Crítica | Harry Styles - Kiss All The Time. Disco, Ocasionally

Um bom beijo precisa de química

 
 

Ou, todo mundo se sente sozinho.


Quase quatro anos depois do lançamento de seu último álbum, Harry Styles retorna mais cansado do que nunca. Se isso é devido às maratonas que disputou recentemente ou às incansáveis noites mal dormidas devido ao festajar imparável na boate Berghain, em Berlim, nunca vamos saber.

Kiss All The Time. Disco, Ocasionally (KATT.DO), se apresenta como uma junção assimétrica desde sua capa. É difícil encontrar algo que chame e mantenha a atenção na obra. Fato que pode ser confirmado pela queda abismal de reproduções da primeira faixa Aperture, com 128 milhões, para o restante do disco, com uma média arredondada de 17 milhões em cada faixa seguinte. 


As letras das músicas não comovem em melancolina, nem entusiasmam em catarse. Um retrato pasteurizado da falta de ambição criativa. Sinceramente, uma coletânea de músicas que se sustenta na personalização do artista. Veja bem, não na identidade. Por trás dos óculos descolados, as calças enormes e a coleção de flash tattoos, fica evidente a falta que fazem os ídolos do pop de antes. Sim, eles eram mercadológicos, mas eram autênticos. Harry também já foi, em seus dois primeiros lançamentos. A sensação que fica é a de uma obra planejada para ser lançada a qualquer custo, assim como lançam a sequência daquele filme que surpreendemente fez uma enorme bilheteria mas que não tem razão real de existir.

O pop, pelo menos sua faceta masculina, respira por aparelhos. A necessidade do mercado de ter o próximo Bowie ou Prince, as entrevistas referenciando escritores cult apenas afastam Styles do artista que ele poderia ser, transformando-o em uma demanda inexistente. 


Entre sintetizadores acetinados e um groove sem malemolência, o álbum demora até mostrar algo que possa ser aproveitado. As faixas "American Girls e Ready! Steady! Go! tentam emplacar um refrão marcante miseravelemente, enquanto Are You Listening Yet? parece feita para uma festa adolescente em que ninguém sabe, ou sequer tenta, dançar. Taste Back é esquecível. The Waiting Game tenta surpreender na mistura do acústico com o eletrônico, mas em assim que os vocais entram em jogo toda a experimentação é deixada de lado.

Mais adiante a faixa Pop aprensenta alguma densidade e finalmente propõe algo interessante entre o grave e os agudos bem pontuados em relação a voz suave. Poderia ser uma música mais esquecível de um bom álbum de Harry. Dance No More brinca com o fato de que a pista de dança virou mais um espaço de espaço de observação e vigilância, repaginando a pauta que todo mundo leu no Instagram nos últimos tempos.


Se a experiência dos últimos anos de festas e viagens de Harry foi essa, meu deus, eu prefiro ficar em casa. O slogan comercial do disco “We Belong Together” parece mais uma tentativa de bom-mocismo à la “Treat People With Kindness”, que dessa vez não se manifesta na forma da obra. Até o título denuncia a necessidade maior do contato que dá música.

Toda a introspecção causada pelos beats em looping ou pelo estado hipnótico da corrida podem ter levado Harry a buscar esse coletivo que ficou tão distante. Tomara que ele continue procurando.

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