Crítica | F1 (2025)

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Joseph Kosinski entrega o melhor que pode com o que tem em F1. Ele tem mais dinheiro do que ideias. Mas ele tem muito dinheiro.


Parece fazer séculos, mas faz, se muito, décadas, desde os tempos em que você podia ir até o cinema sem saber que filme assistir. Dar uma olhada nos pôsteres, talvez nos títulos, nas sinopses. Provavelmente alguma estrela de Hollywood lhe daria alguma indicação, apenas pelo elenco, de que tipo de filme você poderia assistir. Esse espécime raro que um dia foi tão comum chama-se filme de gênero.

Um filme de gênero nada mais é do que um filme que não tem medo de dizer "sim, eu sou um filme de ação" ou "exatamente, aqui você encontra uma comédia romântica" e atende a uma forma de fazer cinema que pode ter sido muitas vezes lida como algo que “violenta a sétima arte”, que a torna um produto, ou algo do tipo. Mas, como sempre, reclamávamos de barriga cheia. Julgamos os filmes de gênero, condenamos-os por tomar o espaço de diretores que tanto admirávamos, mas o que tivemos, por incrível que pareça, não foi uma avalanche de longas do Kurosawa ou estudos profundos de personagem tomando as salas. A década de 2010 e o início de 2020 viram a ascensão absoluta de franquias e mais franquias que extirparam os filmes de gênero, deixando, ao invés de uma dezena deles, apenas um ou dois.

Deixamos de ter dez gêneros para contentar-mos-nos com apenas um: sequências, prequelas, spin-offs, os mesmos universos temáticos tomando conta de todas as salas. E assim chegamos ao F1. O primeiro grande filme de produção original da Apple TV entregou a caneta e o cheque ao diretor do recente blockbuster Top Gun: Maverick (2022), que é, pasme — um filme de gênero. Um filme que tem em sua veia a ideia de ser um blockbuster de ação, fazendo tudo o que você poderia querer de um blockbuster de ação.

Grandes efeitos, um roteiro aceitável e palatável, uma boa história, tensão e, como um bom filme de ação deve fazer, traz magia para a tela do cinema. Poucos filmes da última década possuem minutos tão redondos quanto a sequência inicial de Top Gun: Maverick, na busca pelo Mach 10, o voo 10x a velocidade do som. Não apenas é bem filmado: a história é simples, são poucos personagens, o mise-en-scène funciona, os efeitos estão a favor da narrativa. Um belo início para um bom filme de gênero.

Top Gun: Maverick foi aclamado como um dos melhores blockbusters recentes e seu diretor, merecidamente, embolsou o cheque para fazer um filme sobre Fórmula 1 junto à Apple, trazendo Brad Pitt e seu time de preferência na produção.


Por incrível que pareça (ou nem tão incrível), não há muito o que dizer sobre F1. É exatamente o que você espera. Um filme sobre a Fórmula 1. A história está a serviço de mostrar cenas da Fórmula 1. Brad Pitt está a serviço de pilotar um carro de Fórmula 1. O filme existe para que algumas cenas e sequências incríveis possam ser feitas. Para quem acompanha o esporte, talvez seja o filme mais legal do mundo. Para mim, que não sou grande entusiasta, foi um bom filme. Nada mais que isso. Nem ruim, nem muito bom. Apenas bom.

Mas aí fica o questionamento: precisa, sempre, ser mais do que isso? Um filme, na minha concepção, pode servir a vários propósitos. A arte é um deles. Mas eu não seria tão ingênuo de imaginar que, hoje em dia, nesta distopia de mundo onde vivemos, todo filme deva ser arte, ou possa ser arte. Parto da talvez pragmática-demais ótica de que, justamente para que a indústria continue sendo frutífera, e cada vez tenha mais dinheiro para fazer filmes que são de fato arte, educando mais pessoas para que se interessem por eles, ela precisa continuar sendo rentável. Parte dessa rentabilidade vem de filmes como F1, Barbie (2023) ou Oppenheimer (2023).

No entanto, e essa é uma contraposição importante: se não podemos extinguir como um câncer todos os filmes que sabemos ser ruins, as tantas obras industriais de Hollywood para manter a indústria viva e lucrativa, há maneiras de fazer coisas um pouco menos tenebrosas? Eu quero acreditar que sim. E esses exemplos são provas disso. F1, tal como alguns dos blockbusters recentes, acorda de manhã com uma única missão: fazer um bom filme de ação. Vai empolgar famílias, contar uma história minimamente palatável, com o mínimo de linhas de roteiro ofensivas (há mais de duas, mas menos de cinco, o que, no contexto atual, ainda é aceitável). E nada mais. É um filme sobre Fórmula 1, e entrega bem aquilo a que se propõe.

E no contexto atual, isso pode ser visto como um saldo positivo. Quando alguns dos filmes mais lucrativos dos últimos anos são Avatar 1.1.3 (2025), o cansado universo Marvel e alguma iteração de Super Homem, F1 simplesmente aceita a missão de lançar um original e a cumpre com alguma qualidade.

A maior parte do filme, dos diálogos às cenas informais, tem o tratamento e o look clássicos da Apple TV, o que não é defeito. Em seu setor audiovisual, a Apple parece vir dando certa liberdade na identidade visual de suas obras, especialmente nas de alto orçamento. A única coisa que parece unir a coesão do estúdio é uma certa limpidez na imagem. Tudo é muito nítido, tudo tem muita definição, mas também tem cor. Existe saturação, existe alguma diferença nos tratamentos - diferente dos longas da Netflix, que salvo raras exceções, parecem passar pelo mesmo filtro na edição final. F1 tem sua própria cara. Uma mistura interessante de locações quentes com tons frios. Algumas cenas são muito bem enquadradas, com destaque para as cenas dentro do carro.

O uso do movimento, o uso da alta velocidade em alguns momentos presta homenagem a outros filmes da mesma veia: Speed Racer (2008), Velocidade Máxima (1994), mas o longa também inova, fazendo bom uso do orçamento e da tecnologia atual. Os planos em ponto de vista dos pilotos num veículo de Fórmula 1 são verdadeiramente algo que eu nunca tinha visto. O feito que agrega, sim, à experiência e à emoção que o filme tenta transmitir nessas cenas.


Se isso é possível, não há dúvidas de que F1 é um bom filme de gênero. Que bom que é. Não faz nada além disso e não precisa fazer. Nunca achei que desejaria isso, mas após longos anos desérticos de ideias originais, roteiros originais e com uma escassez absurda de produções que sequer deem espaço e oxigênio para o risco, narrativas visuais diferentes, aplicações de cinema diferentes, filmes despretensiosos, parece um respiro de ar fresco ver que algumas obras estão conseguindo furar a bolha e retomar o espaço perdido para os bonequinhos de ação na tela.

Por mais comédias românticas, mais filmes de ação, mais blockbusters que não vão mudar sua vida, mas não vão estragar seu domingo em família.

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