Crítica | Odisseia (2026)

O MITO DA RAZÃO

 
 

Não existe necessidade em contar-se tudo, apenas de contar-se bem. Procurando aproximar do público contemporâneo, mais uma vez o público subestimado encontra um filme que perde sua alma por não apostar na magia do cinema.


Adaptar um clássico é sempre um desafio. Por mais simples que qualquer história resumida possa se tornar, a responsabilidade em honrar a complexidade que o texto carrega, seja em peso histórico ou em formalidade, pede atenção redobrada de seu realizador. Christopher Nolan é conhecido por sua meticulosidade — aparentemente um bom sinal.

Formado em Literatura Inglesa pela Universidade de Londres, o diretor parece ter ignorado a disciplina de literatura clássica ou, ao menos, a aula sobre Homero. Não por desconhecer a narrativa por si só, mas por não conseguir colocar nela o que a faz especial: sentimento. Entoada por gerações de gregos nos mais diferentes momentos, A Odisseia era um texto para ser declamado, não lido. Especula-se que, a devido a transmissão oral, nem todo encontro em que se apresentava a canção a continha por inteiro, pedaços favoritos ou passagens significativas para o momento eram escolhidas. Nolan escolhe o caminho mais exaustivo, para o próprio diretor, de contar a obra por completo no longa. Mesmo o ritmo do filme não seja o problema, falta profundidade. Voltando a relação com a musicalidade, o personagem do rapper Travis Scott, um rapsodo responsável por contar os feitos de Odisseu aos pretendentes de Penélope, e, segundo Nolan, responsável por honrar a transmissão oral no filme, assim como outros coadjuvantes, é pouco aproveitado — escondendo, ao invés de relevar, a emotividade do narrar.

Com poucas supressões do original, o desenrolar da trama se faz enfadonho. A mudança para a película exige que a narrativa se estabeleça a partir da imagem e Nolan a mantém atrelada a palavra. Conta-se o que acontece, não se narra. Nenhum imagem é composta de maneira a relevar uma emoção ou direcionamento da história. Nenhum personagem tem suas ações desenvolvidas pela câmera. Odisseu, interpretado por Matt Demon, é considerado o mais sagaz de todos os homens mas isso não é mostrado, é dito. Penélope (Anne Hathaway), rainha que esperava a volta de Odisseu da guerra de Troia por vinte anos, também não tem sua liderança a frente da cidade ou sua astúcia em enganar os pretendes ao trono sentida. O famoso tear, que tece durante o dia e destece a noite para que nunca seja finalizado e, portanto, não precise escolher um marido, é explicado em uma fala de de seu filho Telémaco (Tom Holland) como se fosse uma simples curiosidade da personagem.

Mesmo que reduzido de seu aspecto mitológico, esta “época de magia aparente”, como se projeta no primeiro frame do longa, não perderia seu impacto por tornar as coisas menos fantásticas se contivesse mais poesia. A poesia nunca foi sentimentalismo barato. Existe um trabalho árduo em buscar as sensações através de rigor formal, atrelar entre sentimento e racionalidade uma imitação tão enganosa que se confunde com o real. Nolan limita a participação dos deuses e busca no filme um realismo que se aproxima da realidade, como se a vida fosse uma sucessão de eventos inteligíveis!?, para manter o mitológico apenas nas existências impossíveis de ciclopes, sereias, feiticeiras ou mortos-vivos. E tudo bem, se a magia do cinema se mantivesse. Odisseu é um homem racional, que vê seu mundo desmoronando e reage, sem se abalar ou sentir. Na tentativa de tornar o herói em um personagem moderno e estabelecer o pecado original do qual se arrepende (a invasão de Troia), perde-se as camadas que tornam Odisseu interessante. Não se torce por ele por ser moralmente correto, mas por encontrar um exemplo de como lidar com a adversidade, unindo inteligência e sentimento em busca da intuição.

Ao deparar-se há sete anos junto de Calipso em uma ilha afastada de toda a civilização, o personagem de Demon é incentivado por sua amante a sair da racionalidade que buscava nas memórias e buscar na jornada, no desconhecido, a verdade, um caminho oposto do longa. A obra opera em todos os macetes que Nolan já domina. As brincadeiras com linearidades, os diálogos explicativos e os flashbacks com voiceover não funcionam para manifestar, por exemplo, a astúcia de criar o presente/maldição que é o cavalo de Tróia.

Em uma tentativa de simular estatura subindo aos ombros de um gigante, Nolan prova que a queda pode ser confundida com a aterrissagem. Em muitos momentos, podemos distrairmo-nos com a paisagem acreditando que percorremos um admirável trajeto para que, ao final, fiquemos completamente insensíveis ao conhecermos o solo.

PC Peixoto

Narciso às avessas. Meu personagem favorito da Turma da Mônica é o Do Contra. Estudante de Letras, ciclista amadoríssimo, ouvidor de música e visualizador de filme.

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