Crítica | Lily Allen - West End Girl

 
 

A maior constante sobre esse disco, e inclusive a recepção dele, é a notória baixa capacidade de qualquer homem de entendê-lo.


No ano de 2000, Madonna lançava o álbum Music. E no fim da sua icônica tracklist, uma música que parece não envelhecer, vanguardista em sua época, simples, mas com uma mensagem poderosa que até hoje parece tão atual quanto na data de seu lançamento: "What It Feels Like for a Girl" (ou, na versão em espanhol da música, "Lo Que Siente La Mujer"). Especialmente, girl diz muito aqui. Na época, Madonna estava recém-casada com Guy Ritchie, descobrindo sua nova vida britânica. E a inflexão do significado e até da dicção de girl dá à interpretação de Madonna nessa canção um caráter todo especial. Ser uma garota, em bom inglês, parece evocar muito mais do que a palavra por si só pode significar.

Vinte e cinco anos depois, refletimos sobre a mesma palavra como faixa-título do quinto álbum de Lily Allen, West End Girl. Essa garota não tem mais os vinte e poucos anos que tinha nos anos 2000 e, tal qual Madonna na era Music, a palavra parece até inadequada para descrever uma mulher que já tem décadas de carreira, um legado consolidado, é mãe, é ex-esposa. Lily Allen não é mais uma “garota”, e sabe disso. Mas a sensação de ser uma garota parece uma constante dos momentos onde o fator liberdade encontra o elemento de vulnerabilidade. Uma mistura de autonomia e inocência, que parece um presente que nem sempre foi pedido, se é que não foi imposto.


West End Girl é um retorno à forma para a britânica que sempre teve um talento ímpar na ponta do lápis para descrever sentimentos muito particulares de sua vivência no mundo da música e em suas relações pessoais. Destroçada por tabloides no início de sua carreira, altos e baixos acompanharam Lily Allen sob o olhar público, mas uma coisa que nunca foi duvidada é sua capacidade de, no meio do caos, escrever uma canetada.

No início dos anos 2010, o foco em sua família a afastou um pouco da maluquice da indústria. O primeiro lançamento dessa época, Sheezus, não foi bem recepcionado e soa hoje mais datado do que nunca, como a obrigação contratual que foi. No Shame exibiu um retorno à forma, especialmente destacando a evolução sônica e seu amadurecimento em experimentação musical. Mas também soa, apesar de um bom álbum, como um reencontro de Lily com o seu desejo e suas competências de fazer música, mais do que algo atrelado coerentemente ao espírito do tempo.

No Shame foi lançado há oito anos. E em 2025, honestamente, não parecia que Lily Allen voltaria tão cedo com músicas inéditas. Eu francamente não esperava. Mas a grata surpresa (para nós, ouvintes), foi o triste encerramento de seu segundo casamento. Fato sobre o qual não vou me debruçar muito: acredito que a “lore” do fim de Lily Allen e David Harbour só tornou-se pauta porque o disco é bom. Se o disco fosse ruim, ou não mexesse com ninguém, não há fofoca que atrairia tantos olhos e ouvidos; como eu disse, Lily Allen sempre foi pinhata da mídia. O disco não precisaria nem ser ruim; um lançamento medíocre que fosse já seria suficiente para garantir a presença de grilos, e nada mais, nas ativações de divulgação do quinto álbum de uma popstar que já não o é mais.

Contudo, a história não foi essa. West End Girl traz de volta a Lily Allen áspera, ácida, extremamente bem-humorada, irônica, que consegue falar de si e de seus traumas e desgraças com uma pitada de humor que não víamos há muito tempo. Talvez os últimos resquícios dessa Lily em alto nível estejam presentes no álbum It's Not Me, It's You, em faixas como The Fear e Not Fair. West End Girl retoma as melhores partes da Lily Allen dos anos 2000 e soma, em cima disso, a coragem exploratória que ela parece ter adquirido em No Shame.

West End Girl é um disco de conceito narrativo, mas não é conceitual. Discos conceituais, ao menos superficialmente, hoje em dia, parecem carregar o fardo de precisarem ser maiores do que são. Dotados de uma grande verdade, uma característica quase esotérica, grandes composições visuais, algo maior que a vida. Este disco não é um disco conceitual. Ele só é um disco extremamente narrativo. Não à toa, já há discussões sobre uma peça musical inspirada na obra.

