Crítica | Sombras no paraíso (1986)
Luzes na escuridão
História de amor entre um diretor e seus personagens.
O coração de Sombras no Paraíso está em uma das graciosas cenas do casal principal. Nessa, o personagem interpretado por Matti Pelonpää leva Kati Outinen para casa e dá um beijo na bochecha dela.
O primeiro dos romances operários de Aki Kaurismäki é também o filme em que o diretor consolida grande parte do que é caracterizado como seu estilo. A história dos dois trabalhadores vivendo em uma Finlândia devastada pelo neoliberalismo mostra um lado do Diretor que ainda não conhecíamos: um romântico esperançoso, que vê o amor em um lugar onde qualquer um veria tragédia.
Essa talvez seja a primeira marca importante de Kaurismäkique se revela em Sombas no Paraíso: ele respeita muito seus personagens. Kati Outinen divide um apartamento com sua colega de trabalho onde há cores e um rádio para ouvir músicas. Ela é demitida, não engole sapo para seu gerente e vai embora do encontro com um homem que gosta porque ele a leva no bingo. Pelonpää dirige um caminhão de lixo, é preso ao brigar em um bar (os homens de Kaurismäki bebem muito), mas tem uma roupa guardada para sair com uma mulher, cozinha para ela mesmo sem saber cozinhar. A precarização econômica das suas vidas nunca é um motivo para o diretor os tratar como vítimas ou heróis, são dois apaixonados que vivem no mundo que vivem.
E é justamente nesse mundo de dificuldades - mas de muita dignidade (os personagens dos filmes anteriores do diretor eram indignos) - que duas pessoas podem se apaixonar. Aliás, o título carrega seu típico bom humor, quando os personagens estão na escuridão, e, a partir do momento que se apaixonam, se iluminam. Quando a gente ama o mundo melhora. E aí volto a cena que iniciei esse texto: o beijo na bochecha. O estilo do diretor costuma ser sóbrio não só no roteiro e nas atuações, mas também quando escolhe cortes secos que correspondem à maneira que o mundo lida com os personagens. Porém, no momento em que Pelonpää dá esse beijo em Kati Outinen e a câmera a filma em close, temos um fade out para a próxima cena.
É uma ocasião de puro carinho. Sentimos o calor de um beijo que não queremos deixar ir embora e o diretor, sempre muito generoso, faz de tudo para alongar esse momento tão belo. Nesse encontro de dois operários sem grandes expectativas, eles se apoiam e se ajudam, e quando se juntam podem pensar em um futuro melhor. O final, profundamente esperançoso - ainda que cômico -, embalado por uma das mais encantadoras trilhas de Kaurismäki, é, mais que tudo, uma ode ao se apaixonar.
Porque quando os dois se amam, se respeitam e se aceitam, eles podem ir para um lugar melhor.