Crítica | O Diabo Veste Prada 2 (2026)

A Síndrome das Franquias faz mais uma vítima.

 
 

Uma sequência sem nada a dizer.


E a primeira sequência de O Diabo Veste Prada 2, quando comparada à primeira sequência do primeiro filme, diz quase tudo que precisa ser dito para comparar os dois: se no primeiro há ritmo, um pulsar energético ao som do (perfeitamente escolhido) hit “Suddenly I See” de KT Tunstall, cada corte na cabeça da batida da música, interpolando o ritual matinal complexo e metódico de modelos com o acordar quase juvenil de Anne Hathaway… no segundo há o título do filme espremido na tela, o mesmo plano de Hathaway limpando o vidro, nostalgia barata sem contar muita coisa, tudo ao som da xoxa bem menos pulsante “The End of An Era” de Dua Lipa…

Eu adoro o primeiro filme. E simplesmente não é possível deixar de abordar ele quase que constantemente para falar do segundo. Porque, francamente, é quase ofensivo: tanto a preguiça que essa produção teve, quanto o quão benevolente o público pode ser, pronto para amar um produto que faz tão pouco, apelando para nostalgia barata.

Sem rodeios: O Diabo Veste Prada 2 tenta emular o primeiro filme, e em certa medida, consegue, repete cenas, repete algumas das mesmas batidas, mas faz tudo pior.

Não consegue introduzir um personagem novo, sequer, no universo narrativo. Os que introduz são ou dispositivos utilitários ou simplesmente água de arroz que não deveriam ter sequer ido para o roteiro, que dirá para o corte final.

Não desenvolve nem aprofunda os personagens originais. Inclusive, os trata com infantilidade, e até desrespeito ao que, hipoteticamente, 20 anos teriam trazido a cada um deles. Especialmente a personagem de Anne Hathaway, Andy Sachs, que em certas cenas parece menos madura e confiante do que parecia 20 anos atrás.

Não tem uma ideia, nem uma pauta, nem um assunto, e não discute nada com densidade. Pincela a temática do mercado de jornalismo no início do filme e esquece disso na próxima cena. Pincela temáticas como IA, big techs, edição editorial, pincela tudo isso sem falar de nada disso, e em alguns momentos o que talvez tivesse intenção cômica cai para o cringe.

Não tem a coragem de assumir as poucas decisões narrativas que toma, especialmente no que diz respeito ao amadurecimento e trajetória de certos personagens, voltando atrás por pura covardia, insegurança, indecisão, ou um pouco de cada.

Não tem estilo, visualmente, e insere algumas sequências absolutamente afetadas na movimentação de câmera como se o diretor apenas quisesse mostrar que há alguém dirigindo, mas esses momentos ficam tão desconexos do resto da direção oca e opaca do longa, que parecem mais um erro do que uma escolha estética.

Não aproveita a oportunidade de ouro de, contando com Lady Gaga no elenco, utilizar alguma das duas músicas de “Artpop” (2013) que cairiam como uma luva aqui (“Fashion!” e “Donatella”).

Finalmente, e talvez o maior vilão do longa, não tem uma história. Só deus sabe o quão difícil é um grande estúdio produzir bom cinema no século XXI mesmo com uma boa história. Sem uma história, que dirá boa, com um roteiro sofrível e com a missão de aproveitar a oportunidade da nostalgia para encher o porquinho?

Errada estava eu, de criar expectativas por conta da, não mintamos, excepcional campanha de lançamento do filme. Essa sim… Chef’s kiss.

Tudo que acontece em ODVP 2 acontece sem muita razão nem muita explicação, o que não seria necessariamente um problema, se o filme assumisse isso, mas não o faz. Há um senso de seriedade… tãaaaaaaaaaao chaaaaaaaaaaaaaaaaatooooooooooooo!!!!!!!!!!!

