Crítica | Escuridão da Morte (1980)

VOYEUR DO VOYEUR DO VOYEUR

 
 

Escuridão da Morte tem tesão não apenas em olhar para o cinema, mas também para o prazer de ser um espectador.


Um jovem, em um quarto escuro, de cueca e chapéu, se masturba. Ao seu redor, imagens de Marilyn Monroe. Imagens, imagens, imagens. É rodeado de imagens que ele goza. 

Cinema é voyeurismo; o cinema também goza com imagens. Sempre que um filme termina, acontece o êxtase de uma petite mort (pequena morte) – aquele breve momento após o prazer em que perdemos a consciência, para logo depois as luzes se ligarem novamente. Em Escuridão da Morte, as consequências desse orgasmo são levadas ao extremo. Se gozar é estar constantemente repetindo uma morte que não mata, será que não seria mais prazeroso se matasse?

É logo após se deleitar com Marilyn Monroe que o patético Eric Binford se transforma definitivamente no maníaco assassino Cody Jarrett. O nome pode soar familiar para a plateia – é uma referência ao personagem de Fúria Sanguinária (1949), noir de Raoul Walsh. A partir de um constante exercício cinéfilo, a obra de Vernon Zimmerman mostra a trajetória do enlouquecimento de um aficcionado por cinema que mata como se estivesse em um filme. Imitando cenas como o empurrão de Beijo da Morte, Eric revisita imagens clássicas da era de ouro de Hollywood para praticar suas loucuras, em um transe ao mesmo tempo fanático por cinema e por morte. Transforma a petite mort em realidade; não suporta mais estar diante das imagens, precisa atravessá-las.

Ainda assim, Escuridão da Morte não se interessa em puramente recriar. Mesmo repetindo seus gestos, Eric nunca recupera a presença das imagens que tanto ama. O referencial vira do avesso: a mocinha não morre no chuveiro como em Psicose, ele não vive seu final feliz com Marilyn Monroe como em O Príncipe Encantado

É em sua forma de reencarnar... Escrevo “reencenar” e o corretor pede para mudar. Um ato falho condizente. Reencenar é meramente reencarnar admitindo falhar em ser aquilo que antes foi. Parece ser esse o gesto que Zimmerman traz para as simulações de Eric, ao permitir-se encarar esse menino que ridiculamente quer se tornar um herói de filme – mas, ao estar de frente a esse personagem, também está presente um outro jogo: mais que o prazer de ser espectador, existe o prazer em ser o espectador do espectador. Ao entender o que o cinema significa em suas possibilidades e potências, o filme sente ainda mais tesão em olhar de volta para o público. 

Voltemos à cena da masturbação. Zimmerman não filma Marilyn, filma um homem olhando Marilyn. O legado torna-se mais interessante que a pessoa. Saber a quem Eric está olhando é tão importante quanto olhar Eric. “Eu disse que você está errado. Ela está viva, que nem eu e você!”, grita ele em um momento do filme. De fato, ela ainda está entre nós. A imagem é uma espécie de assombração e não importa mais se a Marilyn de verdade está morta se sua semelhança continua a ser projetada e exibida. Essa é a emboscada do cinema: enquanto as pessoas morrem, as imagens continuam exigindo espectadores. Resta-nos assistir.

Manu Couto

Manu Couto sempre se interessou por arte, comunicação e nos efeitos inesperados que acontecem quando as duas se misturam. Estudante de Jornalismo na UFRGS, é integrante do Cineclube Vestígio e da produtora cultural outrahora. Em 2026, fez parte do Júri Jovem da 29º Mostra de Tiradentes.

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