Crítica | Belle Toujours (2006)

UM CORPO QUE (NÃO) VOLTA

 
 

Obra prima de Manoel de Oliveira é rememoração de obra prima de Buñuel


Existe todo tipo de arte em Belle Toujours, sequência tão tardia de Bela da Tarde (1967), que chega a ser mais uma rememoração que, devidamente, uma sequência. Mais uma exumação artística do que uma revisita a um universo enterrado junto com seu cineasta. Um universo de fantasias e de vulgaridades, de observações subcutâneas sobre a charmosa burguesia a qual Buñuel desvelou como nenhum outro.

Séverine, lembremos, era uma jovem esposa apaixonada por seu marido mas incapaz de consumar o casamento, se restringindo às fantasias onde era dominada e humilhada por parceiros imaginários. Os dois dormiam em camas separadas, prática comum à época, mas que, com Buñuel, parecia fazer a distância entre os dois ser mais vasta que o pacífico. Interpretada por Catherine Deneuve e seu olhar de infindável tristeza, que resiste mesmo ao mais alegre dos filmes (Duas Garotas Românticas, 1968), Séverine sonhava não apenas com atravessar este mar, mas se afogar nele. Quando passa a se prostituir no bordel, onde recebe o apelido que dá título ao filme, os adornos artísticos de sua vida semi-burguesa se reduzem ao decor de um apartamento colorido e bem iluminado, onde tudo de pornográfico acontece às claras.

Ao final do filme Buñuel deixa pairar uma dúvida que seguiu até após sua morte: na cena final, Henri (interpretado por Michel Piccoli) conta ao marido de Séverine (inválido após ser atacado pelo amante da esposa) a verdade sobre ela? A cena que se segue parece mais uma das fantasias de Séverine, que nunca é revelada como tal, onde o marido se recupera e os dois seguem sua vida normalmente.


É a partir dessa incerteza, ou, sejamos oportunistas, desse princípio de incerteza, que nasce o filme conjurado por Manoel de Oliveira no auge de seus 98 anos de idade (ele filmaria até 2012, faça as contas). Oliveira tinha 59 anos em 1967, o que resulta em um processo mais do que especial em Belle Toujours, um projeto de reverência, mas uma que é realizada a partir da inocência adquirida apenas pela mais plena das maturidades.

Em uma cena, duas garotas de programa olham para Michel Piccoli, que reprisa seu malicioso papel de 40 anos atrás com uma comovente ciência de sua recente fragilidade, conforme este conta sua história ao jovem garçom. A mais velha prefere o mais jovem. A mais jovem prefere o mais velho. Talvez, com o tempo, a sabedoria seja preterida pela matéria, ecoariam Oliveira, Piccoli e Buñuel, julgo eu.

É este processo que parece estar em voga na sutura de um filme que sugere que a beleza não acaba. Filme o qual Piccoli inicia como um elemento indistinguível na plateia de uma orquestra, onde ele acredita ter visto uma mulher idêntica a Séverine, com a adição de todos os anos que se passaram desde a última vez que a viu. Mas não é um fantasma, não é Madeleine. É Séverine.

Mas Séverine não é mais Séverine. Catherine Deneuve (que havia trabalhado com Oliveira no sublime Um Filme Falado, 2000), descontente com suas próprias memórias do set com Buñuel, opta por não reprisar seu papel, que fica com Bulle Ogier. Duas atrizes que representam a mesma personagem: a sequência que, ao se juntar ao original, formaliza a refilmagem espiritual de outro filme de Buñuel. Em Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977), o último de Buñuel, duas atrizes interpretam a mesma personagem. Não há explicação ou motivo narrativo, exceto que suas aparições são todas em flashback, seguindo as memórias do homem por ela(s) enfeitiçado. Estaria o narrador se esquecendo da imagem da mulher que marcou sua vida?

***

Piccoli constantemente admira uma estátua de Joana d’Arc, como se a cada novo olhar parecesse detectar algo, como seu jovial sorriso sugere. Como se a estátua fosse a ele contar alguma coisa. Mas quem quer saber qualquer coisa não é Piccoli, que vai atrás de Séverine, mas a própria, que teve de viver com a dúvida da ciência de seu marido sobre sua vida dupla. Em um plano mais do que moderno, até além do pós-moderno, Henri finalmente encontra Séverine nas ruas, e a convence a jantar com ele. Não ouvimos nada da conversa, os vemos à distância.

À seguir, neste curto filme que compreende a longura de tantas vidas e os séculos que ergueram as estruturas que vemos pela janela, Henri e Séverine sentam frente a frente, com Paris ao fundo. Os dois comem e interagem com parcimônia, até que chegam no motivo de ela ter aceitado o jantar, que termina sem qualquer conclusão. As luzes do cômodo se apagam, e os prédios na rua se transformam com as luzes da rua. Após Séverine romper e deixar Henri sozinho com seu sorriso que parece torná-lo uma criança travessa, vemos um galo cruzar o corredor - um mero detalhe em um grande canvas que remete à Buñuel e suas inexplicáveis idiossincrasias.

Seria esta sequência um grande sonho de Piccoli, encantado pela memória elusiva de Severine?

Se sim, Belle Toujours seria também o último filme surrealista. Um filme que perfura a história do cinema pelo vigor de um cineasta que trabalharia adentro dos seus 100 anos de idade, e que em seu último filme usaria do digital para dar vida ao analógico. Aqui ele é mais econômico: usa uma atriz para dar vida a outra.

Toda uma gama se abre com essa simples decisão de seguir em frente com um filme que depende tanto de uma atriz. Que este filme seja uma obra prima que se inclina em direção ao sublime é o atestado de que Manoel de Oliveira parece torcer a história imanente do cinema como poucos. Que este filme seja ainda apenas uma sombra do que poderia, caso Deneuve aceitasse reprisar Séverine, é um dos grandes atestados, se não o maior, que o cinema é a mais frágil das artes no que tange seu processo de concepção. Uma arte refém de uma matéria tão específica que existe apenas uma dela. E a matéria, como a memória, se esvai com o tempo.

Por isso a eternizamos, a memória, com histórias, canções, esculturas, pinturas e, por mais recente, com filmes. Todos estes - as línguas, os mármores, as tintas, o celuloide - perecem, se modificam, necessitam restauração. O digital, como Oliveira responde em O Estranho Caso de Angélica (2010), parece ser o trunfo da sétima arte, uma possibilidade de eternização que resiste ao tempo. A resposta de um anseio que, só nos últimos 20 anos pôde ser suprimido.

Mas a que custo.

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