Artigo | O Prazer na Música

Este é o primeiro artigo de um conjunto desenvolvido pelo autor

The Old Guitarist, 1903 by Pablo Picasso

“They said, 'You have a blue guitar,

You do not play things as they are.'

The man replied, 'Things as they are

Are changed upon the blue guitar.”

-The Man With The Blue Guitar | Wallace Stevens


Parte 1 (a da crítica chata)

O Refrão da Vida

Ainda graduando, em uma cadeira de Psicologia Social, tenho a lembrança da professora de então problematizar a ideia dominante do que se entenderia por “vício”. Rapidamente conceituamos o vício como um hábito prejudicial ou comportamento compulsivo que faz com que o indivíduo se veja escravizado a algum objeto famigerado - de modo a aprisionar-se em rotinas cujo custo é elevado e, por vezes, insustentável.

Assim, é quase intuitivo destacarmos tudo o que há de destrutivo nos vícios, nestes seus ciclos infernais de busca e abstinência. Mas busca de quê, mesmo? A resposta é boba: da realização em comum a todos eles. Sem entrar em cada minúcia e especificidade, todo e qualquer vício irá se fundamentar nada mais nada menos do que na repetição daquilo, este algo elementar, o prazer. Um sabor, uma adrenalina, um barato, um alívio, um arrepio, e por aí vai. 

Seja na forma que for, o prazer constitui o vício como um verdadeiro refrão da vida.

Nesse sentido, um dos pontos mais precisos daquela aula era justamente a crítica ao modo como o imaginário social reduz estes objetos viciante-prazerosos apenas às substâncias mais assumidamente “problemáticas”: bebidas alcoólicas, drogas ilícitas, cigarros, jogos de azar, compulsões alimentares, e bem sabemos que a lista segue longa... tendo tido suas últimas inclusões no uso abusivo de telas e nas múltiplas formas de dependência amorosa. 

E o que dizer da música? Teria ela teria lugar nessa lista? Seria lícito dizer que uma forma de arte pode ser viciante? Poderia esta desenvolver uma dependência voraz das pulsões auditivas, disfarçada inocentemente na escuta nossa de cada dia? Todos aqueles que já ouviram a mesma música on repeat, cinco, dez, quinze vezes seguidas, ansiando pela chegada daquele trecho que convoca, excita e arrepia, conhecem bem o potencial viciante e enfeitiçador da música.

Dos xavônicos “Call me Maybe”, de Carly Rae Jepsen, e “What Makes you Beautiful”, do One Direction, passando por “Gangam Style”, “Shallow”, “Seven Nation Army”, “Hotline Bling”, “Torn”, até o infinito da produção contemporânea. Estes são alguns dos vermes mentais (earworms) que não nos deixam em paz, são os ganchos (hooks) nos quais caímos de boca, são os chicletões que nos mascam sem parar, são os prazeres atravessados por pontas de culpa (guiltypleasures) dos quais nem mesmo o mais pedante está inteiramente imune. 

Para escapar, só tamponando os ouvidos.


Clive Davis, o Dealer Musical

Se a estrutura do vício parece cair como uma luva ao consumo musical de forma bastante própria, isso se deve a como a música entrega e organiza “aquilo” - o prazer -, bem como à forma que a indústria cultural, ao reconhecer estas propriedades, capitaliza e manipula suas margens. De fato, nenhuma outra arte organiza sua duração em uma dialética de repetição e reconhecimento, nem fundamenta sua linguagem em uma dialética de tensão e relaxamento, do mesmo modo que a música o permite e o faz. 

Esta última dinâmica, em particular, parece mimetizar por completo o comportamento do vício (tensão como abstinência; relaxamento como realização), a ponto de muitos autores nela identificarem o núcleo de toda a experiência musical. Apesar desta formulação deter suas complexidades e contrapontos, basta um olhar mais atento para perceber como a música pode engendrar ciclos de prazer a partir de elementos que lhe são estruturais. 

