Crítica | João Gomes, Mestrinho & Jota.pê (ÀVUÀ) - Dominguinho vol.2
da varanda para o palco
Menos do aconchego contemplativo que marca o primeiro disco e mais calor de palco, luz acesa e corpo em movimento.
Dominguinho - Volume 2 (2026) chega com clima de entardecer. Se no volume de estreia o projeto parecia repousar na doçura de uma manhã de domingo quase doméstica, agora João Gomes, Jota Pê e Mestrinho avançam com mais pulsação, mais festa e uma energia pensada para ser dividida entre palco e plateia - o que não chega a ser um problema, só muda a temperatura.
Logo na abertura, Deusa Minha já anuncia esse segundo ato com um brilho mais aceso. A primeira frase entoada, “Quem dera eu fosse o Sol”, já deixa claro que este é um disco interessado em irradiar calor de outro jeito. A faixa entra como um fim de tarde bonito, mais acelerado que a abertura do álbum anterior, e já resume a principal força do trio: a distribuição tão bem desenhada das vozes. João, Jota Pê e Mestrinho se revezam com naturalidade, misturando sotaques, tonalidades e maneiras diferentes de sentir sem que ninguém tente ocupar o espaço do outro. Há ali uma síntese muito bonita do que a música brasileira consegue ser quando não precisa se explicar demais.
Verão Sem Calor, por outro lado, faz o álbum reencontrar a delicadeza do álbum de estreia. Um xote lento, macio, com clima de amanhecer de domingo e espaço de sobra para a sanfona respirar. É uma das faixas em que o disco encontra mais ternura e mais fôlego. As vozes surgem aveludadas, quase como se o trio estivesse menos preocupado em impressionar e mais interessado em embalar. Existe algo de canção de ninar ali, uma doçura sutil que relembra exatamente de onde esse projeto nasceu. “Esse é o Dominguinho”, grita Mestrinho ao final. E talvez seja justamente nessa faixa que o álbum mais se aproxime da essência contemplativa do volume anterior.
Mas o segundo disco deixa claro que prefere caminhar rumo à celebração. Ligação Estranha devolve tudo para a noite. A sanfona vem mais marcada, o forró pisa firme no chão e a música ganha uma energia que vai além do simples “dois pra cá, dois pra lá”. João Gomes aparece ainda mais à vontade, reforçando que seu carisma ultrapassa muito a timidez vocal que virou marca registrada. Jota Pê e Mestrinho também parecem mais livres, mais aquecidos, como quem já entende perfeitamente o tamanho do próprio palco.
Essa lógica continua em Lembra, que já nasce com cara de refrão devolvido em uníssono por uma multidão na próxima turnê. Existe um equilíbrio muito bonito entre o dançante e o “gostosinho de ouvir”, entre o impulso do corpo e o conforto da melodia. A canção, que já era de João Gomes, ganha aqui uma roupagem ainda mais doce e convidativa. Já Sábado à Noite mantém essa energia sentimental em clima de sofrência pop, conversando naturalmente com o universo de Xande Avião sem perder a identidade do trio.
Há, no entanto, algo especialmente bonito em Dois Mundos. A faixa ganha força não só pelo romantismo, mas pelo que simboliza dentro do próprio projeto. “Vivemos mundos diferentes”, cantam, e a metáfora parece encaixar perfeitamente na união desses três artistas vindos de trajetórias e universos musicais tão distintos. Mestrinho flutua com sua voz e sua sanfona e, quando alcança os céus da faixa, puxa João Gomes e Jota Pê junto nesse forró apaixonado. Talvez a grande graça de Dominguinho esteja justamente aí: num encontro improvável que deu certo porque foi feito com verdade e afeto.
Meu Cenário mergulha de vez no arrasta-pé romântico e sublinha a verdadeira alma desse projeto. Quando engata em “Sala de Reboco”, de Luiz Gonzaga, o disco deixa explícita sua reverência ao cancioneiro nordestino. Há brincadeira, há carisma e há aquela ambiência gostosa de show em que os três parecem genuinamente se divertir cantando referências que claramente fazem parte de quem eles são. A Vida é Você, com Flávio José, puxa o clima para algo mais próximo de um fim de festa. Um xote doce, carismático e acolhedor que faz falta em maior quantidade neste novo projeto.
Já Filho do Dono quebra parcialmente o conforto do disco. Mais sofisticada, sombria e séria, a faixa traz o único toque mais amargo do álbum. Versos sobre desigualdade, destruição e injustiça social reforçam como seguimos presos às mesmas dores de décadas atrás.
O disco também sabe olhar para trás sem soar preso ao passado. Onde Está Você concretiza o encontro entre Dominguinho e Dominguinhos, numa homenagem delicada sobre legado, continuidade e renovação. Passado e presente caminham juntos sem que nenhum dos dois precise diminuir o outro. Nesse mesmo espírito, vem a surpreendente releitura de As Quatro Estações, de Sandy e Junior, reforçando a inteligência popular do repertório escolhido. Um acerto certeiro ao revisitar uma música que atravessa a memória afetiva de muita gente que hoje forma justamente o público do trio.
Já Se Ela Dança, Eu Danço, sucesso de MC Leozinho, reforça ainda mais esse diálogo com os anos 2000, trazendo leveza, carisma e um espírito quase inevitavelmente nostálgico para dentro do álbum. São escolhas que ajudam a aproximar gerações diferentes através de refrões já sedimentados no imaginário popular. E talvez esteja aí uma das maiores habilidades do Dominguinho: fazer homenagem sem transformar memória em peça de museu.
Se há um ponto em que Dominguinho - Volume 2 provoca certa inquietação, é na sensação de que faltou um pouco mais de ousadia autoral. O excesso de releituras funciona, sim, como homenagem generosa à música brasileira, principalmente nordestina, colocando essas canções novamente em evidência através de interpretações muito caprichadas. Mas também deixa no ar a vontade de ouvir mais inéditas, mais passos próprios, mais sinais claros do amadurecimento criativo dessa fusão tão especial entre os três artistas. O álbum se apoia bastante no carisma, na energia de palco e no repertório conhecido, o que pode agradar muito quem busca justamente esse clima mais festivo e coletivo, mas também causa uma pequena saudade daquela espontaneidade mais íntima e solar que o primeiro volume parecia prometer com mais fôlego.
No fim, Dominguinho - Volume 2 confirma que o trio encontrou um caminho muito próprio, mesmo quando escolhe andar por trilhas já conhecidas. Há menos manhã de domingo e mais noite acesa, menos contemplação e mais festa compartilhada. Isso talvez frustre quem esperava um mergulho maior em inéditas e delicadezas mais autorais, mas amplia o alcance do projeto como celebração de uma música brasileira que sabe ser popular sem perder sua beleza. O clima continua quente, talvez um pouco mais fresco que no álbum original, mas ainda com potência suficiente para aquecer qualquer dia. E não é pouca coisa um disco conseguir fazer isso sem precisar forçar a barra, apenas deixando a música respirar entre memórias, sotaques e afetos.