Crítica | Paul McCartney: Man on the Run (2026)

Em fuga de si

 
 

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O documentário Paul McCartney: Man on the Run (2026), dirigido por Morgan Neville e lançado em 27 de fevereiro no Amazon Prime Video, acompanha a trajetória de Paul McCartney após o fim dos Beatles e se concentra no período turbulento que culmina na criação do Wings ao lado de Linda McCartney. Mais do que relatar fatos, o filme mergulha nas emoções, nos conflitos internos, nas crises criativas e na pressão pública que passaram a cercar McCartney naquele momento. Tudo sustentado por imagens raras, gravações caseiras e depoimentos de pessoas próximas.

A narrativa começa justamente onde muitos acreditam que a história termina: no fim dos Beatles. Paul, desaparecido dos holofotes após o “pedido de divórcio” de John Lennon, ainda em segredo, refugia-se no interior da Escócia. Deprimido, afunda-se no álcool enquanto carrega nas costas a culpa pública pela dissolução da maior banda do mundo. Enquanto John e Yoko Ono ocupavam os noticiários com ativismos e declarações barulhentas, Paul parecia seguir na direção oposta: recolhido, silencioso, tentando entender quem era sem o rótulo de Beatle. Um homem que já havia conquistado tudo e, ainda assim, parecia sentir-se vazio.


REINVENÇÃO

Talvez tenha sido justamente nesse ambiente doméstico, cercado por Linda, pelas crianças e pelos animais, que encontrou forças para sua primeira virada teimosa. Sozinho, quase em segredo, grava o álbum McCartney (1970). Intimista e cru, o disco parecia pequeno demais para alguém que havia saído da maior banda do planeta. A crítica esculhamba. Parte do público também. Ainda assim, a reestreia mostrava que Paul, ao contrário das teorias conspiratórias que circulavam na época, continuava vivo.

​Para nossa sorte, ele dobra a aposta e lança Ram (1971). Mais elaborado, inventivo e por vezes estranho, o disco também recebe críticas duras. A ousadia parecia um desrespeito ao pedestal onde insistiam em mantê-lo. Ainda assim, vende bem e, com o tempo, torna-se um dos favoritos de sua fase solo. Anos depois, inclusive, é elogiado por Sean Lennon, filho de John e Yoko. O tempo, às vezes, corrige o que a pressa condena.

​Talvez o ponto mais interessante seja perceber que McCartney não parecia tentar provar algo ao mundo, mas a si mesmo. Era menos sobre competir com os Beatles e mais sobre descobrir se ainda existia música dentro dele. Convencido de que precisava seguir adiante, queria mais. Queria banda. Queria estrada. Surge então o Wings.

Paul cruza a Inglaterra em um furgão, batendo na porta de universidades para fazer shows improvisados. Também vemos o famoso ônibus de dois andares aberto e psicodélico percorrendo a Europa, acompanhado da família, da banda, dos instrumentos e até de sua cachorra Martha. Em uma turnê que começou mambembe e se tornou uma celebração itinerante, Paul parecia tentar desaprender a ser ícone para reaprender a ser músico. Talvez essa seja a verdadeira fuga retratada no filme: não da fama ou do passado, mas da própria imagem monumental que o mundo havia construído para ele.

​Longe da guerra midiática que alimentava intrigas entre os ex-Beatles, Paul parecia buscar algo mais simples: viver de música. Nesse caminho, joias muitas vezes esquecidas em retrospectivas de sua carreira são valorizadas. Canções como Uncle Albert/Admiral Halsey e Long Haired Lady reaparecem como lembretes de um compositor inquieto. Mas talvez seja em Mull of Kintyre que se revele com mais clareza a alma de Paul naquele período de exílio e transformação. Um folk escocês, com direito a gaitas de fole, algo improvável para quem acompanhava sua carreira. Ainda assim, a canção encontrou o público de forma avassaladora e tornou-se um dos singles mais vendidos da história do Reino Unido, provando que, quando a música nasce de dentro, o caminho até as pessoas costuma encontrar seu próprio rumo naturalmente.

​As asas do Wings funcionavam quase como presságio. Com o lançamento de Band on the Run (1973), McCartney volta a voar. Turnês maiores, estruturas grandiosas, reconhecimento renovado. Mas a centralidade inevitável de seu nome continuava criando tensões. Mesmo insistindo que não queria que os colegas se sentissem como banda de apoio, esse era um peso difícil de escapar. Afinal, quando o parâmetro eram os Beatles, qualquer comparação parecia destinada à frustração.


INDEFINIÇÃO DE RUMOS

O documentário também revela as multifacetas de Paul McCartney. Muito além das barbas, cabelos e bigodes que marcaram suas fases, surgem pequenas peculiaridades de sua personalidade. Uma delas aparece no tom cínico de uma entrevista concedida após a descoberta de plantas de maconha em sua fazenda, quando tenta justificar a situação com uma desculpa que parece não convencer nem a si mesmo.

​Nesse aspecto, o filme opta por uma honestidade brutal ao retratar outros episódios envolvendo a erva. Um deles culmina na prisão de nove dias em Tóquio, em 1980, após a descoberta de maconha em sua bagagem. A consequência imediata foi o cancelamento de uma grande turnê no Japão, com prejuízos milionários e um abalo profundo na engrenagem do Wings. Um empurrão silencioso para o fim da banda.

Enquanto isso, o público continuava esperando um reencontro dos Beatles. A sombra permanecia, como se nada fosse suficiente. Cada beatle acabaria se tornando uma entidade cultural tão grande quanto a própria banda.

Pouco antes da morte de John, uma reconciliação carinhosa afirma que, apesar de tudo, a essência construída em 1957 continuava ali. No fim das contas, sempre seriam Beatles.

Sean Lennon, ao defender Paul da suposta frieza em entrevistas após a morte de seu pai, observa algo curioso que sempre notou em seu olhar e em seu tom de voz: a sensação de alguém que simplesmente não parecia entender o que estava acontecendo. Talvez isso diga muito sobre sua natureza inquieta. Sobre essa sensação permanente de deslocamento que parece empurrá-lo para frente. Como se a dúvida, e não a certeza, fosse o verdadeiro motor de sua criatividade.

Mas, talvez, a prova mais bonita de que sua teimosia valeu a pena venha de uma história simples que ele próprio conta. Anos depois, ao perguntar ao sobrinho qual era seu álbum favorito, ouviu como resposta: Ram. Em vez de um clássico dos Beatles, a preferência recaía justamente sobre um disco nascido da incompreensão e do risco.


FUGIR DO QUE?

Parece que a fuga era o próprio caminho. Tudo aquilo que parecia buscar fora dos Beatles sempre esteve dentro dele. A música não era destino. Era origem. Mudavam os palcos, mudavam as bandas, mudavam as expectativas. Mas ele permanecia. Beatles, Wings, artista solo. Antes de qualquer rótulo, Paul McCartney sempre foi música.

​No fundo, só queria crescer. Virar páginas. Seguir adiante, mesmo que às vezes fosse preciso recuar. Se tivesse escolhido repetir eternamente o que já havia sido feito, o mundo teria perdido muitas das joias que nasceram justamente dessa coragem de continuar.

Man on the Run registra isso com delicadeza e força. Muito além de um beatle, tornou-se algo maior: um artista que aprendeu a recomeçar sem deixar de ser quem sempre foi.

​Uma lenda não pelo que preservou, mas pelo que ousou transformar.

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