Crítica | Bill Callahan - My Days Of 58
“It’s important to not treat your lifeboat like a yacht”
Mais acessível do que nunca, mas ainda profundamente idiossincrático, Callahan transforma o peso da carreira e da idade em matéria-prima.
Em junho, Bill Callahan completa 60 anos. Mais de 30 desses são dedicados à composição e gravação - experimental durante a grande maioria deles. Pathol O.G, a faixa três do disco, serve como uma espécie de ode à longevidade, à carreira e a um olhar detalhado sobre o método de composição de Callahan. Pois como Smog, como Bill e no projeto colaborativo The Sundowners - nos anos 90 com o compositor Will Oldham -, a canção sempre foi prioridade, mas quase nunca acessível. A grande surpresa nos primeiros minutos do disco é a acessibilidade do arranjo, da mixagem e, principalmente, da narrativa, tanto estética quanto lírica.
Tais arranjos e instrumentos escolhidos para o disco são, com certeza, os mais refinados em termos tradicionais de toda a carreira de Callahan. Sopros e cordas fazem dobras com harmonias, teclas e violões. Também servem como grandes pontos de exclamação sonoros quando precisam pressionar e pontuar o lúdico, mas imersivo storytelling cantado por Bill (vide faixas 2, 3 e 5).
“An old friend didn’t show
And now there’s nowhere for this feeling to go
And no one for my little heart to hold”
O álbum começa com um dos temas mais radiofônicos e ligeiros desde talvez os tempos do finado Smog. Why Do Men Sing é um excelente lembrete de onde Bill veio e quem ele ainda tem certeza de que é. Brincadeiras à parte, o tema de pertencimento e identidade está presente durante mais da metade das faixas do álbum. Nelas, o personagem busca por autoafirmação e redenção, em forma de autorreflexão autopiedosa que já era tradicional na música de Callahan há 30 anos. Imagine agora, com o cantor molhando os pés nas águas rasas da terceira idade.
Um sonho febril com o espírito de Lou Reed e uma premonição mortal depois. O single carro-chefe do álbum, The Man I'm Supposed to Be, foi uma das maiores surpresas sonoras do ano para mim quando a ouvi pela primeira vez, há quase dois meses. A virada de tom sonora e temática de REALITY (2022) é inesperada. Nós sabemos que, quando nossos artistas favoritos começam a desacelerar, poetizar e ir em desencontro com o que foram no passado, geralmente isso é permanente; e, desde Shepherd... (2019), eu achei que esse fosse o caso.
A má notícia é que a constância vista nos últimos álbuns não se encontra aqui. Por mais coeso e uniforme que os timbres escolhidos sejam, canções como Computer e Lake Winnebago fazem um lado B menos interessante do que o fortíssimo lado A. Boa notícia? Além das outras nove músicas que são de boas a ótimas, Bill nos deixa um último presente.
Todos estão familiarizados com a sensação de ouvir uma música pela primeira vez e ela alterar toda a química do cérebro de forma irreversível, certo? Então, eu tenho um certo histórico com os álbuns desse compositor sobre o qual escrevo esta crítica. Acho que nenhum outro compositor, vivo ou morto, fez parte de tantos momentos de “virada de chave” da minha vida. Guardo a sete chaves uma pasta com as músicas que foram de tamanha importância na minha vida que mereciam um lugar próprio. Feather by Feather, Jim Cain, Let's Move to the Country, Riding for The Feeling, Small Plane são músicas que não apenas me teletransportam para momentos específicos, mas também sobrevivem e se transformam, ano após ano, trazendo novas reflexões, mas mantendo o mesmo sentido.
Empathy é o ápice emocional do disco. Desde a primeira audição eu já havia entendido que essa não seria uma faixa comum e, por tabela, esse disco não seria um disco comum. A produção esquelética soa quase como um voice memo ou uma demo em estágio embrionário. A letra é direta e reta como nunca antes. Bill, como artista e pai, em um raro momento de pragmatismo lírico.
“Dad, you dropped a bomb on me
When I was thirty
You said you got by without a father, so you figured why should I have one
Okay, okay, it made me wonder though
Can you get by without a son?”
E posso aqui ficar o dia inteiro falando sobre como o violão orquestra os arranjos de banda e sopro de forma especial. Ou sobre como a voz, o estilo de cantar e de compor harmonicamente do cantor me lembram fórmulas de composição dos anos 60 e 70 que estão em extinção e, sempre que tentam ser emuladas, falham miseravelmente a ponto de virarem chacota entre fãs e críticos. Mas, de alguma forma, ele consegue coçar essa falta de uma forma excelente há 30 anos.
Mas a verdade é que eu gostei do disco em um nível tão pessoal que nem é justo eu me estender e me debruçar em detalhes técnicos de forma imparcial. De forma emocional: escute o disco. Escute Bill Callahan, a discografia inteira, se possível. Escute Smog, que é basicamente um prequel da carreira solo, tão precioso ou até mais do que os discos solo. Procurem saber: esses presentes estão disponíveis em quase qualquer trabalho escrito por Callahan.