Artigo | o que podemos aprender com o show do Bad Bunny no intervalo do Super Bowl?

Do samba ao reggaeton e ao funk


Vou nadar contra a maré. O show do Bad Bunny no intervalo do Super Bowl não foi esse grande manifesto revolucionário que estão tentando vender. Fazer uma grande festa latina no quintal do seu opressor, autorizada, patrocinada e monetizada por ele, impede que o impacto seja tão disruptivo assim. 

Apesar disso, não acho que tenha sido uma grande perda de tempo. Tampouco acredito que a performance tenha sido um grande complô para amenizar as tensões e pacificar a crise criada pela política racista de imigração do Trump. 

O principal valor da performance, então, foi relembrar ao grande público que a música popular pode e deve ser utilizada como forma de protesto. O porto-riquenho faz isso com maestria, assim como nós brasileiros fazemos há séculos. 

Mesmo no mainstream há anos, sendo o artista mais ouvido do mundo, a obra de Bad Bunny é recheada de comentários políticos - vide yo perreo sola, él apagón, lo que se paso a hawaii. Porto Rico é uma colônia dos EUA desde 1898 e, desde então, sua população luta contra o apagamento cultural e a exploração de suas terras. Nesse contexto, a música surge como ferramenta de insubordinação e resistência. É a balbúrdia sendo utilizada como ferramenta política. 

Ser feliz e manifestar-se culturalmente também incomoda os opressores. Não é a toa que todo o processo de genocídio também vem acompanhado de um etnocídio. E isso é muito claro no contexto brasileiro. 


Do samba ao funk: a arte periférica no contexto brasileiro


Como um dos principais símbolos da cultura brasileira, o samba surgiu assim. As sementes do gênero musical foram trazidas para o Brasil por escravizados africanos da região Congo-Angola, que introduziram padrões rítmicos, modulações vocais e instrumentos como a cuíca e o berimbau. Desde então, o samba, historicamente, tem servido como forma essencial de resistência do povo negro. 

Essas sementes trazidas da África se mantiveram presentes no gênero ao longo dos séculos, fazendo que ele fosse rotulado como um “estilo negro”. Isso, obviamente, resultou em uma forte opressão, com o samba sendo estigmatizado e rotulado como música "inferior e primitiva". Mesmo assim, ele funcionou como um meio de comunicação e afirmação de identidade para as populações negras, uma forma de resistência contra o racismo e a invisibilidade social. 

"Esse estilo foi algo vital para nós afrodiaspóricos, que, desde o século XVI, por meio das artes, da música e da religião, pudemos refabricá-lo no Atlântico Negro. Não só nos reposicionamos no mundo, como estabelecemos uma geopolítica de resistência ao etnocídio cultural e físico." (AZEVEDO, 2018, p. 46).

Dica de leitura: ARAUJO, Nicole Barbosa de. Juventude e Resistência: O funk como forma de expressão dos(das) jovens da periferia. 2018. 106 f. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2018. p. 94-98.

Até mesmo quando, anos depois, o samba sofreu uma tentativa de ser cooptado pelo governo Vargas como uma ferramenta ideológica, o gênero manteve sua veia disruptiva através de letras marcadas pela crítica social e pela melancolia. Os sambistas recusaram essa harmonia forçada imposta pelo Estado e seguiram denunciando as desigualdades da sociedade. 

O samba nunca perdeu a força e sua veia revolucionária sempre esteve presente. Apesar disso, com o tempo, novos ritmos oriundos de contexto similares foram surgindo e ocupando um espaço parecido. Um exemplo claro desse fenômeno é o funk, que, desde o final dos anos 70, é um dos principais expoentes de expressão e resistência para a juventude negra e periférica brasileira. 

Mesmo recheado de contradições, o funk permite que a juventude pobre reivindique o direito ao lazer, contrapondo-se à ausência de políticas públicas e à invisibilidade social impostas a essa população. Em um contexto em que o Estado faz de tudo para excluir, invisibilizar e matar jovens periféricos, cantar sobre essa realidade - e se divertir fazendo isso - é inegavelmente uma forma de resistência. 

"O funk é apropriado pelo mercado e reproduz valores da sociedade ampla, como o consumismo. Contudo, ainda que não intencionalmente, questiona outros valores, como a ética do trabalho, o mito da democracia racial e reivindica uma democratização do espaço público" (CYMROT, 2011, p. 197 apud ARAUJO, 2018, p. 94).

Dica de leitura: ARAUJO, Nicole Barbosa de. Juventude e Resistência: O funk como forma de expressão dos(das) jovens da periferia. 2018. Dissertação (Mestrado em Serviço Social) – PUC-SP, São Paulo, p. 94.

Mesmo assim, não é raro ver artistas que enriqueceram cantando esses ritmos intrinsecamente revolucionários negando a origem desses gêneros. Isso acontece porque, assim como o funk, o samba, o rap, o reggaeton, o reggae, e outros estilos musicais com raízes periféricas que um dia foram criminalizados, também foram apropriados pelo capitalismo. 

Então, sim, ver o Bad Bunny cantando no Super Bowl é um exemplo dessa apropriação. Apesar disso, ver o artista mais ouvido do mundo inteiro subir no palco da festa mais estadunidense possível e não falar uma palavra de inglês, reivindicar a identidade porto-riquenha e cantar músicas de protesto contra o regime dos EUA em seu país, foi, sem dúvida alguma, satisfatório - mesmo que tenha sido feito de uma maneira rasa e podada. 

Talvez, de maneira ingênua, sinto que o Benito não se vendeu por completo. Um restinho da essência revolucionária do reggaeton entrou no gramado do Levi’s Stadium e isso às vezes basta. E mesmo assim, qual seria a melhor alternativa para isso? Se negar a fazer a performance? Não acho que isso ajudaria em muita coisa.

Querendo ou não, ele, em um dos espaços de maior audiência do mundo, apresentou a luta centenária de seu país e usou da arte para fazer isso. E, caso a performance tenha servido para que ao menos um espectador buscasse se educar sobre as narrativas que foram apresentadas durante o show, a ocupação desse espaço de visibilidade global já terá se justificado.

Dica de documentário: Bad Bunny - El Apagón - Aquí Vive Gente (Video Oficial)

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