Crítica | Akira (1988)

Dimensões do épico.

 
 

Notas sobre o relançamento em 4K do clássico japonês no Brasil.


Akira começa com uma explosão: vemos Tóquio ser vítima da mesma tragédia que devastou Hiroshima e Nagazaki na Segunda Guerra Mundial. Depois desse preâmbulo, conhecemos a Neo Tóquio cyperpunk do futurista 2019, que cresce ao redor do buraco da explosão. Esse é o cenário de uma grande narrativa que envolve uma gangue de adolescentes motoqueiros, o topo do poder do país, os esgotos, laboratórios secretos, um grande romance e uma grande conspiração.

Essa vontade de abranger tudo, que se apresenta nas cores e luzes da cidade e na trilha sonora, não nos abandona por um minuto enquanto vemos a história de um jovem, Tetsuo, que alcança uma consciência superior ao ser alvo de experimentos secretos do governo, e de seu amigo, Kaneda, que tenta salvá-lo e acaba se envolvendo em uma grande trama política. Uma crítica simples a ser feita é que Akira é um filme curto para uma narrativa épica, o que significa, em uma boa contradição, que cada parte dele é cheia, tornando a experiência de ver o filme no cinema um sem-fim de emoções de acordo com a tradição japonesa, mas também com a noção de épico ocidental.

Aliás, é justamente essa sobreposição do gênero clássico por excelência (o épico) com o gênero mais contemporâneo que há (a ficção científica) o que faz Akira tão bem sucedido nos últimos 40 anos. Ao envolver uma cidade inteira (que é um mundo) em uma história de habilidades sobrenaturais em laboratórios secretos, o filme dá uma roupagem conhecida para um problema relativamente novo: o desespero neoliberal. É uma narrativa que acaba literalmente nas entranhas expostas de um jovem expelido pelo sistema político e econômico de um país traumatizado e imagina o lado de lá dessa explosão como uma reconexão cósmica.

A restauração em 4K, ainda que pareça ter enfraquecido a trilha sonora, e a possibilidade de ver Akira em tela grande são bastante adequadas ao que o filme se propõe. Especialmente por conta da imaginação espacial pensada pelos animadores, as cenas do primeiro ato desse épico, com a perseguição de motos, adiantam muito do que houve de bom no cinema norte-americano dos anos 90 e talvez seja o principal ponto que destaque essa película: a sensação de urgência que algo tão grandioso nos causa.

Anterior
Anterior

Crítica | Anistia 79 (2026)

Próximo
Próximo

Crítica | MADONNA - CONFESSIONS II