Crítica | Michael (2026)
NINGUÉM IGUAL
Cinebiografia esbarra no mostrar, e não no esconder
O conhecimento, a expectativa, o real. Um descompasso na crítica de cinema contemporânea.
O conhecimento: se todo filme é resultado estético de seu processo de produção, sabemos que quando uma cinebiografia é produzida por membros da família do biografado a tendência é de suavização. Foi assim com o Queen, com o NWA, com o último Elvis.
A expectativa: não muito alta, por causa desse conhecimento prévio.
O real: ideal inatingível por qualquer obra de arte, mesmo o cinema, pois o mero ato de ligar uma câmera já incide sobre o real de modo a transformá-lo a partir de escolhas. Onde se coloca a câmera, que tipo de câmera se usa, o que irá estar diante das câmeras.
Li e ouvi algumas críticas, mais do que o normal, por alguns motivos. O primeiro deles poderia muito bem ser que Michael Jackson é não só meu artista favorito, mas a razão pela qual enveredei para a arte em um processo que dura já duas décadas. Foi lendo sobre ele após sua morte, onipresente na mídia, que comecei a me interessar por ouvir, ler e falar sobre música. O cinema, que era uma paixão muito mais próxima (não tive qualquer instrução musical durante a vida), só seguiu.
O segundo foi a percepção desse descompasso na crítica contemporânea. Como tem sido de praxe, erraram. Não em "não gostar do filme", mas em se ocupar de coisas que não competem ao filme e de ignorarem os três aspectos que comentei acima.
A crítica mais recorrente vem do fato de o filme terminar à altura de Bad (1987) e de não mencionar as polêmicas que foram parte das últimas duas décadas de vida de Michael Jackson. Bem, já aqui, é evidente que as críticas à estas exclusões não fazem sentido: o filme tem um recorte, analisemos o que há dentro desse recorte. O que não foi colocado pode ser motivo de análise em questão aos meios de produção (uma análise que pode ser interessante, mas que é meramente mercadológica), mas não um detrimento ao filme. Indo além, em uma das raríssimas instâncias que Quentin Tarantino estava certo em relação a qualquer coisa cinema, a melhor solução para uma cinebiografia seria um recorte ainda mais específico do que os 20 anos que se passam entre o início dos Jackson 5 e a independência artística de Michael Jackson. Com recortes específicos, obviamente, vem exclusões.
Mas o cinema - e estes críticos parecem não compreender isso porque não refletem sobre a arte que trabalham, nem sobre seu ofício, se contentando com o pouco conhecimento que adquirem nos primeiros anos de suas jornadas - não tem nenhuma obrigação de seguir o real.
Coisa que fica bem evidente desde o pôster, que me deixa muito mais preocupado do que o controle do espólio sobre o produto final.
Outro descompasso: uma crítica que já tem dificuldade em se ocupar do filme (analisam o que não há no filme, e como o filme se relaciona com o real sem ser esse o objetivo artístico do filme) completamente ignora o contexto artístico contemporâneo a este filme. Tudo bem, relacionam com uma ou outra cinebiografia, mas o que deveria incomodar é como o filme de Fuqua, assim como praticamente toda a produção de "valor" hoje em dia recorre aos mesmos recursos. Fundo desfocado, cores artificiais, cenas engessadas. Recursos que retiram do filme algo que já foi muito caro em Hollywood: a reconstrução de época, que aqui é assolada por essa estética contemporânea.
Pensemos: começamos o filme nos anos 60. Quais os cheiros, as cores, as texturas dos anos 60? Passamos pelos 70, pelo auge da era Disco. Como se comportavam as pessoas nos anos 70? Como andavam na rua? A cena de dança na discoteca se resume a uns quatro ou cinco planos entrecortados de rostos com cores extravagantes. E enfim, chegamos aos anos 80. Não seria muito mais interessante vestir o filme de 60 e 70 para então mostrar o impacto de Michael Jackson na chegada dos 80?
O que falta aos filmes de hoje é o vento balançando nas árvores, é não o compromisso do real, mas criar uma diegese a partir desse real. É filmar um macaco de verdade, é deixar as cenas respirarem em suas imperfeições, para assim aumentar o impacto de uma criatura que parece desafiar esse real.
Antoine Fuqua definitivamente não é o diretor para isso, pois não é o diretor de Dia de Treinamento (2001) há muito tempo, mas certamente está acima de quem quer que tenha dirigido as outras cinebiografias recentes por pelo menos nos permitir ver a incorporação de Michael Jackson por seu sobrinho. As sequências de música, que praticamente são o filme todo, fazem um belo trabalho de mimese do real. Talvez o melhor que tenha visto do ponto de vista corporal: é absolutamente impossível, mas Jaafar conseguiu emular suficientemente bem o tio sem que caísse no terreno da imitação barata. Fuqua recria, aqui e ali, frames idênticos aos disponíveis na internet, brinca com o perfeccionismo de Michael em diversas instâncias (como no enquadramento de Thriller), e faz um dos melhores trabalhos que vi de sincronizar imagem e som em filmes como esse, fazendo na recriação a personificação de sua ideia para o filme.
Ideia, palavra que a crítica contemporânea mal sabe aplicar.
Fica evidente, desde o início, mas em especial nos momentos onde podemos ouvir a voz de Michael sem interrupções, que a visão que o filme busca criar é a de uma criatura que não pertence ao mesmo mundo que nós. Aqui e ali pessoas criticando o fato de apresentarem Jackson como um ser angelical, sendo que ele tinha (e, de fato, tinha) um lado bastante egocêntrico (comprou catálogo dos Beatles, casou com a filha do Elvis, humilhou Prince publicamente), mas, de novo, a arte deve apenas à sua ideia. E, sendo honesto, há, aqui e ali, momentos onde Fuqua aponta para o cotidiano como maneira de sugerir as origens destas polêmicas: o vitiligo, as inseguranças físicas de Michael, seu costume de ver filmes com a mãe, as muitas cenas onde parece se sentir mais a vontade com crianças e animais do que com adultos (e agora sendo generoso, dá pra dizer que Fuqua encena, a partir da fisicalidade de Jafaar, esse desconforto de Michael em situações "adultas").
Até acho que Fuqua poderia ter capitalizado ainda mais nos momentos musicais: de todos, acho que só Beat It consegue de fato criar com a encenação um momento digno do monumento que foi a canção. E talvez isso seja o que mais me incomoda: nesse fluxo contínuo de recriação de momentos que não deixa o filme respirar, o filme deixa de lado coisas que enriqueceriam sua ideia. A relação de Michael com Quincy Jones, por exemplo, poderia ser o pote de ouro. Do nada, Thriller já está com as nove músicas selecionadas, quando o processo foi longo, calculado com perfeccionismo. E aqui talvez seja eu me ocupando de ausências, mas algumas, para a ideia que o filme traz, são inexplicáveis, a ausência de Rock With You, por exemplo.
Enfim.
Vi o filme com meus irmãos. O do meio chorou, o mais novo pediu para o do meio filmar (estávamos na última fileira, não incomodamos ninguém) para poder mostrar pros amigos. Algumas pessoas no fim da sessão reclamavam justamente do que não foi mostrado - fãs mais exigentes, muito provavelmente, e que talvez tenham lido/visto algumas das críticas que comentei acima.
Não posso dizer que não me deixei levar em vários momentos, e é uma pena não ter visto esse filme com a idade deles. Mas às vezes temos de retornar um pouco à terra do nunca, eu acho.