Crítica | O Palácio dos Anjos (1970)
O desejo e o afeto no olhar
Enquanto o apartamento se veste de ornamentos e anjos - e as mulheres que nele habitam se dissolvem -, Khouri troca o prazer pela ambição e o afeto pela deriva.
Khouri não se apressa em estabelecer as premissas iniciais em Palácio dos Anjos (1970). O filme conduz a trama com leveza, mostrando aos poucos a personalidade de cada personagem, seus problemas e suas ambições.
Explorando a sua vida doméstica, o filme inicia com a dinâmica cotidiana de Bárbara (Geneviève Grad) e Mariazinha (Rossana Ghessa) no seu apartamento compartilhado em São Paulo. Juntas de Ana Lúcia (Adriana Prieto), trabalham numa firma de investimentos com um chefe que desprezam. Ganham mal e veem seu potencial não ser reconhecido, enquanto a ficha dos clientes mostra um mundo de riquezas e ostentação muito longe da sua realidade.
Uma saída para a ambição e a vaidade
Em meio aos avanços do chefe Ricardo (Luc Merenda) para ficar com ela, Bárbara foge e se depara com Rosa (Joana Fomm), uma mulher elegante que lhe oferece carona e conselhos profissionais. Um empreendimento que a faria ganhar até dez vezes mais do que atualmente, envolvendo, é claro, a prostituição - mas não nos termos vulgares que ela pensa. Afinal, Rosa ressalta que ela acabaria dormindo com homens “otários” de toda forma, sem ganhar nada para isso.
Dividida entre fascínio e receio, Bárbara expõe a proposta para suas colegas de apartamento, que não levam a sério. Aos poucos, o que inicia como piada vira um plano de emancipação, à medida que os problemas se acumulam: Bárbara perde o emprego e Ana Lúcia tem conturbações com a família.
Assim inicia a trajetória das personagens pelo mundo da prostituição: após superar a barreira inicial do nojo e da vulgaridade, e elas utilizam da lista de clientes do ex-chefe para tocar o negócio. Numa busca por manter o controle da narrativa, são elas que selecionam e convidam os clientes para o apartamento, e não o contrário.
As cenas de sexo do filme, frias e duras, focam no olhar desolado de Mariazinha ou na apatia e distanciamento de Bárbara e Ana Lúcia, sobrepondo uma trilha sonora assombrosa com tons de filme de terror. A centralidade desses olhares carrega o peso da imagem no filme, com a sequência de planos fechados montando um jogo que mistura ambição, ímpeto, desolação e tormento. Não há intimidade ou prazer, o érotico é renegado para retratar uma dinâmica puramente transacional - mas que também cobra o seu preço.
Construção do espaço físico e o prazer do ganho material
Ao longo do filme, Bárbara se esforça na reforma do apartamento, determinada a criar um palácio para os clientes, e uma parte do dinheiro da caixa, que é comunitária, sempre vai para as reformas. A reforma do apartamento parece ser a única satisfação de Bárbara ao longo do filme, o momento em que pode explorar seu gosto artístico como sempre quis e finalmente sentir o prazer material como recompensa do trabalho.
O palácio aos poucos vai se materializando, com imagens de anjos e de ornamentos artísticos clássicos dominando um espaço antes ordinário. O materialismo, a determinação e a ambição de Bárbara crescem aos poucos. As reformas na casa não são nunca suficientes e sempre há algo que pode melhorar. A casa, que antes era um lugar acolhedor, aos poucos toma contornos de palco para uma peça de teatro, enquanto Bárbara, Ana Lúcia e Mariazinha se colocam a caráter dentro de suas personagens, conforme requisitado por cada cliente.
Se no começo o destaque estético do filme se encontra na beleza das protagonistas, essa é aos poucos ofuscada e transformada pelo apartamento. Quanto mais o palácio toma cores e vida, menos destaque as mulheres têm, cada vez mais se fundindo numa mistura confusa de maquiagens dramáticas e perucas que dissolvem sua identidade.
O desejo e o afeto no olhar
Já que o prazer é deixado de lado nas cenas de sexo, resta apenas o afeto entre as mulheres. A cumplicidade e as brincadeiras, juntos com a troca de olhares e carícias entre elas são os únicos momentos de afeição e desejo no filme. Mas o deslocamento de Mariazinha frente à nova realidade e os desentendimentos entre Bárbara e Ana Lúcia por causa dos gastos excessivos marcam uma ruptura. A partir desse momento, cada uma passa a olhar por si.
Ao longo do filme, a narrativa linear se alterna com planos de um navio se aproximando e do rosto de Bárbara aguardando numa balsa, enquanto a buzina surge ao fundo. O enfoque no seu olhar não evidencia ao certo o seu sentimento e, ao longo do enredo, mistura-se angústia, esperança, desamparo e determinação. O navio, longe, parece personificar esse futuro que Bárbara almeja.
O olhar em si não muda, mas o estado da narrativa conversa de jeitos diferentes com o plano. Já no final, finalmente vemos Bárbara na barca, junto com uma mulher apaixonada, sua cliente, enquanto o navio passa por ela e se distancia. Aqui, ela se debate sobre a situação e tem a oportunidade de fugir, mas isso já não é suficiente frente à sua ambição.
É a última vez que vemos esse olhar desolado, à deriva, enquanto a buzina do navio nos acompanha até o fim do filme, uma lembrança da expectativa de recomeço que não vai se realizar. Separadas, Ana Lúcia começa seu próprio bordel numa casa alugada, enquanto Bárbara recruta outra mulher para trabalhar com ela.