Crítica | O Diabo Veste Prada (2006)

Quando a fofoca é melhor que a realidade.

 
 

Uma das obras mais queridas do século XXI está distante de construir, em linguagem de cinema, à altura do quanto é amada — nem por isso, perde o mérito das virtudes que possui.


10 minutos. Minha revisita ao filme de 2006 após assistir sua continuação não precisou durar mais do que 10 minutos para que eu pudesse confirmar minha percepção e minhas impressões do longa.

O Diabo Veste Prada divide espaço com A Substância (2024)numa mesa que a cultura pop adora: filmes velozes, intensos, e que mesmo que não façam bom cinema, tem uma discussão irresistível (talvez melhor para a própria mesa do bar do que para a tela de cinema [ao menos nas mãos de quem orquestrou a coisa toda]): no primeiro, a discussão em torno do trabalho, do mercado da moda, da ascensão profissional e da queda pessoal; no segundo, em torno do culto à imagem, do etarismo e da cruel e inalcançável régua imposta ao feminino.

Não são filmes excepcionais, mas, cada um a sua maneira, tem suas virtudes, e a pauta é a maior delas.

O longa de 2006 é dirigido por David Frankel, que não sabia fazer cinema na época e o pouco que sabia, aparentemente desaprendeu ao longo dos anos. Dito isso, com um roteiro que é uma boa adaptação de uma excelente matéria-prima (o livro de mesmo título de 2003, escrito por Lauren Weisberger) e um orçamento capaz de trazer o melhor do estúdio, incluindo um elenco fantástico, temos um filme.

Há pouco mais que se precise dizer, a essa altura, sobre ODVP. Meryl Streep interpreta uma personagem que é a caricatura de Anna Wintour, baseada num livro que a tem como objeto de estudo. Só isso faz metade do filme e do quão icônico se tornou.

Por óbvio, que ele padece de diversos males de tantas comédias água com açúcar dos anos 2000: sendo um filme com missão blockbuster há pouca autoralidade, tudo é muito previsível, do próximo corte ao próximo acontecimento; o enredo sofre de inchaços inesperados como uma criança que cai da gangorra e a liberdade que a época dava para piadas mais ácidas no roteiro vinha com a restrição que impedia de fugir da fórmula geral que aquele contexto obrigava.

No entanto, ainda é um bom filme. E uma divertida adaptação do livro. Serviu ao papel que lhe foi dado e produz algumas cenas genuinamente divertidas, contando com um elenco que estava visivelmente devoto e entregue ao projeto.

O Diabo Veste Prada não quer ser um clássico do cinema.

Quer ser um ícone.

E ele é.

That’s all.

Amanda Machado

Analisadora over-pensadora daquilo que mais amo no mundo. Eterna estudante do cinema. Natural de Manaus, vivendo em Lapinha da Serra. Early bird.

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