Ao longo de 14 músicas, Lily Allen explora, do início ao fim, o desmantelamento de seu casamento. Da ligação telefônica onde as coisas começaram a desandar até a conformidade com a mediocridade do marido, que estava posta desde o início, na superação do final do álbum. Ao longo dessas 14 músicas, Lily se debruça no que não havia feito até então sonicamente, colaborando com Danny L. Harle, produzindo faixas pop que dialogam com os anos 2010 e os 2020, com influências de hyperpop, PC Music, mas também de R&B e até mesmo as pitadas de ska que faziam o seu som tão interessante no debut, Alright, Still, retornam para West End Girl.

É aí, então, que a narrativa torna-se não uma desculpa ou uma artimanha, mas sim um dispositivo que dá ainda mais força a essas viradas sônicas. Lily continua acessível, suas letras são diretas ao ponto, sem soarem fáceis. Suas composições melódicas são altamente cantáveis, mas também têm sua personalidade por todo lado. E as harmonias ao longo do disco abusam de algumas progressões tradicionais, mas feitas da sua maneira. Soam simplesmente adequadas ao feitiço da narrativa que ela conta. Foi um disco composto rápido, mas produzido com tempo. E quando os responsáveis pela composição e pela produção sabem o que estão fazendo, essa geralmente é uma mistura que dá certo.

Algumas músicas funcionam melhor do que outras quando analisadas por conta própria. O lado A do disco, da abertura até Relapse, é especialmente irretocável. De Pussy Palace até Fruity Loop, há algumas faixas que não mantêm o mesmo nível de unicidade e carisma estelar de Lily como as outras (os maiores exemplos são Just Enough e Beg For Me), mas, ainda assim, no flow da narrativa do álbum, é muito difícil querer clicar no botão de skip.

West End Girl funciona bem do início ao fim. Não há grandes viradas aqui, não há grandes revoluções de produção; não é uma obra da mais alta estirpe lírica, nem temos uma artista executando à perfeição um estilo próprio que vem desenvolvendo há anos, como Charli XCX fez em seu último álbum. Contudo, Lily Allen abraça em West End Girl o perfil generalista porque ela é uma das poucas artistas contemporâneas que possui a competência para abraçá-lo. Faz um disco narrativamente rico, conceitualmente interessante, apresenta uma história triste com bom humor e personalidade. Pincela diferentes estilos musicais para reforçar as ideias de cada faixa e a emoção que cada uma delas quer evocar.

E, ao fazer tudo isso, entrega uma narrativa que não poderia ser melhor descrita do que como um desabafo íntimo de uma garota, cuja potência e sentimento são direcionados mais especialmente ainda aos ouvidos de outras garotas. É um dos destaques do pop de 2025 e, imediatamente, um dos melhores álbuns de Lily Allen. Provavelmente, o melhor.


Que honra é para nós, ouvintes, ter a oportunidade de se sentir, ouvindo o disco, tão próximas de uma personalidade tão interessante e de uma artista tão inventiva. Em West End Girl, Lily não grita aos quatro cantos, não pede aprovações e muito menos dá satisfação a homem. Ela escreve, produz e encena seu próprio teatro; seu próprio musical. Tira os sapatos de mãe e vest as pantufas de garota. Coloca todas nós na posição de amigas, nos convida para dentro do quarto, nos convida para sua festa do pijama e nos dá o privilégio de assistir à sua estranha, engraçada e tragicômica peça.

O que nos traz de volta ao início da discussão: o não entendimento masculino dessa obra. Das críticas negativas do álbum em portais agregadores, 100% delas (ao menos, até a data atual) são escritas por homens. E é claro que são. Das dores sentidas à forma com que elas são digeridas e relatadas, o prisma e a perspectiva de Lily como garota, como mulher, são inevitáveis.

Ao ponto de, possivelmente, alienar completamente quem não tem em sua bagagem o repertório para entender o todo explorado aqui e os sentimentos expostos: a dor, a desilusão, a sensação de ter sido uma completa otária, mesmo sabendo que não é; o drama, as palavras, o caos interno que explode e então se auto-gere, auto-limpa, não por imediata superação do trauma, mas porque não há outra opção senão essa.

É impossível não se apaixonar por West End Girl.

E se você não se apaixonou, pode sair do quarto. Essa peça não é, nem nunca foi, pra você.

Amanda Machado

Analisadora over-pensadora daquilo que mais amo no mundo. Eterna estudante do cinema. Natural de Manaus, vivendo em Lapinha da Serra. Early bird.

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