Crítica | MADONNA - CONFESSIONS II
Honrando o título de rainha
Em seu décimo quinto álbum de estúdio, Madonna nos lembra do que faz dela uma força do pop ao longo de quatro décadas: ela é imbatível quando entende a missão.
“O amor é a coisa mais estranha. Quando você acha que ele finalmente o deixou, ele volta pra você.” — Madonna, em “Bizarre”.
Há muito pouco que se precise dizer para introduzir Madonna; ao mesmo tempo, há muito que se pode dizer e analisar sobre sua longeva e, francamente, irreplicável carreira.
Em 2005, lançou seu último álbum de estúdio que teve boa recepção generalizada: público, crítica, hits globais. Confessions on a Dance Floor é um ótimo álbum em 2026, assim como era à época de seu lançamento. Contudo, é um trabalho que sofre das restrições comuns da indústria musical da época: obrigatoriedade de ao menos dois singles feitos para a rádio, uma Madonna que, apesar de já ter se provado inúmeras vezes, aparenta, em alguns momentos, ter mais cautela no aspecto comercial, fazendo concessões em seu próprio desejo artístico, vez ou outra.
Dali para frente, temos o quarteto de discos mais controversos de sua carreira. Hard Candy, um álbum com ótimos momentos, mas que sofre do início de uma crise artística que se agravaria nos discos subsequentes: a crise de uma carinha que começa a temer por seu próprio reinado. Insegura, permite que influências externas se intrometam em suas escolhas. Esta mesma crise, acredito eu, motivou a vontade de encerrar seu contrato com a Warner Bros., gravadora onde esteve desde o início de sua carreira, e assinar com a Live Nation. O período gerou três álbuns de estúdio. Dois deles, Rebel Heart e MDNA, não são trabalhos terríveis, mas não chegam perto da qualidade que costumamos esperar de Madonna. São discos que parecem emular o que deveria ser um álbum de Madonna no escopo contemporâneo. Em Madame X há o que se assemelha ao início de um retorno da artista às rédeas de seu processo criativo, tanto internamente quanto frente às eventuais pressões da gravadora. De forma muito similar a No Shame de Lily Allen ou Invincible de Michael Jackson, porém, é uma correção de rota exagerada; na tentativa de retornar ao âmago de sua verdade artística, faz coisa demais, produz demais, se edita de menos.
Sete anos separam Madame X e CONFESSIONS II. Entre eles, uma pandemia, uma infecção bacteriana que quase a sepultou e uma turnê de celebração de 40 anos de carreira, no espaço de menos de um ano.
Francamente, a crítica poderia parar por aí. Madonna já provou a qualidade de seu trabalho tantas vezes, assim como a urgência e grandiosidade de sua visão artística para ir além da música: uma das verdadeiras criadoras do conceito de construção de universo na música, e tomando sempre a frente de todos os projetos dos quais faz parte. É a mulher que no auge da epidemia de AIDS incluiu folhetos de conscientização nas cópias físicas de seu álbum; é a mulher que fez da performance de Like a Virgin da Confessions Tour uma exibição pública dos raios-X de suas costelas quebradas pouco antes da turnê, após um acidente andando à cavalo.
Madonna só não acerta quando está desconectada. E, aos olhos de quem acompanha sua carreira há tempos, os anos 2010 parecem ter sido, seja por seu estado de espírito, vida pessoal, ou por obrigações contratuais de uma parceria mercadológica que não a entendia, um longo período de desconexão. Houve lampejos de brilhantismo, momentos fugazes de verdade artística, mas o foco parecia estar no lugar errado.
O intenso início de seus anos 2020 teve um efeito notável em seu trabalho. Provavelmente em sua vida pessoal, também. O retorno à Warner Bros. talvez também tenha sido benéfico: em CONFESSIONS II Madonna retoma seu método de produção predileto, poucos colaboradores externos que entram pontualmente, e quase a totalidade do disco feita a partir da troca direta entre ela e um compositor-produtor parceiro. Aqui, se trata de Stuart Price. Seja ele o retorno da artista a uma produção mais enxuta, seja a conexão com novos artistas que entendem profundamente o espírito do tempo, seja a volta olímpica da Celebration Tour… Madonna soa totalmente conectada aqui. Consigo mesma, com o mundo ao seu redor e com a pista de dança.
CONFESSIONS II bebe das referências contemporâneas certas. Entende plenamente que o maior disco de música dance dos últimos é RENAISSANCE, e parece reverenciar este trabalho, disposto a andar a seu lado. Traz Sabrina Carpenter para uma faixa de dance-pop que não tem compromisso algum em atender ao que seria a fórmula para um hit da jovem; fade para uma faixa onde, finalmente, ela acerta a mão na mistura de cumbia e house; Martin Garrix para produzir uma receita de EDM que não soa datada; Stromae para um corte que honra o melhor dos anos 90 da artista e evolui em cima disso; sua filha, Lola Leon, para uma faixa meditativa que, ao lado de L.E.S. Girl, atuam como uma resposta direta às reflexões da artista quando recém mãe, no excelente Ray of Light, de 1998. Ouvindo e respondendo ao passado e ao presente, Madonna entrega, pela primeira vez em muito tempo, o que queríamos antes de sabermos. Não porque o título remete ao seu último grande álbum, CONFESSIONS II tem pouquíssimo a ver, em quase todos os sentidos, com seu antecessor; mas porque dobra a aposta no dance e no house como ela nunca havia feito, porque recupera o seu spoken-word inconfundível dos anos 90, porque canta com propriedade, personalidade e melodias que servem ao seu timbre atual como não compunha há muito tempo.
Assim como em todos os grandes trabalhos de Madonna, há espaço para diversos temas, níveis de energia e digressões em um álbum que, possuindo olhar afiado da criadora e do produtor parceiro, ainda soa coerente e flui bem. Aqui se repete a lógica de non-stop entre as faixas assim como no primeiro Confessions, e, novamente, ela serve ao disco. Os lados A e B, compostos da maior parte de hits, podem embalar meia hora de festa sem intervenção do DJ. Os lados C e D reduzem o BPM ligeiramente, e os arranjos dão mais espaço para reflexões mais íntimas e noturnas de Madonna a mãe, irmã, filha, de forma que não acontecia desde American Life.
CONFESSIONS II recompensa igualmente uma audição atenta a cada verso escrito, assim como uma noitada com volume altíssimo e óculos de sol na pista. Por isso, e por tudo mais, torna-se imediatamente um dos melhores discos de sua discografia. A cereja no bolo é o fato de Madonna continuar na vanguarda. Que outros artistas, aos 68 anos, já foram e voltaram, se perderam e se reencontraram, tantas vezes? E mais, a cada lançamento em que a Rainha do Pop não se aposenta (do verbete se recolher aos aposentos, que poderia muito bem ser reduzir-se a versões acústicas de seus clássicos); não se entrega criativamente, ela move a régua mais para a frente para todas e todos artistas que, gostem disso ou não, viverão eternamente sob sua sombra - ou, no mínimo, sob o mato aberto que é seu legado.
"Temos que defender o nosso direito de dançar. Você olha pro pessoal do tango, o pessoal da salsa, e eles dançam até os 90 anos. Eu acho que a nossa geração, mesmo que a gente esteja todo desajeitado e pareça estranho, eu sinto muito pessoal, mas eu vou continuar techno-raving até meus 90 anos."