Crítica | 5 anos de: For The First Time (2021) - Black Country, New Road

De alguma forma, bem a tempo da festa

 
 

Dois golpes na bateria e no baixo e a porta se abre. Mais dois, são passos em sua direção. Mais dois, cada vez mais perto. Um golpe, agora diante dela. E na vibração do prato, o tropeço e a vertigem da queda. 


A bateria acelera em uma linha frenética e estamos caindo em uma peculiar forma de abismo. Logo um riff eletrônico dá um tom banal ao perigo do movimento, que é, contudo, acentuado pela entrada da guitarra. Chegando o saxofone, não há mais volta, estamos dragados. Cada instrumento realiza um caminho próprio, adentrando gradualmente a arranjo em uma união que chega a doer o quanto não deveria fazer sentido - dói ainda mais o quanto faz. Depois, decidem realizar o mesmo caminho, reafirmando a mesma melodia de novo e de novo. O andamento é oscilante, acelera e desacelera, descobre o imponderável prazer do estado de alerta. Ao final, o saxofone, até então cumprindo função com uma mesma linha, ganha nova liberdade e faz transbordar a forma construída até então em desajeitado êxtase. Em seguida, a reiteração do tema base e um final abrupto, interrompendo a queda num desconcerto. Somam-se cinco minutos. O tempo, entretanto, não passou. Metamorfoseou-se.

Pelo tom emocionado das palavras dos parágrafos anteriores, referentes à faixa Instrumental, a primeira do disco, fica evidente o apreço que o presente escritor deve a ela. Não só a essa canção, como também ao For the first time (2021)e à banda Black Country, New Road. De certa maneira, especialmente nesse álbum e em Ants from up there (2022), é o grupo que encontrou uma das linguagens mais contundentes para dar conta da experiência contemporânea em forma musical. 

A tarefa da crítica, como bem sabe a pessoa que me lê, muito antes de afirmar se uma obra é boa ou ruim segundo critérios arbitrários - o que também é importante, não há dúvida -, é escavar uma verdade estética na obra, em contato com a história e com a tradição com que dialoga; é buscar na obra, em sua organização sensível da matéria do mundo, por dentro das quais se inscrevem as subjetividades, o que ela diz de determinado tempo e espaço e como o realiza. Assim, adensa a vida e circulam ideias.

Dito isso, talvez o que se siga não seja exatamente uma crítica, mas uma estranha carta de amor. A crítica exige um certo distanciamento da obra sobre a qual se debruça. Não se trata da distância do cirurgião impassível ao corpo que manipula, lacera, costura, mas do cuidado de quem se aventura nas ondas do mar e depois, sob o sol, com a água ainda pingando do corpo, observa-o consciente do risco de afogar-se. Nesse caso, por limitação deste que escreve, pode que isso se torne impraticável, porque se afogar às vezes é tão mas tão bom. Veremos.

Athens, France e Opus, a segunda e a última faixa do álbum, encontram-se na temática e na estrutura, o que mostra a coerência interna da obra. Ambas praticam estruturas livres de qualquer modelo, seu uso servindo ao sentido da canção; ambas tocam em temas relacionados a relações e histórias pessoais e ao ato criativo. O sujeito lírico é melancólico e aparenta certo domínio do conteúdo que canta. Também aponta constantemente para cenas e objetos do cotidiano, uma das virtudes do disco, que, ao tornar estetizável a sua proximidade imediata, revela algo de mais amplo: que estamos também nós, que dividimos esse tempo, em um cotidiano estetizável e significativo, por mais vazio que ele às vezes venha a parecer.

O tom memorialístico/ensaístico das duas canções vem de uma voz que busca dar conta do mundo em que vive. Athens, France constrói a sua frustração e a dissolve no encerramento da canção, em um raro momento de enlevo, mas que resguarda algo cortante na guitarra que dá base à melancolia dos fluxos de saxofone e violino. Opus realizauma espécie de síntese musical do álbum ao recuperar vários de seus aspectos, como o uso das guitarras, a voz falada, a intempestividade de Instrumental, associada à música klezmer, em que acordes menores produzem uma curiosa atmosfera festiva. A canção também faz uma síntese narrativa para a experiência criadora. Nesse sentido, a última estrofe é exemplar: uma guitarra repetitiva dialoga com o peso do restante da banda, que pressiona a voz que canta a entender o que se passa - voz essa que lembra muito Squidnos atravessamentos da oralidade. Eventualmente, a tentativa de organizar os fatos se perde em autodestruição que desemboca no tom apoteótico do fim da canção, ao passo que se repetem incessantemente os mesmos versos:

Oh, everybody's coming up

I guess I'm a little bit late to the party

‍ ‍

Trata-se de uma cena banal e, no contexto do disco e da canção, específica. Nela, sentimos tudo o que implica estar atrasado para a festa naquele contexto, a matéria mais trivial se torna objeto de consideração sensível. Ainda assim, não deixa de funcionar também como alegoria, excedendo os seus limites referenciais.  Dando um salto, sentimos a profunda significação das cenas, dos gestos, de qualquer casualidade da vida cotidiana, abrimos os sentidos para a sua espessura.

