Crítica | São Paulo, Sociedade Anônima (1965)

A cidade e o desaparecimento dos rastros.

 
 

Prédios monumentais são enquadrados pela câmera. Através de uma sinfonia monstruosa, o movimento percorre a ausência dos indivíduos. Neste percurso, não há uma frontalidade diante das pessoas que atravessam esse mundo. São vultos passageiros, laboriosamente condensados na cidade. O resto é ruído.


O que você disser, não diga duas vezes.
Encontrando o seu pensamento em outra pessoa: negue-o.
Quem não escreveu sua assinatura, quem não deixou retrato
Quem não estava presente, quem nada falou
Como poderão apanhá-lo?
Apague os rastros!

Cuide, quando pensar em morrer
Para que não haja sepultura revelando onde jaz
Com uma clara inscrição a lhe denunciar
E o ano de sua morte a lhe entregar
Mais uma vez:
Apague os rastros!
— Bertolt Brecht, "apague os rastros"

São Paulo Sociedade Anônima (1965), de Luís Sérgio Person, é um ponto decisivo da história do cinema Brasileiro, correspondendo o que ficaria conhecido pela entrada de um cinema urbano. São Paulo é personagem, cidade, câmera e montagem. Lançado no dia 6 de outubro de 1965, o filme foi bem recebido pelo público e crítica, sendo visto, pelos cinemanovistas (Paulo César Saraceni, Cacá Diegues e David Neves), como modelo de um cinema urbano a ser seguido. Naquele contexto, o filme repercutia o desgaste político causado pelo golpe militar e a falência dos projetos político-pedagógicos do governo de João Goulart. Retratando a euforia do progresso desenvolvimentista do setor automobilístico dos anos de 1957 a 1960, o filme dilata o tempo do governo de Juscelino Kubitschek por meio da fragmentação da narrativa. Através de Carlos (Walmor Chagas), percebemos os malogros de uma classe média alienada diante do progresso idealizado da nação brasileira no espaço paulistano.

Mas quais são os vestígios que temos do passado de Carlos? Um homem branco, de classe média, que conduz xingamentos a todas as mulheres que se relaciona. Diferentemente de Bandido da Luz Vermelha (1968), em que o excesso de informação desorienta o espectador, São Paulo Sociedade Anônima trabalha na nebulosidade do passado. Afugentada pelo progresso, o passado é eclipsado, confuso e obtuso. O filme fragmenta-se diante do discurso de Carlos. Ele, caminhando pela cidade de São Paulo, conversa olhando nos olhos da câmera. Nota-se que a sua história só existe a partir da indústria automobilística, e a câmera corporifica seu transe citadino. Mil vezes recomeçar, exclama o personagem. Embora o filme se estruture através de uma narração póstuma que recorda a memória de Carlos, essa câmera-defunto pouco diz sobre a sua vida antes de São Paulo. Sabemos da sua formação como desenhista industrial, que possibilitou seu emprego na Volkswagen, e de uma música cantada em diversos momentos da narrativa. A composição Favela (1955), de Hekel Tavares, grande músico alagoano que misturava o erudito e o popularsurge na voz de Carlos como uma espécie de vestígio do passado.

É neste projeto lacunar da memória de Carlos que seu corpo apresenta-se desorientado. Sua voz é apagada pela fábrica e pela cidade, ouvimos apenas as máquinas e sua repetição industrial de montagem que se propaga pelo ambiente urbano. A memória torna-se um estilhaço de uma história derrotada, onde a destruição da experiência na modernidade é propagada pela abstração de um ideal: o progresso. Derrotado, em uma massa sem individuos, Carlos exclama:

Recomeçar. Trabalhar.
Mil vezes tentar ser um homem.
Trabalhar com Arturo. Esquecer Ana. Apagar Luciana.
Não lembrar-se senão do trabalho.
Das 50 obrigações diárias.
Lembrar somente das lutas e ações diárias do trabalho.
Lembrar-se de uma engrenagem, e mais outra, e mais outra e mais outra!
De uma engrenagem e depois o eixo que deve ser entregue dentro do prazo estabelecido.
Mil vezes recomeçar. Recomeçar de novo. Recomeçar sempre.
Recomeçar!
Aceitar!
Aceitar!
Recomeçar!
Aceitar!”

