Crítica | Francisco, Arauto de Deus (1950)
A pedagogia do cinema.
Rossellini encena o sonho de um mundo melhor.
A história de São Francisco de Assis - escrita por Fellini e encenada por Rossellini em pleno ano de 1950 - é uma lição para quem tenta usar o cinema como arte para iluminação do público. Em meio ao neorrealismo italiano, comunista e anticlerical, O Arauto de Deus apresenta uma outra face do cinema moderno: o relato de fé para experimentação do sublime. Os nove capítulos sobre a vida de São Francisco buscam demonstrar os valores do personagem como pequenas párabolas que nos mostram a constituição de um homem santo e seus ensinamentos.
Ao longo dos capítulos, vemos Francisco e seus seguidores vivendo a vida simples dos mendicantes, construindo uma pequena capela, cozinhando aquilo que colhem ou que recebem de doação e tentando transformar sua fé no seu modo de vida. Rossellini nos faz confundir quem é cada um, eles são irmãos no que acreditam e transformam o mundo em um lugar melhor a partir da sua ação.
A maior parte dos ensinamentos sobre a generosidade, o respeito a natureza, o olhar fraterno e a comunhão com Deus passam por Junipero, o ingênuo, que é tão dedicado aos valores franciscanos que frequentemente têm problemas, como perder suas roupas ou cozinhar toda comida dos Irmãos de uma vez só para que possam fazer sua pregação. Junipero é a materialização dos valores de São Francisco, mas também do público que testemunha os gestos de bondade do santo e a beleza de Deus.
Isso fica nítido na cena em que São Francisco reza o Pai Nosso com pássaros a sua volta. Nesse momento a beleza da criação de Deus e do cinema preenchem a tela, somos iluminados com os valores de comunhão do homem com o mundo na sua volta. Assim, Rossellini se aproxima de São Francisco, ele também quer nos ensinar a parte do que é belo. Encena os valores de fraternidade para que a gente passe eles adiante, levando uma vida plena e construindo um mundo mais bonito.