Não é difícil reconhecer que há hoje uma indústria amplamente estruturada em torno desse fato musical fundamental, algo intensificado pelos avanços algorítmicos e pelas novas formas de circulação e distribuição. Mas nem sempre foi assim. A associação entre música e prazer, tal como a experimentamos hoje, é relativamente recente, sobretudo quando pensamos em dois dispositivos centrais: o fluxo incessante do scroll nas redes sociais (TikTok, Instagram) e a lógica de entrega algorítmica dos serviços de streaming. Contudo, em se tratando do plano histórico, já tínhamos sinais claros desse pragmatismo: nenhum talvez tão eloquente quanto a própria noção de “hit” — cuja tradução como “golpe” parece, nesse contexto, menos acidental do que precisa.

O grão-mestre projetista desse culto foi o produtor musical e empresário Clive Davis (n. 1932), hoje colecionador de uma vasta série de honrarias acumuladas ao longo de sua carreira. Entre elas, conta com cinco Grammys, títulos da Rock and Roll Hall of Fame e diversas outras distinções. Inicialmente contratado pela Columbia Records como advogado, sua aptidão a farejar oportunidades se mostrou tão acertada e lucrativa que ascendeu à presidência da instituição em menos de uma década, em 1967. 

Ano emblemático na história da música, enquanto Andy Warhol produzia o The Velvet Underground, os The Beatles lançavam o Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, a psicodelia e a contracultura se erguiam preponderantes no cenário musical. Nesse mesmo ano, a ascensão de Davis no mais alto escalão decisório da música pode ser retrospectivamente entendida também como um marco, talvez tão ou mais decisivo quanto os anteriores, ainda que por razões muito menos felizes.

O que Davis fez foi desenvolver a indústria fonográfica em direção às formas mais eficientes de maximizar o faturamento dentro da produção e distribuição musical. Para tanto, ele encabeçou três iniciativas: 1) a criação de um star system análogo ao fílmico hollywoodiano, deslocando o foco coletivo da banda ou mesmo do cenário musical vigente para figuras individuais; 2) a consolidação do formato canção com refrões bombásticos, afetivamente imediatos, essas pílulas de prazer que são os hits; e 3) como consequência direta destes pontos anteriores, o desmantelamento progressivo dos setores de música erudita e experimental.  

Para dar corpo a essa ambição, dois dos maiores nomes que Davis formou são mais que representativos deste regime de personalismos e de refrões viscosos: seu troféu pessoal que foi Whitney Houston (“I Will Always Love You”) e o engomadinho Barry Manilow (“Mandy”). Em suma, querendo ou não, Davis foi um dos maiores reformistas do jeito que consumimos música na contemporaneidade, dando o pontapé inicial na trilha que vai do hit à trend.


Ouvinte Moderno, Ouvinte Contemporâneo

A engenhoca do hit não apenas transformou profundamente a produção musical, bem como produziu um novo tipo de ouvinte - no melhor estilo “você é o que você ouve”. Como consequência imediata, este ouvinte irá transferir o seu interesse da proposta sônica de um álbum para os singles, faixas individuais destacadas estrategicamente para promover artistas e bandas. A canção é música, o single com intenções “hittificadas” virou negócio. 

Alarmismos à parte, desde a consolidação da música popular o decalque promocional de determinadas faixas nunca foi incomum ou artisticamente mal-visto. O que passa a ser extraordinário, contudo, é o inchaço progressivo desse artifício, a ponto do álbum perder relevância e do artista médio concentrar seus esforços em produtos cada vez mais pontuais e instantaneamente eficazes. Projetos de maior envergadura, duração ou ambição estética tornam-se secundários diante da necessidade de captar atenção rápida e recorrente.

Sendo assim, o artista passa a ser incentivado a conquistar seu séquito sobretudo através de um par ou trio de faixas cuidadosamente curadas, via de regra orientadas pelos interesses das gravadoras, dos mecanismos de financiamento e, contemporaneamente, dos algoritmos de distribuição. Não é de se surpreender que, nos dias de hoje, 90% do lucro da indústria fonográfica venha de 10% das canções, levando o formato do álbum a esvaziar-se, ou melhor, a encher-se de enchimentos vazios, de fillers.   

Este fenômeno, que podemos chamar de miniaturização da experiência musical, irá se comportar como uma linha ascendente, indo do início da atividade de Davis até os dias atuais. Progressivamente a célula musical se reduz, enquanto o hook (vulgarmente, a “parte que interessa”, que desperta o prazer) anaboliza-se de modo inversamente proporcional. O refrão engole a canção, a canção engole o álbum, e, com isso, a experiência da obra de um artista tende a se enfraquecer.  