Science Fair e Sunglasses colocam outra voz em jogo, embora não de todo distanciada das outras vozes do disco - é possível que até problematize (no bom sentido!) o ponto de vista das outras canções. Trata-se de um narrador não confiável que canta, com um foco claramente mais narrativo e rico em imagens, de alcance cinematográfico.

Science Fair é puro desconforto, mostra tudo que há de ridículo no sujeito lírico, desde a pequenez da cena inicial, em uma feira de ciências em Cambridge, até o absurdo da cena final, na saída de uma apresentação do Cirque du Soleil. A canção não tem nenhum compromisso com a beleza no senso comum, mas com capturar essa voz em sua patética aflição. A guitarra e o saxofone perdidos, o clima soturno para uma cena tão irrelevante, o ruído que permanentemente incomoda, a construção musical engendra o personagem e sua vida psíquica em toda a sua perturbação. A parte instrumental que violentamente encerra a canção dá vazão a esse ressentimento pegajoso, seu medo e seu ódio. Não é à toa que a voz que canta se abstém de narrar os acontecimentos decorrentes.

Sunglasses é tremendamente cinematográfica. A abertura de guitarra se faz tempestade de trovões e raios que prenuncia perigo junto ao som da ventania do sintetizador. Segue-se um riff eloquente que, junto à bateria que entra em seguida, dá movimento à canção, mas retorna a si mesmo, assim como os nós dos pensamentos do eu lírico. A letra está incrustada na sua visão de mundo, repleta de referências à vida cotidiana que, especialmente no segundo verso, ganham extrema profundidade, entrecruzando tempos, espaços, coisas e sentimentos, balançados pelo saxofone e o violino, até o ponto em que a voz se despedaça por completo ao perceber o teatro do absurdo que tem diante de si. Algo finalmente se rompe no fechamento catártico do primeiro ato da canção: I am so ignorant now with all that I have learnt, vocifera em meio à música que viscosamente derrete. 

‍No segundo ato, identificando-se com as imagens hegemônicas de poder, o sujeito lírico veste uma armadura contra a fragmentação e assume posição dominante e impassível na imagem dos óculos escuros. O riff sincopado de guitarra e a bateria seca reiteram a fantasia da voz que canta, mas o saxofone revela gradualmente em notas dissonantes a sua ridícula constituição, desconstrói o mito, de forma muito semelhante à faixa anterior. 

‍Há um inventário de objetos e cenas banais em várias das canções do álbum que faz perceber a vida cotidiana através de outro prisma. Gera estranhamento sentir estetizados nesse nível os elementos da vida trivial, em escutar elevados à condição de imagem lírica o pote de Nutribullet, a caixa de sertralina, micro-influencers, etc. etc. etc. Esse olhar para a realidade coloca em jogo um movimento de dar densidade à experiência do presente e de desnaturalizá-la, significando aquilo que é mais trivial e descobrindo contradições naquilo que parece tão normal. As aparências, dessa forma, revelam-se na contramão da pretensa exatidão em que são oferecidas.

‍O senso de humor autoconsciente e corrosivo da lírica é outro ponto de ancoragem da qualidade do álbum. A oscilação de altos e baixos que as letras realizam ao enunciar pomposamente cenas como perder-se na luz da televisão, como atrasar-se para uma festa, ou ao aproximar rituais sacrificiais com declarar-se a uma pessoa amada em um show do black midi é brilhantemente desconcertante. Há indefinição entre denúncia irônica, autodestruição e plena entrega à sensação. Na mesma toada, os sentimentos mais intensos se mesclam com os simulacros mais escrachados de forma a gerar uma identificação/desidentificação complexa, própria à nossa vivência entrecortada entre o real e o virtual. 

‍É exatamente esse fantasma de For the first time que dá à linguagem encontrada pela banda seu efeito mais veemente. Digo fantasma porque esse tema não é enunciado explicitamente, mas parece estar na base de toda a construção musical e lírica do disco. Trata-se do estado de alerta permanente que a vivência contemporânea global, entre o mundo digital e o físico, entre o virtual e o real, produz. Nesse sentido, as letras partem de uma subjetividade extremamente autoconsciente - o que é mobilizado com talento pela ironia cáustica - e autocentrada, voltando sempre ao seu turvo reflexo. Também os sujeitos líricos parecem sempre tensos, paranoicos, fragmentados; o seu mundo continuamente se desfaz, desvelando uma angústia brutal e uma necessidade infantil de proteção. A urgência do sempre-novo e a insignificância de todas as coisas, tão comuns à vida administrada em uma rede virtual de dados analisáveis, se mostram em quase todas as faixas.

