Ebony @ Opinião - 09/05
ela quer tudo
Apresentando a Turnê de KM2 De Luxo, a rapper carioca ostenta versatilidade enquando se estabelece no cânone do hiphop brasileiro.
Não acho exagero dizer que Ebony já é marca registrada. Digo isso para além do sentido mercadológico-expositivo que todos os artistas se subjugam, mas pensando em como ela encarna uma postura que tem presença. Em um ecossistema cultural pautado pela difusão da imagem, a cantora não foge do jogo mas, ao menos, utiliza dele para manifestar a própria voz e ecoar outras que a atravessam. Para além de entretenimento, a apresentação por si só já significa uma mudança que vem sendo elaborada há anos pelos movimentos feministas e que ganha tanta repercussão que parece quase não dito. Menos no sentido de falta de expressividade, mais em conseguir elaborar de maneira tão convincente temas como a liberdade sexual feminina que sequer parece uma tentativa de manifesto. É tudo vivência.
Carisma, inteligência, reconhecimento. Existe uma geração de rappers femininas que ganhou notoriedade nos últimos anos — AJULIACOSTA, Nanda Tsunami, Buda, Slipmami, Duquesa e Tasha & Tracie. Ebony engole todas.
Isso sem falar no fato do lado masculino do hip-hop aparentar estagnado há a algum tempo. Com temáticas e sonoridades repetidas à exaustão. Raros são os exemplos que ainda trazem autenticidade para o cenário mainstream. Por tratar de temas como a violência cotidiana e sem uma postura de desilusão com o mundo, Ebony se encaminha, com sua geração de mulheres, para ser a porta-voz das mudanças que precisamos. Se vivemos em tempos de masculinidades em crise, de uma indefinição do papel do masculino no mundo contemporâneo, que as líderes sejam elas.
Em Porto Alegre, a apresentação provou a capacidade articulatória de Ebony com distintas faixas etárias, que atribuo à impecável capacidade oratória da artista. Além de dominar as interações entre canções, com o público e com as Ebonytas (as dançarinas que acompanham o show), a carioca de 26 anos coordena um flow próprio instantaneamente reconhecível.
Mesmo sendo a apresentação do disco KM2 De Luxo, momentos de canções como 100 Mili e Pensamentos Intrusivos, do álbum anterior Terapia, foram celebrados efusivamente. Voltando ao assunto principal da turnê, o que empolga na apresentação é ver como a artista transita entre diferentes formas de fazer o hip-hop, em diferentes gêneros. Em cover de samba, como Pra Ver Você Sambar de Alligatorz ou na apresentação do funk de Carlos do Complexo, SXO, marcando o gênero que permeia todo o show. As quebras são bem amarradas trazendo ao show uma dinâmica que surpreende ao não reproduzir apenas as músicas do álbum-título da turnê.
A alternância entre músicas de tom mais descontraído e sensual como Gin Com Suco de Laranja, outras de caráter crítico como a diss Espero Que Entendam e, ainda, canções instrospectivas como Não Lembro da Minha Infância, mostram as camadas da obra e da própria artista. Além disso, hits como KIA, Paranoia e o fechamento Extraordinária provaram que as marcas de Ebony vão durar por anos.
A apresentação termina antes da vontade de encerrar. Haviam outras apresentações na noite do Opinião e o bis sequer pôde ser requisitado. Não por isso, e sim pela artista que me surpreendeu, seja pelas camadas do show ou pela sua atitude que inspira tanto no fazer artístico quanto político, a vontade que fica é de ver cada vez melhor e em mais ocasiões esse talento. Ela é extraordinária.