Crítica | A Única Saída (2026)
Um besteirol coreano.
Nova obra sobre o capitalismo tardio tenta rir da nossa desgraça, mas faz isso sem muita profundidade.
A única saída é, em alguns sentidos, uma continuação de decisão de partir. Chan-wook investe, mais uma vez, na paródia de um gênero para investigar a vida de seus personagens. No filme de 2022, ele trabalhou com uma vertente bem específica do thriller que se insere na linha geneológica de Vertigo. No de 2025 é o slapstick comedy que é usado pelo diretor para revirar a vida de um trabalhador no auge do neoliberalismo. O esforço dele é pior sucedido que no seu filme anterior, mas o resultado é um besteirol com pretensões de crítica social que reflete mais sobre a falência do casamento.
A sinopse já soa repetitiva: a crise do neoliberalismo e a falência do trabalho nesse sistema, escolhendo o avatar de um trabalhador que prefere se virar contra seus pares do que contra o capital. Claro que alguém vai dizer que soa repetitivo porque dentro do grande esquema das coisas é essa a crise que nosso mundo vive e por isso Chan-wook fez A única saída. Nesse sentido, a sequência de esquetes encenadas pelo diretor realmente ridiculariza o papel do personagem de Lee Byung-hun nesse sistema. Cada plano dele para eliminar os concorrentes com qualificação para o superar em uma entrevista de emprego realça a pequenez dele e dos seus adversários também (para o diretor são todos semelhantes).
Esses homens que amam a indústria do papel em um mundo cada vez menos analógico são ao mesmo tempo vítimas e cúmplices da sua desgraça. O diretor, que consegue manter uma carreira mais ou menos bem sucedidade no pior momento da história do cinema, está convicto que ao não aceitarem as mudanças do mundo também são culpados pela ruína que impõem às suas famílias. Na principal rima com Decisão de partir, Chan-wook opta por zooms e enquadramentos bastante chamativos, essa rima vira cacofônica uma vez que aqui esses recursos são empregados para o ridículo: o personagem se vê como um mastermind do thriller norteamericano, mas ele é um pateta (essa é uma contradição que Fincher explorou bem em The Killer).
A habilidade que Chan-wook filma a cena em que o filho do protagonista começa a suspeitar de seu pai: ele sobe no telhado e achamos que ele vai ver o ato horrível, mas descobrimos uma estrutura de concreto na sua frente, mais um movimento de câmera revela um buraco nessa estrutura e um próximo nos conta que do outro lado do buraco não há Lee Byung-hun dilacerando um corpo. Porém é uma luz batendo a esquerda do rosto do adolescente que o leva a finalmente olhar para a estufa do seu pai e ver a cena macabra. Uma sequência curta e filmada para um filme muito mais grandioso que A única saída revela essa farsa. Não há nada a ser revelado, o personagem eventualmente dirá que estava desemembrando um porco e a vida dos dois segue em frente.
Desse modo, não é o personagem que controla sua história, é uma série de farsas e quiprocós. A única vez que ele tenta se impor perante o seu mundo é quando tenta falar com o executivo que vai demiti-lo. Depois disso, a sua crença que pode manipular alguma coisa só aumenta, enquanto seus resultados diminuem. Chan-wook opta por não desafiar o sistema que prende o personagem, mas levar ele às últimas consequências: a eliminação física dos adversários, porque não há outra saída.