Crítica | Vince Staples - Cry Baby
Lugar na Prateleira
Em seu 7° álbum de estúdio, Vince Staples retrata mais do que argumenta, mostra ao invés de explicar, e questiona, através da sonoridade de Cry Baby, se seu rótulo de rapper vem só por ser negro.
O experimentalismo sempre esteve presente nos trabalhos de Vince Staples. Summertime ’06 e Big Fish Theory são dois dos álbuns que me acompanharam muito antes da virada da década, quando eu precisava de cafeína, mas ainda não tomava café. O segundo, independentemente do sucesso do primeiro, já deixava clara a necessidade de não ser apenas mais um na prateleira, reposta quase todos os dias, de rappers que versavam sobre a violência em seus logradouros, mixados por cima de um baixo que, se tocado em volume alto o suficiente, quebraria os vidros de um Kwid.
Como ato isolado, Vince Staples já possuía diversos elementos que, por si só, o sustentariam por muito tempo como alguém especial dentro da indústria. Seu flow, seu timbre, sua estética e, principalmente, suas composições - por vezes extra políticas, por outras ultra hedonistas - o colocavam em uma prateleira única. Em Big Fish Theory, incorporou música eletrônica de pista e, trabalhando com produtores como SOPHIE, Flume e Justin Vernon, já apontava para a desconstrução do próprio gênero. Ainda assim, o rótulo veio. O valor? O mesmo de qualquer outro café gourmet que enche as prateleiras do seu mercado local: R$ 32,90 para você ser a mesma coisa que todos os seus companheiros daquela seção, sob designs diferentes. A indústria decidiu que Vince Staples não seria Vince Staples. Seria um rapper.
Eis que nasce Cry Baby, em 2026 através de uma gravadora independente - grande notícia -, com Donald Trump bebê na capa, mais parecido com um porco do que com um humano e usando uma bandeira dos Estados Unidos como fralda. As baquetas contam até 4, uma guitarra fantasmagórica e circular surge e começa a te perseguir na primeira faixa do disco, Blackberry Marmalade: I got the hammer / I know it's polarizin' (You know) / I miss my nana / She used to tell me 'bout her, diz ele no primeiro verso. E continua: Blackberry marmalade and sweet tea, Beats the summer blaze, they say. Logo em seguida, o pós refrão repete a mesma frase inúmeras vezes: prometa que você não vai me matar a tiros.
A tentativa de auto-humanização constante, dele para com ele mesmo, encontra a desumanização intrínseca e estrutural de uma sociedade que sai às ruas em protesto para vestir uma bandeira mas que naquele mesmo dia, de manhã, atravessou a rua porque uma pessoa preta vinha caminhando em sua direção (And know that behind every smile, They thinkin' 'bout killin' you - Say it). Em Go! Go! Gorilla, o forte baixo que sintetiza muito algo que Tame Impala implacou no início da sua carreira, nos leva ao segundo refrão onde a repetição de palavras surge novamente quase como um desafio a ser cantada, desumanizando quem acha que sua música é apolítica. Usando uma melodia de uma torcida de time, ele ironiza a despersonalização dos negros: Gorila, gorila, vai vai, gorila / gorila, gorila, pega aquele gorila.
Em TV Guide, nada é o que parece diante de uma tela. Cada vez com mais controle sobre o que ver e, paradoxalmente, mais controlados por aquilo que se escolhe. Vince Staples consegue sempre manter o controle da temática principal, escondendo-a sob alguma alegoria ou representação de prazer, seja ele sensorial ou adjetivado. A guitarra pegajosa não esconde nossas intenções e desejos reprimidos: T-t-t-television, you turn me on. Ou então: Bravo, can't you see the thugs actin' macho? / Just like Marlon Brando, just like Al Pacino.
The Big Bad Wolf soa como uma das melhores músicas do A Tribe Called Quest e é um dos grandes destaques do álbum. Mais uma vez, um refrão escancara a violência e, por mais contagiante que seja - com o scratch cortando o refrão e o riff de guitarra empurrando a música para frente -, nunca deixa de provocar. Constantemente, durante os 35 minutos de gravação, te faz balançar a cabeça para algumas das piores coisas que uma pessoa negra pode atravessar dentro dos Estados Unidos. E você ai, se curtindo.
Por fim, o disco possui alguns peixes fora d'água. White Flag, Cotton (parece uma música do Macklemore, da pior maneira possível) e 7 in the Morning, além de tematicamente contraditórias, parecem colocadas ali por um motivo indecifrável, caso não seja pela mera experimentação. Ainda assim, o poder narrativo e sonoro do disco, quando funciona, é poderoso demais para ser ignorado. A geleia de framboesa não está à venda e não se encontra mais em qualquer lugar. Vince Staples conseguiu fugir, e agora faz o que quiser da sua liberdade criativa.
E este é um álbum de Rock.