Apesar do par hit/single seguir como estratégia ativa da indústria, a próxima etapa da miniaturização musical já exige por nomenclaturas mais atuais. Essa nova configuração irá se definir pelo tratamento da música nas redes sociais, notavelmente no Tik Tok e Instagram. Enquanto que o single ainda tem estrutura de canção, contando com todo um preparo (tensão) até culminar no gozo do refrão (resolução/relaxamento), o que percebemos enquanto tendência de consumo e tratamento da música é a cultura do excerto - que vou apelidar de cut & trend, expressão que demonstra sua afiliação clara ao território dos cortes, da viralização, dos memes, da circulação fragmentária da imagem e da hiperaceleração do consumo sensorial. 

Nunca é demais lembrar da facilidade que é hoje em dia extrair de cada música o seu pedaço-de-céu. O que antes era atingido com a manipulação imprecisa da agulha do toca disco, ou com a mecânica truncada do botão de rewind, no caso dos CDs, na era do streaming qualquer resgate está confiado a um rápido deslize de dedo. Todo mundo já se pegou “pulando” a música para se deleitar apenas com “aquela” parte. 

O que dizer então dos produtores musicais e sua sofisticada tecnologia de manipulação sonora? A malandragem de recortar os excertos musicalmente mais obscenos ganha cada vez mais respaldo mercadológico, a ponto de muitas composições serem construídas a partir de um pico, e não de uma base. Drake e Lil Nas X vêm imediatamente à mente, especialmente em faixas como “Hotline Bling” e “Old Town Road”, concebidas já sob a lógica do corte viral. 

COWBOY CARTER (2024), de Beyoncé, mal tinha sido lançado e, em menos de uma semana, já tinha muita gente enfastiada com o excesso de repetições do mesmo trecho de “TEXAS HOLD’EM” nas redes sociais. “Married Life”, melodiazinha simpática característica da trilha sonora do filme Up (2009), da Pixar, também se transfigurou em outra faixa massacrante, configurando quase uma onipresença em vídeos curtos de pets e lifestyle.

Claro, até o fast food mais saboroso enjoa com o tempo e com a repetição. A indústria, contudo, mostra-se suficientemente ardilosa para providenciar uma fila infinita de substitutos apenas ligeiramente distintos entre si, just enough. Fluxo dopamínico, scroll infinito, compulsão nas telas… eis que retornamos de forma indubitável à nossa temática e ponto de partida que é o vício. 


Fugir do Prazer, Reencontrar o Prazer

Não está propriamente incorreto derivar deste breve percurso uma postura de desconfiança em relação ao prazer na música, especialmente em se tratando daquelas canções algoritmicamente “curadas”, “somente para você”, pelo infatigável serviço de streaming de sua preferência. Sagaz, mesmo que se escute faixas progressivas, experimentais, musicalmente interessantes e produzidas a parte da lógica do consumo, o algoritmo irá propô-las à exaustão, cristalizando-as em playlists e inibindo o ímpeto exploratório - também isso segue a lógica da captura do ouvinte pelo prazer, não? 

Mesmo que a resposta rápida fosse tentar escapar disso tudo, seria insano propor uma fuga radical ao prazer, e mesmo ao bem dosado vício que toda forma de arte carrega consigo. O problema não está no prazer musical em si, mas na redução da escuta a circuitos previsíveis e anestesiantes. O que se deve preservar é certo distanciamento crítico, aquele pé atrás quando se estiver ouvindo “sempre a mesma coisa” há um bom tempo.

No fim das contas, o oposto do prazer nunca foi cinismo, inércia ou recusa, antes apenas o senso de que precisamos reencontrá-lo. Existem gêneros musicais que sabotam a entrega mercadologicamente simplista do prazer (Vaporwave); há gêneros que o ironizam (Hypnagogic Pop), gêneros que o desaceleram (Shoegaze), gêneros que o expandem (Spiritual Jazz), gêneros que o anabolizam (Hyperpop) e gêneros que o desertificam (Minimalismo/Drone) - sobre estes, falamos na sequência.

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Ebony @ Opinião - 09/05