‍Se entendida nessa perspectiva, a valência maior da forma musical de For the first time condensa ainda outra dimensão. Certa vez, um grande amigo chamou essa forma de “aquela cena de cada instrumento fazer uma coisa muito diferente mas fazer sentido junto”; eu, pernosticamente, à guisa de desnecessária conceitualização, chamo-a de conjunção do desconjuntado. Desde sua composição, a banda já provoca curiosidade (bateria, violino, saxofone, teclado, baixo e duas guitarras), e são diversas as tradições que mobiliza: pop, rock, pós-rock, pós-punk, metal, noise, jazz, klezmer, a lista segue adiante. 

Além disso, chama muita atenção a diversidade de estilos, timbres, cadências, de que usa cada instrumento ao longo da obra, chegando ao ponto de, em determinados momentos, cada um realizar uma melodia absolutamente singular em meio ao arranjo geral. Por meio dessa estética, que se cola à voz dos sujeitos líricos, a vida interior é revelada em toda a sua multiplicidade e contradição. E, ainda, considerando-o à luz da contemporaneidade fraturada, torna-se também uma forma precisa de dar conta da realidade físico-digital do excesso de estímulos, do atordoamento da simultaneidade instantânea. Não obstante, ao se decantar esse processo tecno-social em forma musical, o efeito se inverte, deixa de esvaziar a experiência para compô-la significativamente, permite reconsiderá-la nos desvios da sensibilidade.

Não se pode deixar de comentar Track X, a mais e a menos inventiva canção do álbum. A estrutura é completamente pop: verso-refrão, verso-refrão, este ainda contando com um vocalise digno de uma música do Imagine Dragons - nesse caso, isso é um elogio. O tema é nada além de comum: o desencontro amoroso. No entanto, é exatamente nessa canção, a princípio a mais convencional do álbum, que isso que chamamos pedantemente de conjunção do desconjuntado assume feição mais radical. Também é nela que a lírica se coloca de forma mais sincera. Entre narradores não confiáveis violentos e ressentidos ou sujeitos líricos frustrados, que tomam controle - frágil e falacioso, sim, mas não deixa de ser controle - de seu mundo, aqui escutamos uma voz entristecida que parece conviver de modo não hostil com a sua vulnerabilidade.

And I guess, in some way

Nesse refrão, tateia, cautelosamente, uma explicação, mas não a encontra. Admite, assim, no silêncio, seu limite. Não há mais o que cantar, isso é tudo, enquanto o coro envolve a canção no sentimento. 

Dessa maneira, a banda inglesa Black Country, New Road, em seu primeiro álbum de estúdio, que completa cinco anos em 2026, a partir dos evidentes recortes possíveis de seu lugar de enunciação -  são, como consta em entrevista, um grupo de jovens de classe média que não finge ser o que não é -, faz enorme contribuição à música contemporânea e encontra uma linguagem complexa e específica para lidar com questões pertinentes ao seu tempo histórico. Por essa mesma grandeza, que encontra ecos em outras bandas aproximáveis, como black midi, Squid ou shame, sua influência cruza o atlântico e chega ao Chile, em grupos como Candelabro ou Hesse Kassel.

A complexidade lírica e musical das composições de For The First Time - que, com algumas modulações, vai encontrar realização plena no disco seguinte, Ants from up there – reposiciona a vida cotidiana e convida a cair nas profundezas multifacetadas da vida psíquica, da vida social e da vida fragmentada entre o mundo físico e o digital. O disco, nesse sentido, rebaixa a seriedade do mundo, sem mascarar o seu efeito real, e eleva a sua insignificância, sem tentar vendê-la, em um movimento sempre instigante, sempre desconcertante. Relembra, finalmente, da inevitável espessura do tempo e do espaço, redimindo-o do esvaziamento apático. E, isso, de alguma forma,

Com carinho,

Miguel de Medeiros Trindade

Estudante de Letras e professor. Bastante curioso com o diálogo travado entre arte, tempo e sociedade e com as possibilidades de apropriação sensível do mundo que a linguagem enseja. Também gosto de Beatles.

Anterior
Anterior

Crítica | O Diabo Veste Prada 2 (2026)

Próximo
Próximo

Crítica | O Diabo Veste Prada (2006)