Mas, contraditoriamente, essa obliquidade não me afastou de Cameron Winter e seu projeto. Pelo contrário: me deixou sedento. Me emocionou. Como a banalidade adolescente de querer possuir algo completamente fora da própria compreensão, eu precisava entender aqueles fragmentos de memória, aquelas imagens íntimas demais para serem plenamente traduzidas.
E, para piorar, como pseudo-escritor musical que sou, busco significados como quem busca ar para respirar. Preciso atribuir sentido para sobreviver ao que sinto. Não entendo de teoria musical. Toco violão como um adulto em um parque aquático que se aventura apenas nos dois brinquedos que o fazem sentir seguro. Abandonei o piano por falta de tempo, por excesso de vida - ou por preguiça (depende do dia). Então o que fazer quando não entendo absolutamente nada do que um álbum quer me dizer, mas sinto cada fonema, cada nota, cada exclamação?
Heavy Metal nasce à margem da ideia de álbum como objeto fechado. Não se organiza em torno de um conceito explícito, não busca unidade rígida, não oferece narrativa linear. O que o sustenta é outra força: a tensão permanente entre o ego gigantesco de Cameron Winter e sua vontade de desaparecer. Ele mutila a própria imagem, difama a própria voz, duvida da própria existência (Nina, I'm not nothing, but when you lie on the piano / I am reminded I am stupid). Não se apresenta como herói nem como fracasso, mas como algo descartável, reduzido a quase nada - zero dólares, para ser mais preciso. Porém algo implícito em sua obra reconhece sua própria grandeza.
“Oh, cancеr of the fingers
And the hands of a beginner
Songs are meant for bad singers
I can’t reach cancer of the 80s
I was beat with ukuleles
Oh, songs are a hundred ugly babies
I can’t feed”
Esses dois polos, curiosamente, encontram forma dentro da própria estrutura do disco: de um lado, a escrita lírica que se autossabota; de outro, a criatividade instrumental que luta para permanecer viva. Em Cancer Of The Skull, esse conflito explode. O imaterialismo dos versos, somado a uma produção que se recusa a repetir fórmulas, começa a esculpir algo próximo do que se transformará num mito ao final do álbum - íntimo e instável, mas grandioso e salvador.
Não entendo exatamente o que ele quer dizer, mas entendo ele. Cada verso pode ser a metáfora mais importante do mundo ou apenas um tweet torto lançado ao acaso - às vezes, atualmente, essas duas coisas são a mesma. De qualquer maneira, a carga emocional nasce da performance levemente deprimida de Winter e se infiltra em cada palavra, enquanto um piano que parece ter perdido as teclas graves conduz a música com compaixão, e a harpa de boca - cômica por natureza - perpetuam esse contrapeso, essa batalha constante que, pouco a pouco, se transforma na pulsação de todo o disco.
Em Nausicaä (Love Will Be Revealed), o baixo e a guitarra iniciam a música carregando nostalgia e a responsabilidade de proteger uma antiga narrativa mitológica de amor. De forma transgressiva, um chocalho torna-se o elemento mais hipnótico da mixagem e parece ser o único instrumento que não descansa por um único instante. Como declaração apaixonada pelo incoerente, pelo inexplicável, Winter profere: I am blind / and you are ugly / It's so easy to want you / I want you, I want you, I want you, I want you.
E, quando os trompetes finalmente se dissipam, algo em mim também se dissolve. A escuta deixa de ser analítica e se transforma em entrega. E é desse abandono que emerge aquela que talvez seja a música da década. Contagiante e expansiva como This Must Be the Place, do Talking Heads, Love Takes Miles é o momento em que Cameron Winter, num raro instante de êxtase, encontra o amor como epifania e salvação, abrindo mão - ainda que brevemente - da racionalidade que permeia sua escrita, sem abandonar, contudo, a lógica de persistência e repetição (You better start a-walking, babe / Love takes miles).
A música atravessa essa longa estrada através de seu piano, e quando o grupo de cordas aceita essa carona antes do outro, uma paisagem das mais lindas memórias ganham forma. Quando a última nota desaparece, não é a sensação de conclusão que ela deixa, mas de que tudo acabou de começar. De um novo caminho recém descoberto.
Walter Ong escreveu que o som só existe enquanto está deixando de existir - não apenas perecível, mas essencialmente evanescente. Uma explicação que parece complexa mas é um tanto quanto óbvia: não há como parar o som e ainda possuí-lo. Se você tentar fixá-lo, ele desaparece. Logicamente essa máxima sugere um contexto presencial e tangível através do instante, mas insensatamente, Heavy Metal parece um ilusionista quando nos faz temer perder tudo que é essa obra a cada segundo que passa.
Em Can’t Keep Anything, tudo inicialmente se reduz ao essencial. Tudo é palpável. O violão, cru e quase acústico, repete acordes como passos (walking and walking, walking and walking). Mesmo assim tenho medo de perdê-los de vista. É uma permanência tão frágil que me assusta.
E então surgem as harmonias vocais de Winter - angelicais, quase irreais. Talvez elas sejam os instrumentos mais belos do mundo por alguns instantes enquanto ele caminha até as portas do paraíso e diz que não pode levar nada consigo.
O homem que valia 0 dólares. Agora, uma jovem entidade.
Deus é real.