David Frankel e companhia não conseguiram eleger uma ideia, sequer, para o longa, nem mesmo qual o tom dele. Uma comédia de risadas pontuais, um drama com uma ou duas cenas, e o maior crime de todos, uma super produção sem tesão de fazer cinema. Se há algo que pode-se com segurança conjecturar, é que foi eleita a ideia de agradar o público millennial-nostalgia-TikTok-séries-do-momento, ou seja, uma amalgama de gente que meio-que-gosta de muita coisa, sem amar quase nada. Leia-se: claramente há influência da série Succession (2018-2022) e pitadas de The White Lotus (2021-2024) que são perceptíveis de escolhas do roteiro a certos enquadramentos e escolhas de produção. Agora, a razão dessas referências e influência? Só posso imaginar que seja “isso tem bombado recentemente, vamos puxar um pouco para cá”. Claro, porque não jogar um pouco de jogo político-financeiro superficial e de pseudo discussões de classe que precisam de temporadas para serem construídas de forma inteligente em poucos minutos do seu filme que é explicitamente uma paródia sobre a indústria da moda? Dá tão certo quanto uma pitada de wassabi numa mousse de cereja; ou como levar seu Lulu da Pomerânia para um passeio na Assembleia Legislativa.

Até os figurinos, que deveriam ser um destaque, muitas vezes oscilam entre o caricato e o básico.

Mais um frustrante asterisco: a moda de 2026 passou por 7 vidas desde 2006. Eu estava curiosa para ver o que o longa faria com isso. Quais serão as refs? Vamos falar de quiet luxury mais de uma vez em 120 minutos? Vamos ver o que pensa Nigel de Loro Piana, Bottega Veneta? Vamos ver um pouco da crise de marcas que tem visto seu público migrar para grifes mais nichadas e artesanais? Não, nada disso. O filme segue refém e isolado na bolha das grandes casa de luxo como se o tempo não tivesse passado.

Para não dizer que não há nada de bom, faço algumas ressalvas: Emily Blunt e Stanley Tucci honram seus papeis e entregam mais do que o roteiro merece, carisma em tela sempre. Meryl Streep, naturalmente, carrega o filme nas costas. Cada cena com ela faz toda a mediocridade ao seu redor desvanecer significativamente, e é notável que o controle de qualidade do roteiro com cada fala de Miranda Priestly é bem mais rigoroso. A única cena que realmente gostei aqui, é dela e de Hathaway no carro, no início do terceiro ato, e Streep entrega tudo que pode para que algum valor saia daqui. Por último, mas não menos importante, o último plano do filme, pelo menos, consegue entregar algo de mais algum valor: uma resolução mais interessante para os personagens, e especialmente para Andy em relação à Runway.

E são estes alguns dos broches e pingentes que se salvam em um desfile de marasmos.

O primeiro filme é um HIT justamente pela capacidade brilhante e geniosa de abordar pautas interessantes com voracidade, acidez, ironia: um exemplo de comédia moderna. O segundo erra para os dois lados: não dobra a aposta quando tem a mão perfeita para construir um ponto sério, nem quando poderia criar humor de verdade se pesasse um pouco mais a mão na piada.

O que sobra é algo no meio do caminho de… tudo. O mínimo denominador comum do que a cultura da era TikTok poderia aceitar para rever alguns amados personagens novamente. Sem arriscar em nenhuma direção, e às vezes, sem sequer riscar, ou rabiscar, nada. Das sete artes que são pilares do cinema, nenhuma é positivamente estressada aqui, nenhuma intenção é estressada; estressada só fiquei eu, ao sair da sala. Frustrada, e quase culpada de achar que tamanha campanha publicitária estaria vendendo um produto que faria qualquer coisa além de jogar seguro.

Por tragicômica ironia, O Diabo Veste Prada 2 não veste Prada — nem Saint Laurent, nem Chanel, Valentino ou Balenciaga.

Eu diria que veste algo mais nessa linha:

Amanda Machado

Analisadora over-pensadora daquilo que mais amo no mundo. Eterna estudante do cinema. Natural de Manaus, vivendo em Lapinha da Serra. Early bird.

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