hypertroço @ Opinião - 03/05
Quando eu comecei a tocar, lá por 2018, parecia completamente inalcançável viver algo como o que está acontecendo agora em Porto Alegre.
O palco do Opinião era território quase exclusivo de artistas de nível nacional, internacional ou, no mínimo, nomes regionais já consagrados. Dito isso, domingo passado uma banda de Canoas que lançou seu primeiríssimo single há menos de 6 meses fez sua estreia ali. Insira Aqui abriu o festival Hypertroço levando alguns jovens a acordar mais cedo pra bater cabeça às 16h30 de um familiar e ressacoso domingo.
Hoje em dia conheço vários amigos cada vez mais próximos de viver de música, seja tocando, produzindo ou circulando com seus projetos. Bandas estão ocupando espaços que antes eram distantes e até organizando turnês fora do estado, algo que pra um grupo de músicos independentes era difícil imaginar cinco anos atrás.
Nessa toada, penso que talvez seja o melhor momento pra se ter uma banda no Brasil em um bom tempo. Conversando informalmente com Carlinhos Carneiro, vocalista da Bidê ou Balde e um dos organizadores do festival junto da Mochilinha Produções, ouvi dele como esse momento que estamos vivendo agora é o mais próximo, em termos de relevância e oportunidades, ao boom do rock gaúcho nos anos 80. Muito disso passa por iniciativas como essa e pela atenção dos produtores a projetos emergentes.
O festival Hypertroço reuniu seis bandas em sets mais curtos, de cerca de 45 minutos cada. Esse formato de vários shows mais curtos tem duas vantagens: primeiro, como tem várias trocas de palco, são mais oportunidades de ir ao fumódromo, que são mais oportunidades de encontrar seus amigos e comentar sobre os shows. O fumódromo vira quase uma extensão de nós mesmos, um ponto de convivência onde a cena se materializa em sua forma mais elementar. E talvez uma das melhores partes desse corre todo seja justamente poder ser amigo e estar perto de gente que se admira. Então se a cena musical são os amigos que fazemos pelo caminho, ir ao fumódromo definitivamente é apoiar a cena.
A outra vantagem desse tipo de festival é a possibilidade de descobrir bandas novas. Foi o caso da catarinense Tapete Tapete, que fez um dos shows mais interessantes da tarde. Antes de começar, mencionei pra um amigo que quando tem um computador no palco, normalmente o show vai ser insano, e realmente foi.
Além de conhecer mais uma banda maneira para o meu repertório, esse intercâmbio de atos me faz acreditar que está se construindo algo muito especial na cena do rock alternativo do Brasil. Porto Alegre tem entrado com mais frequência em rotas de artistias independentes, ao mesmo tempo em que bandas daqui também estão começando a ocupar outros estados. No próprio line-up, além da Tapete Tapete, estavam Jonabug (Marília/SP) e Cidade Dormitório (Aracaju/SE).
Ademais, gostei bastante dos 3 shows seguintes. A Supervão eu já tinha visto algumas vezes e escutei bastante o álbum deles Amores e Vícios da Geração Nostalgia, que possui muito boas composições. Destaque para a participação energética do Carlinhos, que mostra como ele consegue atravessar gerações com o característico bom e velho rock gaúcho.
O quarto show foi da Jonabug, estreando em Porto Alegre. Apesar de já ter visto eles em Santos, na época as músicas eram todas (ou quase todas) em inglês, não me chamando a atenção. Porém, desta vez, a expectativa era crescente para vê-los, muito pelo fato de terem tocado nessa última edição do Lollapalooza, o que merece reconhecimento. Mesmo cansados da turnê, a energia no palco foi contagiante e coordenada, com momentos mais introspectivos clássicos do shoegaze, e momentos mais agitados do emo/hardcore, o que é uma mistura bem mais interessante do que só um ou outro.
Sobre o show da Quem É Você Alice?, o ato é conhecido em Porto Alegre, mas ainda me chama atenção a forma como eles se conectam com o público, em especial o mais jovem. Nesse segundo contato com a fase atual, a banda parece mais segura e à vontade, equilibrando bem o material novo com os hits do álbum anterior.
Agora como nem tudo são flores, vencido pelo cansaço, não consegui aproveitar como gostaria a apresentação da Cidade Dormitório. Cinco shows e cinco chopps depois, o peso das pernas se tornou insustentável. Acredito que a parcela do público que chegou mais tarde no festival não sofreu tanto e dava pra ver que tinha um bom número de pessoas curtindo o show ali. É o tipo de troca inevitável nesse formato.
Quando os shows terminaram, saímos pra comer um merecido pastel pelas redondezas. Sentado ali, cercado de gente de diferentes bandas e projetos, fiquei pensando no que exatamente aquele festival tinha construído.
Não foi necessariamente um dia marcante por performances individuais, mas mesmo assim, por algum motivo, me fez sentir que algo muito bom estava acontecendo. A verdade é que a coisa mais interessante sobre aquele evento é a própria cena. Arrisco dizer que a coisa mais interessante de qualquer show independente é a própria cena, o próprio contexto do que está acontecendo dentro desse meio ambiente.
É muito bom poder ver meus amigos fazendo música e construindo uma carreira em torno disso. Acompanhar os lançamentos, ir nos shows e ver que tudo isso está sendo construído em cima de uma coletividade, em que as bandas de fato são em sua grande maioria amigas e fãs uma das outras.
E, nesse sentido, talvez o que esteja em jogo não seja a música em si, mas a consolidação de um ecossistema. Uma rede ainda instável, com várias limitações, mas que começa a demonstrar consistência. Que deixa de operar no campo da promessa e que agora ensaia formas mais concretas de existir. Por mais que ainda tenham várias coisas que não funcionam muito bem, já dá pra ver uma grande evolução no fazer musical autoral de Porto Alegre. Nesse cenário fazer parte disso, de qualquer forma que seja, tem sido bom demais.