Artigo | O Prazer na Música (parte 2)
Este é o segundo artigo de um conjunto desenvolvido pelo autor.
Confira o primeiro aqui.
o limite da crítica é o começo do respiro
“O prazer aperta a alma contra o seu objeto.”
-Tomás de Aquino
Os Contratorpedeiros Musicais
Se bastasse a formulação crítica e o desenhar de astutas interpretações historiográficas (ao modo que tentamos fazer na primeira parte deste ensaio), o mundo e seus problemas estariam mais que encaminhados. Contudo, sabendo que não é bem assim que a banda toca, somos obrigados a ir de encontro ao status quo e embarcar na esteira pessimista do filósofo e pensador da cultura Mark Fisher. O trabalho crítico precisa levar em consideração que a maquinaria do mundo contemporâneo está tão embrenhada pelas engrenagens do capitalismo tardio, que se torna quase impossível pensar em alternativas a essa realidade - Clive Davis e sua ninhada, infelizmente, já venceram. Pelo menos a parte mais óbvia da batalha.
Deste estado melancólico a música e seus ouvintes são copartícipes de forma inescapável, dada a amplitude da Indústria Cultural e das formas de acesso e distribuição musical ser quase sempre por esta filtrada, manipulada, capitalizada e etc. Porém, nem tudo está perdido. Nunca está.
A música, apesar de não-livre, se deixa apanhar pela força da correnteza para nela nadar à sua maneira.
Aquilo que surge para resistir ou combater “algo” frequentemente se utiliza ou faz mímica da mesma estrutura fundamental deste “algo”. Um contratorpedeiro ainda é um torpedeiro. Sendo assim, os gêneros musicais que se propõe consciente ou inconscientemente a produzir sua diferença em relação ao sistema de recompensas instituído, via de regra também apresentam um tratamento muito particular dado ao prazer - é fogo contra fogo mesmo.
Assim, ainda que dentro do viés da subversão, um aspecto que estas músicas não nos deixam esquecer é que a nossa relação intuitiva, corporal e mental, com a música é profundamente marcada pelo prazer. Não só não é censurado o acesso a este, como o próprio prazer se torna objeto de elaboração estética quando em boas mãos.
Aqui irá residir uma diferença fundamental: há prazeres administrados e há prazeres pensados.
Repetição e Prazer
A música, por se tratar de uma arte que apenas se manifesta ao estender-se no tempo, acabou por desenvolver códigos desde os quais se faça reconhecer como um objeto coeso, com estrutura delimitada e identidade própria. A isso chamamos de “forma” dentro do estudo da música. Colocando um pouco de lado as complexidades e exceções ao longo da história, podemos apontar que a forma padrão que as músicas populares tomaram para si é chamada de forma-canção ou, simplesmente, de canção.
A canção se consolida como a marca registrada da experiência musical contemporânea para a massiva parte das pessoas, e isso não poderia ser sem causas definidas. Nota-se, quando alguém afirma gostar de música, quase sempre se está falando nas régias canções.
Para começarmos a pensar nesta hegemonia, lembremos que a canção, todos sabem, é prontamente reconhecida pela presença do refrão, parte destacada e, sobretudo, repetida. Este é um dos princípios organizadores da canção que irá funcionar estreitamente coligado à produção de prazer, especialmente na era da Indústria Cultural.
Evidentemente, a repetição na estética musical é muito mais antiga que qualquer tipo de iniciativa fonográfica. Nas mais variadas etapas do desenvolvimento da música, abundam termos que descrevem a recorrência em suas diferentes manifestações: ritornelos, cânones, drones, ostinatos, ragas, e, mais atualmente, riffs, loops e refrões.
Formas medievais como o virelai francês já se organizavam a partir do retorno periódico de um refrão, responsável por conferir identidade à composição. Em “Douce Dame Jolie”, de Guillaume de Machaut, do século XIV, já encontramos uma lógica que, séculos depois, seria explorada de maneira cada vez mais intensa pelas canções populares.
