Crítica | Anitta - EQUILIBRIVM

Estão dizendo que é o disco mais espiritual da Anitta, mas pode ser também o melhor

 
 

No fim dos anos 70, uma dupla de peso ensaiava uma crítica à incorporação da musicalidade norte-americana no Brasil. Dona Ivone Lara e Candeia entoaram em partido-alto sem rodeios, o apego às próprias raízes: "não vamos negar as origens, nós somos brasileiros".


À primeira vista, essa lembrança pode soar deslocada numa resenha sobre o novo trabalho de Anitta. Acredite, não é. Assim como uma geração cada vez mais influenciada pelo soul dividiu opiniões algumas décadas atrás, a funkeira carioca também acumulou leituras ambivalentes ao investir numa carreira cada vez mais internacional, alternando entre inglês, espanhol, italiano, francês e português. EQUILIBRIVM (grafado com V) surge, paradoxalmente, como seu projeto mais brasileiro, ao fundir a percussão de matriz religiosa à sua gramática pop ao longo de 15 faixas.

O resultado é surpreendentemente positivo, mesmo pra quem não era lá muito fã da artista. O time de produtores parece ter sido escolhido a dedo, com nomes por trás de grandes lançamentos recentes, de Jan Luska (Coisas Naturais) a Iuri Rio Branco (Caju). Nos créditos de composição, são 55 nomes ao todo, com destaque para King Saints presente em 7 faixas. 

A faixa de abertura, Desgraça, dá o tom quase litúrgico do disco, com referências a elementos de crença. Desde simbologias ritualísticas como "sete saias" e "jogo de búzios" até o costume de pular sete ondas, rito brasileiro das vésperas de Ano Novo com raízes na tradição afro-religiosa. A sequência de duetos Mandinga, Caminhador, Bemba, Ternura, Deus Existe e Caso de Amor tece interlocuções sobre amor, autoconhecimento, superação de frustrações e, claro… fé.

Se as faixas iniciais elevam o nível do disco com a presença de convidados como Luedji Luna e Liniker, o álbum degringola a partir da faixa 8, Varias Quejas. O álbum perde a unidade conquistada nas faixas anteriores e começa a soar como uma coletânea de singles em três músicas no meio do disco, quatro se contarmos com a canção de participação de Shakira, mais ao final. A contradição é a seguinte: a proposta não era um disco de origens, então por que retomar esse caminho? A resposta talvez esteja na própria pergunta. Deve ser mais fácil vender para um público estrangeiro músicas em idiomas costumeiros do que apresentar um som calcado em referências que somente brasileiros poderiam entender. A participação dela no Saturday Night Live, programa de grande audiência nos EUA, apenas com músicas em espanhol, corrobora com essa tese.

Em Nanã, o álbum parece finalmente se reencontrar ao referenciar deidades em um lugar de culto. Mas não quero deixar passar certo detalhe batido. A tag do Papatinho com a voz do Snoop Dogg, que insiste em aparecer tanto nessa faixa quanto na seguinte, Vai Dar Caô, destoa pelo que revela. Num disco cantado majoritariamente em português, com proposta de MPB/Pop contemporâneo, trazer uma presença tão marcadamente ligada ao rap anglofônico soa mais como envaidecimento do realizador do que escolha a serviço do álbum. 

Com deslizes e faixas facilmente dispensáveis, o ouro do oitavo disco da artista não é de tolo. Ela parece ter chegado a um momento pessoal em que a música assume um valor de transmissão de ideias, de valores, de preceitos até. O mantra na faixa final de cinco minutos não é à toa: parece tensionar os milhares de fãs espalhados pelo globo para matutar sobre quem são enquanto indivíduos. E, olha, ela parece ter acertado ao propor uma descida de degrau num projeto mais orgânico depois do eletrônico e igualmente arisco Funk Generation (2024).

Agora, se o projeto vai cair nas graças do Grammy tão desejado por muitos artistas desse tempo é algo difícil de prever, mas é justo afirmar que, caso ganhe, fez por merecer. E quem imaginaria que essa possibilidade seria levantada um dia? O zeitgeist da música brasileira sempre foi imprevisível no melhor sentido.

Caio Profiro

Manauara. Penso e escrevo sobre música desde 2021. Beatmaker nas horas vagas e pesquisador musical em tempo integral. Autor do artigo científico "O samba como território da folkcomunicação: a trajetória do genêro musical de cultura marginal a símbolo nacional".

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