Tim Bernardes @ Araújo Vianna - 07/05

Nascer, viver, morrer

Crédito: @enzo_hofmann

3, 6 & 9.


3, 6, 9: Foram o número de vezes que chorei, arrepiei todos os pelos do corpo e perdi as palavras, respectivamente.

Há algo de profundamente humano na maneira como Tim Bernardes compõe. Algo ingênuo e urgente, que não permite o filtro da racionalidade entre o coração e a mão que segura a caneta. Não há malabarismos, figuras de linguagem ou qualquer esmero aparente que busque algo além da literalidade daquilo que foi sentido, dessa forma abrindo espaço para nós, seres do cotidiano com coisas de mais e tempo de menos pra transformar nossas agonias e alegrias em versos. Tudo que ele escreve é nosso também.

Como já citei em outro texto musical, escrever simples é um gesto difícil, justamente porque exige não se esconder atrás da linguagem. É colocar a vida à frente do pensamento, e, como ele mesmo canta em Incalculável (Recomeçar), o pensamento prende, o pensamento não é bom. Há algo profundamente admirável no fato de que seu show, na noite de quinta-feira no Auditório Araújo Vianna, tenha refletido exatamente essa liberdade oriunda da simplicidade..

Eram poucas as preocupações no palco: um violão, uma guitarra, um piano e um banco obrigatoriamente mais alto que o normal, permitindo conforto ao cantautor e deixando à mostra suas meias compridas, quando a barra da calça subia quase até os joelhos enquanto estava sentado. Duas luzes posicionadas na parte de trás do palco projetavam sua sombra em nossa direção e, atrás delas, um grande pano de fundo assumia lentamente as cores dos álbuns aos quais cada canção pertencia.

“Nascer, nascer outra vez bem no meio da vida.”

Tim anunciou sua presença e um silêncio quase ecumênico tomou o auditório. Não por desconhecimento, lógico - me custa acreditar que todos ali não soubessem de cor quase todas as canções - mas porque o respeito e a comoção pareciam, naquele momento, maior do que o impulso egóico de cantar por cantar, como quem repete algo apenas por memória muscular.

Crédito: @enzo_hofmann

A partir dali, o espetáculo passou a se mover como uma conversa entre amigos que dispensa qualquer direção pré-arranjada. Tim Bernardes atravessou sua setlist, vez ou outra, com canções do primeiro disco solo Recomeçar e do repertório do Terno (Quis Mudar, Ela e Volta), reconhecendo a importância desses trabalhos anteriores e a maneira como todos parecem desembocar no encerramento de ciclo de Mil Coisas Invisíveis e desse Tim que parte também.

O acompanhamento de apenas um instrumento por canção, executado com a excelência já conhecida do artista, perpetuou uma atmosfera de exposição mútua entre nós e ele. A simplificação dos arranjos ofereceu às músicas uma vulnerabilidade quase desconfortável de tão honesta. Tudo soava direto e próximo demais. Por quase 2 horas, o templo musical porto-alegrense abandonou a formalidade de uma casa de espetáculos para se transformar numa sala compartilhada entre desconhecidos que contribuíam apenas com lágrimas tímidas e sussurros involuntários de um verso ou outro.

Entre as músicas, falou sobre Porto Alegre com uma intimidade surpreendente. Compartilhou histórias dispersas de seu passado, pequenas lembranças, e uma anedota particularmente engraçada de sua menoridade envolvendo um show da Cachorro Grande e uma colega ensanguentada atingida por um microfone na testa.

Como se não bastasse a devastação emocional provocada por Última Vez e Velha Amiga, atravessando os melancólicos assumidos presentes no auditório com o peso de cartas nunca enviadas, que permanecem guardadas - mas jamais esquecidas - na primeira gaveta, ainda encontrou espaço pra uma linda releitura de Eu e Minha Ex, de Júpiter Maçã.

Perto do fim, a Balada de Tim Bernardes proporcionou às vozes tímidas o encontro com a necessidade de se libertarem pela primeira vez de maneira clara. “Vai, meu filho, encontra um jeito / De ser aqui mesmo o que você sonhar”. Seu violão como mensageiro e ele como porta voz da simplicidade esporádica da vida trouxeram catarse e esperança: “E por que não cantar?”

Não é tão simples, mas naquele momento pareceu.

E então, nos momentos finais do bis, o Araújo Vianna ficou sem luz, quase como uma intervenção divina ou o encerramento inevitável de um ciclo. Tim Bernardes, de maneira completamente natural, ainda tentou continuar a canção sem qualquer equipamento funcionando, como quem posterga um fim pela última vez. Contudo, suas palavras eram inaudíveis e, inevitavelmente, o show morreu sem nenhum controle dele sobre isso. Coisas que passam.

A morte de Mil Coisas Invisíveis foi aplaudida de pé, sob a expectativa do nascimento de um novo ele, outra vez, bem no meio da vida.

Fotos por Enzo Hofmann

Pietro Stefani

Advogado predisposto a fazer tudo menos advogar e quando faz é ouvindo música no processo. Demasiadamente extrovertido e fã exagerado de muitas coisas.

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