Crítica | Friko - Something Worth Waiting For

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Em seu segundo álbum de estúdio, a banda de Chicago não cogita o blefe como método de jogo.


Minha impressão é que o pior jogador de pôquer não é o impulsivo, mas o indiferente. O sujeito incapaz de se arriscar, de vislumbrar a possibilidade de vitória diante de um mero par de setes, de sorrir perante a iminência da pior - ou talvez mais incrível - decisão possível.

Conhecer as próprias virtudes e agir a favor delas, então, se torna um gesto necessário em uma situação onde todos os olhos espionam os seus pra saber o que o reflexo deles tem a entregar. E, nesse caso, por que não se entregar de uma vez? Como questão de probabilidade, a derrota é presumível, mas o que exatamente isso altera? A iminência do fracasso deveria implicar a abjuração das próprias crenças? O abandono daquilo que nos torna reconhecíveis para nós mesmos?

Vire as cartas logo no início. Mostre seu par de setes.


Something Worth Waiting Fornasce justamente dessa recusa de autopreservação diante da exposição dos próprios sentimentos. O disco inteiro soa como uma aposta emocional feita por pessoas que depositam absoluta crença naquilo que têm em mãos. O timbre de guitarra de Guess refulge imediatamente nos ouvidos, enquanto volume e melodia parecem aliterar o primeiro verso cantado por Niko Kapetan: “Don’t make me guess / If that’s a cry or a laugh / A sink or a swim / A lie or a gaffe.”

Quando o refrão explode, sua voz transcende os próprios instrumentos, enquanto a banda inteira parece ser arremessada dentro de um liquidificador emocional que ensurdece e desorienta. Mas, novamente, não há cálculo nessa explosão. Nesse eletrodoméstico emocional, só existe potência máxima. Não parece existir uma tentativa deliberada de soar grandioso ou devastador, existe apenas o impulso irrefreável de ser honesto dentro da forma que a própria banda construiu para si desde o primeiro disco.

Para quem observa de fora, torna-se difícil não se contagiar pela esperança de vitória sustentada unicamente pela crença de que vencer ainda é possível. Still Around carrega a grandiosidade instrumental e o senso de catarse dos melhores refrões de Arcade Fire, enquanto Something Worth Waiting For, a faixa-título, encontra outro tipo de vulnerabilidade. Nela, a voz de Niko Kapetan evoca inevitavelmente Conor Oberst: um timbre constantemente à beira da ruptura, onde a fragilidade não parece lapidada para soar bonita ou poética. Ela permanece excessiva, trêmula e desconfortavelmente humana.

Porém, é quando a verdade excessiva que até então se amontoava ao longo do disco abre espaço para algo diferente que ocorre o melhor momento do disco: uma fábula. Certainty se inicia sob a toada de teclas cinematograficamente melancólicas e conta a história de alguém tão sufocado pela própria existência que passa a perseguir uma espécie de porta de saída no horizonte.

É a primeira vez em que Friko se permite mergulhar plenamente na fantasia. A realidade emocional crua que conduzia o álbum até aqui - e que criava certa barreira entre nós e eles - cede espaço para imagens oníricas, enquanto a orquestra de violinos amplia a dimensão dessa jornada. Tudo na faixa parece movido pelo ímpeto da busca, pela esperança de que exista um grande momento capaz de reorganizar o caos inteiro de uma vida. Uma única grande jogada.

E talvez o mais devastador seja que esse momento não venha necessariamente pela perspectiva de quem parte, mas pela ótica de quem fica. O narrador observa essa fuga à distância - na posição de um provável ex-companheiro ou companheira - compreendendo que amar alguém também implica reconhecer quando sua prioridade já não é mais você, mas a sobrevivência do outro.

Quando os vocais femininos emergem no refrão, a música alcança uma espécie de altruísmo doloroso: “In the background, I’ll be there / Cause some things never leave you / And in the off chance you see me / Come waste your breath on me, babe”. Não há ressentimento, e a instrumentalização, carregada de acordes maiores, busca uma resolução triunfante e não frustrada. A compreensão de que certas conexões sobrevivem mesmo depois da separação, orbitando no fundo da memória como fantasmas benevolentes é um dos desfechos mais bonitos do ano - de uma das músicas que mais me tocaram em 2026.

Todavia, eles acabam perdendo a mão em alguns momentos. Por melhores que sejam as intenções, por mais esperançosos que pareçam, um par de setes ainda é apenas um par de setes, e diferente do primeiro disco, Friko por vezes esbarra em questões líricas e temáticas repetitivas, insistindo em explosões emocionais que nem sempre encontram sustentação suficiente dentro das próprias músicas. Em certos momentos, os crescendos aparecem sem embasamento ou sensação de recompensa, e mais como reflexo da única forma que a banda conhece de jogar. Basicamente, os problemas se inverteram.

Ainda assim, permanece extremamente charmoso assistir alguém apostar todas as próprias fichas naquilo em que acredita e fazer isso com confiança. Há uma sinceridade difícil de simular na maneira como Friko insiste em transformar cada refrão em questão de vida ou morte, o que torna deles jogadores únicos.

Então acho que vou pagar mais algumas fichas pra banda e esperar pela próxima rodada. Existe algo em mim que ainda acredita que a terceira vez é a da sorte, e que daqui pode sair uma bolada.

Pietro Stefani

Advogado predisposto a fazer tudo menos advogar e quando faz é ouvindo música no processo. Demasiadamente extrovertido e fã exagerado de muitas coisas.

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