É particularmente interessante que compositores como Machaut utilizem a recorrência para estabilizar a forma, e não para maximizar ou administrar o prazer de modo intencional. De qualquer modo, se externamente a repetição na música marca sua estrutura, cria reconhecimento coletivo e convoca uma audiência pela memória, internamente a repetição parece hipnotizar o ouvinte segundo sua matemática própria.
O efeito subjetivo deste caldeirão revolvente é o prazer.
Assim, se repetição e prazer são quase intrínsecos, o sucesso da canção não é nem um pouco acidental. Poucas estruturas musicais conciliam tão bem reconhecimento, repetição e expectativa quanto a boa e velha canção. Em outras palavras: poucas formas musicais em sua arquitetura parecem tão especificamente vocacionadas para a irrupção do prazer.
Como exemplo curioso desta tese, vale lembrar o quanto o Hip Hop foi domesticado nos anos 2000 e 2010 pelos “feat.”. Este modelo consiste no enxerto de um refrão, desempenhado por alguma estrela do mundo Pop, intercalado às partes executadas pelo rapper. De forma astuta, o mercado percebeu que refrões cantados ampliavam enormemente o alcance comercial do gênero.
E assim, uma boa fatia do Hip Hop foi “cancionificado” de modo a trabalhar a favor de um ouvido ávido e já acostumado às pílulas de prazer ciclicamente organizadas pela forma-canção. Faixas como “Dilemma”, “Empire State of Mind” e “Love the Way You Lie” ilustram bem este movimento.
Se a indústria não cessa de enxertar o potencial comercial deste tipo de canção, alguns artistas mais recentes decidiram por contra-explorar esta lógica em outra direção.
O Espectro da Canção
O gênero musical Vaporwave, surgido e sustentado por uma comunidade virtual quase inteiramente anônima, conseguiu, por algum golpe de muita sorte (ou de muito sentido), transformar-se em febre na primeira metade dos anos 2010. Escolho falar deste gênero bizarro, liminal e ausente de autoria por, nada mais nada menos, ser o responsável pela resposta crítica mais improvável ao império da canção hittificada.
Seguindo a trilha histórica das artes irônicas, Dadaísmo e Pop Art, o Vaporwave ama justamente o que critica. Ele assim o faz manipulando as mesmas variáveis que os hits, a saber, repetição e prazer.
Seu gesto fundador consistiu em ingênuos uploads no YouTube de um usuário então desconhecido, mas que posteriormente viria a ser uma das figuras mais importantes da produção musical contemporânea. Daniel Lopatin, hoje colaborador frequente no cinema dos irmãos Safdie, teve um início muito mais minimalista, mas suficientemente impactante.
À primeira vista, “nobody here” é um material tão simples que chega a desorientar: um pedaço recortado da famosa faixa dos anos 80 de Chris de Burgh, “The Lady in Red”, repetido em loop durante dois minutos. O trecho fantasmaticamente entoado “There’s nobody here…” é tão vaporoso e fugaz que dificulta inclusive a identificação da canção de origem. Nota-se, a música inteira é construída em torno de um pedaço de prazer já pronto - é um verdadeiro ready-mades afetivo.
Dado o exemplo, o Vaporwave é um tipo estranho e mesmo sinistro (“eerie”) de música Pop, que faz uso extensivo, quando não exclusivo, de samples. Evidentemente, o gênero não é o primeiro movimento musical que se organiza a partir do recorte de canções, brincando com seus trechos tal como a criança trata sua massinha de modelar - distendendo, compactando, desconstruindo e reconstruindo seus nacos. Os autóctones desta técnica residem sobretudo nas iniciativas das músicas eletrônicas e do próprio Hip Hop, cujos produtores há décadas exploram o potencial artístico do sample.
Logo, se o Vaporwave não é interessante particularmente pela utilização de samples, o é pela atenção específica que despende na manipulação do prazer contidonas canções que elenca. A cirurgia que este gênero opera consiste na extração de trechos específicos que ora maximizam ora frustram o prazer, objetivando mantê-lo permanentemente latente em um jogo de expectativas e acúmulos que nunca encontram resolução completa.
