Crítica | 60 anos de: Blonde On Blonde (1966) - Bob Dylan
SONHO FEBRIL
Em ritmo de produção tão intenso, imagens e sons, em palavras, formam um turbilhão que busca em doze compassos fazer sentido.
Sétimo álbum de estúdio em quatro anos: a imagem borrada da capa do disco resume como uma mente em constante movimento pode ter dificuldade em definir precisamente o que e como as coisas são. Para Dylan, elas sempre foram sua indefinição. A lírica metafórica, verborrágica e prolixa se manifesta nas letras como essa construção de uma imagem imprecisa e simultaneamente magnética.
Em um ano de 1966 — no qual veríamos em poucos meses a morte de André Breton, para o surrealismo estético dar lugar ao florescimento da psicodelia que viria a marcar os anos 1970, Blonde On Blonde (BOB) não teria como escapar das influências que o cercam. Ligeiramente menos eletrificado que nos álbuns anteriores, Highway 61 e Bringing It All Back Home, nesse trabalho o contraste entre alerta e inércia se manifesta como em sonho: algumas vezes latente e outras, como a gaita aguda, inescapáveis e esmagadoras.
Sempre sendo um contestador e um ano após ser apedrejado pelo episódio da guitarra elétrica em Newport, Dylan lança o projeto que consegue equilibrar o mainstream com sua identidade. Nos primeiros três discos foi visto como um cantor de tradição, com suas pautas bem definidas, e depois como um trovador excêntrico alinhado ao rock n’ roll. BOB, ao escolher o blues como principal traço sonoro, alia as duas vertentes anteriores.
Embriagado, libidinoso, apaixonado e desesperado. Esse é um disco de excessos e as músicas de abertura e conclusão comprovam isso: Rainy Day Women #12 & 35 e Sad-Eyed Lady of the Lowlands, respectivamente, pela euforia demasiada e pela repetição incessante. Das madrugadas perdidas entre copos e discursos emocionados nasce essa obra-prima.
Habitando o previsto e a surpresa, cada faixa nos faz viajar para uma narrativa diferente, nas quais é difícil traçar um fio condutor entre elas. Gravado ao vivo, o álbum duplo, em cada um de seus quatro lados, não conversa linearmente de canção em canção ao mesmo tempo que não prejudica a inteligibilidade sensorial. Por mais que muitas das músicas exijam um esforço imaginativo para a compreensão racional daquilo que se diz, a força da voz, dos instrumentos e das imagens que as letras evocam nos transportam diretamente para os cenários criados. Através de um narrador onisciente, habitamos o dentro e o fora dos personagens e situações, não porque nos tornamos Dylan, mas por que as narrativas são tão convincentes que poderiam ser nossas.
A música Rainy Day Women #12 & 35, caótica, é a alma do projeto. Assim como a abertura, Leopard-Skin Pill-Box Hat (lado B) e Obviously Five Believers (lado C), são músicas que se sobressaem pela intensidade e humor. Juntamente de Must Likely You Go Your Way (And I’ll Go Mine), são o que categorizei como músicas de bêbado: a primeira faixa, com a levada dos doze compassos que por si só rememora um bêbado caminhar unida à dor de cotovelo lírica; a segunda, o frenesi de quem ficou até o sol nascer bebendo e faz questão de acordar todo mundo por agora os raios de luz já tiraram qualquer possibilidade de se entregar ao sono. Como quem se mantém vigilante mesmo nos momentos sossego, qualquer coisa pode acontecer. É na espera que mora o terror e no terror que mora a beleza.
E falando em espera, Pledging My Time (lado A) faz a transição perfeita entre a música ébria e a apaixonada, talvez duas facetas de uma mesma pulsão, para desaguar no clássico Visions of Johanna (lado A). Seis décadas depois, a narrativa surreal ainda é um hino do amor. Entre a mulher ideal e a real e entre o mundo do vício e da sobriedade, duvidando de si, a calma que o instrumental tira da canção toda a ansiedade temática. Sem essa mediação, o desabafo seria impossível.
One of Us Must Know (Sooner or Later) fecha o lado A do primeiro disco manifestando o lado mitológico dilanesco ao aceitar o destino que lhe foi reservado. O refrão que poderia embalar multidões transforma a canção em um hino pop com gaita de boca, perfeito para tornar as despedidas menos dolorosas do que elas precisam ser.
"But, sooner or later, one of us must know
You just did what you’re supposed to do
Sooner or later, one of us must know
That I really did try to get close to you"
Em contraste, I Want You e Just Like a Woman (abertura e final do lado B) nos redireciona ao lado mais caracteristicamente romântico do projeto. I Want You, com órgão e guitarra ditando o tempo acelerado de um amor com pressa e Just Like a Woman com a intimidade de uma relação que parece que atravessa os séculos.
O lado C, de uma semi-valsa (Temporary Like Achilles) para dois blues enérgicos (Absolutely Sweet Marie e a já citada Obviously Five Believers) e uma faixa contemplativa (Fourth Time Around), parece um resumo muito compacto da experiência geral do álbum.
Como se a obra se encerrasse antes do final, o bis se apresenta no lado D únicamente dedicado a Sad-Eyed Lady of the Lowlands. Recém casado, Dylan compõe essa música para sua esposa Sarah durante a lua de mel no Chelsea Hotel. Onze minutos são curtos demais para dizer “te amo”.
São tantos elementos melódicos, literários e contextuais que somente uma colagem picotada - selecionando e, portanto, ignorando tantas partes - seria possível de realizar. Esse é um álbum, que como grandes obras literárias, exige uma vida inteira de estudo. Atravessado por todo contexto pessoal de Dylan e social da década de 1960, tudo é muito opaco. Em parte pela linguagem que não busca verdades, esse relato de experiência tão poético consegue criar no mundo uma realidade própria, que a difere os outros bêbados, apaixonados e melancólicos, no detalhe. Dylan nunca reinventou a roda, mas a conduz em um arranjo único.
Won’t you come with me, baby?
I’ll take you where you wanna go
And if it don’t work out
You’ll be the first to know
(Pledging My Time)