Crítica | Eis os delírios do mundo conectado (2016)
As big techs nos anos Obama.
Filme de Herzog se deslumbra com o mundo da tecnologia um pouco antes da hora.
Em 2016 Werner Herzog lançou dois filmes (algo comum para um dos diretores mais prolíticos do cinema mundial): Into the inferno, que é uma das suas obras da série sobre vulcões e Lo and Behold (os delírios do mundo conectado). Talvez em algum momento eu pare para escrever sobre outros pontos da carreira de Herzog, mas seu interesse sobre a internet registrado nesse documentário de 10 anos atrás me instigou a refletir sobre o que era o mundo no último ano do governo Obama.
Herzog é um diretor infinitamente interessado pelo mundo. Já rodou filmes em todos continentes, no Atacama, no Saara, na Amazônia, na Sibéria, no mar profundo, em cima de vulcões, dentro de cavernas, no meio de guerras e nos destroços de um acidente de avião. Para ele, contar as histórias que o interessam é o jeito de entender o que está na sua volta. Lo and Behold faz perguntas que todos nós fazemos, e muitas outras, sobre as transformações do mundo pós internet.
A principal questão dele é se ainda somos humanos? E as máquinas que agora fazem o que a gente devia fazer vão virar humanas também?
São perguntas condizentes com o trabalho de Herzog, que já fez um filme sonhos de formigas. Pra responder essas questões ele nos coloca frente a frente com os empresários e os pesquisadores do vale do silício, desde os precursores da internet na Universidade da Califórnia até os trabalhadores da Inteligência Artificial, num passado distante em que a gente não tinha ideia do que era uma IA. É um filme do ambiente de Herzog, ele não fala com seus heróis, não está na natureza, trabalha com homens medíocres que odeiam seres humanos.
A abordagem desses temas é feita com o deslumbramento usual de Herzog, mas que soa muito mal ao tratar desses personagens. Ao falar de algo que existe para destruir a realidade, o cinema dele também deixa de existir, e não é por acaso que as melhores sequências são quando ele vai para o lugar onde não pode ter sinal de celular por conta de um telescópio e quando conversa com as pessoas viciadas em internet.
É bonito o jeito que Herzog enfileira suas questões: e se houver uma explosão solar? e se hackearem os sistemas militares? e se as pessoas compartilharem o maior trauma da vida de alguém? e se os robôs substituíssem os humanos? quais as possibilidades que a tecnologia nos trouxe?
O problema é que passados 10 anos, essas questões foram substituídas por uma que não estava dada em Lo and behold. A era Obama foi uma apoteóse do liberalismo progressista, as empresas não só foram tratadas como agentes de mudança, mas como amigas queridas das pessoas. O grau de despolotização dos anos Obama, época que Zuckerberg e Bezos foram transformados em ícones pop, não tratava os magnatas do vale do silício como o perigo que eles efetivamente representavam. Herzog, ainda que bastante cético aos efeitos da internet na humanidade, não questiona um mundo que está sendo efetivado para que os mais ricos se relacionem apenas com máquinas e os outros não existam. Ideia traduzida na fala do executivo que fala sobre a vontade que seu lava-louças não seja humano.
Fico pensando quais seriam os delírios do mundo conectado de hoje. Um diálogo muito menor com 2001 ou de volta para o futuro 2 (além da missão para colonizar marte, Herzog também mostra um laboratório que está treinando robôs de IA para ganharem a copa do mundo de futebol) e muito maior com A ideologia alemã. Uma ocasião raríssima no cinema do Herzog é ele entrevistar sujeitos renunciantes da ética, e a capacidade de elaboração do diretor nitidamente não se realiza frente a essas pessoas.
Um outro momento de poesia no filme são as cenas que mostram a superfície do sol, que, se explodisse, acabaria com a nossa conexão. De novo, parece que as reflexões sobre o mundo e a natureza se prevalecem no cinema do Herzog e por isso Lo and Behold faz perguntas tão aquém da importância do tema.
Os delírios do mundo conectado consolidaram o projeto destruidor dos CEOs. E Lo and Behold se torna um filme obsoleto 10 anos depois do seu lançamento. Felizmente o próximo filme de Herzog é sobre elefantes no interior de Angola, a alegria de um mundo desconectado.