Em certo sentido, o Vaporwave leva a lógica do hit ao absurdo. Em vez da construção padrão de uma canção que alcança seu momento privilegiado, parte direta e por vezes exclusivamente deste. O destino torna-se matéria-prima.
Para exacerbar ainda mais esta lógica, os produtores do gênero trabalham especificamente com hits, com suas fatias mais reconhecíveis, cantáveis, saborosas e glutinosas. Herdeiros espirituais da iniciativa warholiana, estes músicos apropriam-se do Pop no que ele é mais superficial, mercantil e hedonístico - assim desenvolvendo uma estranha mistura de culto e crítica, sinceridade e ironia.
Em trabalhos como “Enjoy Yourself”, de Saint Pepsi, construído a partir de pequenos fragmentos de “Off the Wall”, de Michael Jackson, essa operação torna-se particularmente evidente:
Michael Jackson - Off the Wall (Audio) SAINT PEPSI - ENJOY YOURSELF (Music Video)
Em outros, como em “Eccojam A1", de Chuck Person, a operação é ainda mais radical. A faixa recorta a canção “Africa”, da banda Toto, precisamente no trecho que antecede o estouro do célebre refrão. Esta é outra forma que o gênero explora a expectativa do ouvinte, fazendo da espera (pelo familiar; pelo prazeroso) um objeto artístico privilegiado.
O Vaporwave, por um lado, simboliza uma consciência melancólica, resignada com nossa captura pelos meandros da hipermercantilização. Por outro, transforma essa própria captura em matéria estética. Sua astúcia está justamente em recusar tanto a adesão ingênua quanto a rejeição ascética do prazer, como tantos outros nichos experimentais o fazem.
O gênero continua produzindo prazer, mas o faz de maneira estranha, deslocada, espectral. Mantém o prazer em um estado intermediário, um morto-vivo condenado à eterna repetição. E com isso, no limite da crítica, o ouvinte ganha um tantinho de espaço para enxergar no rosto da Indústria apenas uma máscara.
O Vaporwave nunca intencionou destruir o hit. Apenas assombrá-lo.
Extra - Lista de Escuta
Chuck Person - Eccojams Vol. 1 [Full Album, Normal Speed]
Pedra fundamental do gênero, cunhando o termo Eccojams para descrever seu aspecto mais característico: fragmentos de canções familiares desaceleradas, repetidas e transformadas em espectros de si mesmas.LUXURY ELITE // SAINT PEPSI : LATE NIGHT DELIGHT (Vaporwave Classic) HD
Parceria de dois fortes nomes da comunidade, é um monumento dedicado ao deleite musical, cuidadosamente exacerbando o sabor dos originais em sua montagem e assim entregando um conjunto sonoro de êxtase e decadência.
death's dynamic shroud.wmv : I'll Try Living Like This
Álbum importante por deslocar o Vaporwave das fontes oitentistas e noventistas mais usuais. Ao empregar sua abordagem sobre o K-Pop, o grupo demonstra que o gênero consiste antes em uma visão estética do que mero jogo nostálgico.
ESPRIT 空想/George Clanton (Live Performance) - Elevator Music
Performance de um dos maiores expoentes do gênero e demonstração de como o Vaporwave adquiriu autonomia estética - a ponto de ser aplicada a uma canção contemporânea de Caroline Polachek com um belíssimo resultado.
t e l e p a t h テレパシー能力者 : 一緒に別の夜
Meu álbum preferido do gênero. Duas “canções” transfiguradas em blocos sonoros de 44 minutos e 44 segundos cada. Representa a vitória da música em relação ao tempo, simulando sua permanência para além da própria execução - este álbum é o impacto subjetivo no ouvinte. Um verdadeiro pináculo do romantismo musical próprio ao tempo contemporâneo.