Percebe-se que há um recomeço sem memória e sem recordação do passado. Todas as lembranças de Carlos foram tomadas pelo estatuto do trabalho na metrópole. Como um narrador no mundo da montagem, a forma artesanal de comunicação é profanada e obliterada. Por meio da linguagem cinematográfica, Luís Sérgio Person corporifica a experiência e os mitos da metrópole. A montagem, percorrendo a continuidade e descontinuidade, constroi-se perante o sujeito (Carlos) e o espectador, como uma invasão cancerosa que contamina tudo e todos, proliferando-se sob a imagem e narrador, as engrenagens surgem como uma linguagem degradada que toma rapidamente o corpo de Carlos e da Câmera. Neste instante, antes do corte que interrompe o seu grito, escutamos “Aceitar”; e, logo em seguida, adentramos em uma monótona aula de inglês, que se repetem as seguintes frases: “Learn! Remember! Forget! Forgot!”

Se, neste trecho, Person demonstra a cacofonia crescente na escassez do tempo e espaço da cidade, em outros, encontramos os destroços desse mundo. Na expansão material desenfreada de São Paulo, lugares degradados e marginalizados são percorridos por Carlos. Na fuga da cidade, os personagens vão ao campo, ao litoral e ao interior, com imagens contrastantes ao ambiente urbano paulista desvairado. Em um certo momento, Carlos caminha com Ana pelos destroços de um porto, contemplando um espaço em ruína, e num esforço de restituição de algo, de fragmentos espaciais de um passado, o diálogo entre os personagens provoca um mal estar que trabalha em conjunto com a destruição humana aparente:

Carlos – Existe sempre um porto. É um porto ainda quando não é.
Ana – Carlos, o que é esse lugar?
Carlos – Era... Hoje não é mais.
Ana – Carlos, o que era este lugar?
Carlos – Era um porto, um porto de areia.
Ana – Areia, barcos. Os barcos, o que eram?
Carlos – Os barcos não eram barcos. Os barcos eram batelões. Os batelões eram para a areia. A areia era para o vidro. Hoje a areia não é mais para o vidro. Hoje não tem mais vidro. Hoje não tem mais.

Esses trechos, junto com a música cantada, provocam a percepção de que algo foi destruído. Semelhantemente, na cena que Carlos visita a mãe doente de Ana, a câmera enquadra de maneira obtusa aqueles corpos, onde a música e o movimento da câmera regurgitam aquele lugar e seu descompasso com a linguagem. A câmera deseja voltar à cidade. No final, na sua grande fuga de São Paulo, do casamento, de Luciana e seu filho, Carlos contempla a paisagem da natureza e seus sons, à sua frente, homens aumentam o espaço da estrada. O tempo se estabiliza diante da tragédia. Não há fragmentação. O espaço é único e não há lugar para onde fugir. O tempo se torna espaço.  

A industrialização desenfreada construiu multidões onde corpos disputam por um espaço. Hoje, o colapso do mundo e suas tragédias climáticas reconfiguram as nossas percepções e estímulos. Perpassados pela cidade, o esquecimento percorre as ruas, prédios e ladrilhos. Homogeneizados, higienizados, esquecidos. Apagar rastros.

O filme de Person está em cartaz em decorrência de uma nova restauração em 4k. Aqui, em Porto Alegre, pode-se assistir na Cinemateca Paulo Amorim e na Cinemateca Capitólio, ambos são prédios monumentais presentes no Centro Histórico da cidade e representantes de um esforço contrário ao apagamento de rastros. Nessas salas, ver a monstruosa cidade de São Paulo e seus dentes, confere ao espectador presenciar as consequências que se desdobram no agora.

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